Procura-se por pessoas que se importam

Há uma anedota segundo a qual, quando alguém pergunta a outra como ela está e recebe como resposta um tranquilo “está tudo bem”, isso certamente significa que ela não sabe o que está acontecendo no mundo. A piada funciona porque toca em algo verdadeiro: viver informado é, em alguma medida, viver inquieto.

Guerras, crimes, catástrofes ambientais, sofrimento e morte desfilam diariamente diante de nós. Em poucos minutos de um telejornal matinal, somos expostos a notícias suficientes para justificar desalento ou indignação. Ainda assim, mesmo esse fluxo contínuo de más notícias captura apenas uma fração mínima do sofrimento real que ocorre no mundo.

Considere o seguinte exemplo: quando se fala em guerras, a maioria das pessoas consegue mencionar alguns conflitos armados em curso; talvez três, talvez cinco. No entanto, no exato momento em que escrevo este texto, dos 193 Estados reconhecidos pelas Nações Unidas, cerca de 60 estão envolvidos em conflitos armados. Isso significa que aproximadamente 31% da comunidade internacional encontra-se em guerra. As regiões mais afetadas são o Norte da África e o Oriente Médio, que, juntas, concentram 45 conflitos ativos. Estimativas de 2023 apontam que, além de milhares de mortos e feridos, mais de 117 milhões de pessoas estavam deslocadas à força em razão de perseguições, conflitos, violência generalizada e graves violações de direitos humanos.

Esses números são perturbadores; ou ao menos deveriam ser. A reação esperada de pessoas consideradas “normais” é algum grau de consternação. No entanto, existe uma tragédia de escala ainda maior, praticamente ausente do noticiário, das agendas políticas e das conversas cotidianas, embora convivamos com ela o tempo todo: dentro de nossas casas, nos supermercados, nas farmácias, nas ruas do bairro e nos arredores das cidades.

Todos os dias, literalmente milhões de animais são mortos por ações humanas deliberadas. Outros sofrem e morrem nas ruas de nossas cidades ou na natureza, vítimas de fome, sede, doenças, desastres naturais e predação. O contato mais visível com essa realidade costuma ocorrer quando cruzamos com cães e gatos abandonados à própria sorte. No entanto, mesmo que conseguíssemos ajudar todos os cães e gatos em situação de abandono no planeta, ainda assim estaríamos alcançando menos de uma fração ínfima dos animais que sofrem.

A vasta maioria do sofrimento animal permanece longe de nossa visão e fora do nosso campo moral cotidiano: coelhos, camundongos, galinhas, porcos, vacas, peixes e outros animais, confinados aos bilhões em laboratórios e em sistemas industriais projetados para maximizar eficiência e lucro. Vivem vidas curtas, marcadas por sofrimento extremo, e morrem de forma sistemática e invisibilizada. Paralelamente, um número ainda maior de animais selvagens enfrenta sofrimento intenso e contínuo. Para cada ser humano atualmente existente (inclusive aqueles afetados por guerras e deslocamentos forçados) há literalmente milhares de animais não humanos vivendo e morrendo em condições que, se infligidas a humanos, seriam reconhecidas sem hesitação como moralmente intoleráveis, repugnantes.

Se os números da guerra nos sensibilizam, por que essa catástrofe de proporções muito maior não ocupa as manchetes, não estrutura debates legislativos e não se torna viral nas redes sociais?

A resposta desconfortável é simples: a maioria das pessoas não se importa com o sofrimento dos animais; ou, ao menos, não o suficiente para alterar hábitos, rever escolhas ou abrir mão de conveniências profundamente naturalizadas.

Por onde quer que se vá, produtos de origem animal se impõem como pano de fundo da vida cotidiana. No supermercado, corpos e derivados de animais são colocados nos carrinhos com indiferença quase automática. Nos restaurantes, os cardápios oferecem animais como opções culinárias, e pratos retornam à cozinha com ossos e restos, como se ali jamais tivesse havido alguém. O animal desaparece por completo do campo moral, reduzido a ingrediente, mercadoria, sobra. Indiferença por toda parte!

A maioria de nós cresceu alimentada por imagens reconfortantes: celeiros bucólicos, pastos verdejantes, animais felizes desempenhando, voluntariamente, seus “papéis”. Essas imagens persistem nas embalagens dos supermercados, com vacas felizes, galinhas alegres, porcos caricaturalmente sorridentes, todos retratados como se aceitassem, com satisfação, terem seus próprios corpos à venda, dilacerados. Mas por trás dessa iconografia existe uma máquina vasta, altamente eficiente e profundamente violenta, cuja principal função é tornar suas vítimas invisíveis.

Em menos de um século, a criação intensiva de animais, isto é, o confinamento sistemático de seres sencientes para a produção acelerada e barata de carne, ovos, leite e outros derivados, transformou radicalmente a relação humana com os animais. O consumo de corpos e derivados de animais atingiu níveis historicamente inéditos, sustentado por um sistema industrial que opera à distância do escrutínio moral público.

Mas a forma como tratamos os animais não é um detalhe periférico da vida social; ela revela o tipo de sociedade que estamos construindo.

O sofrimento animal costuma ser enquadrado como uma questão de compaixão individual, uma causa restrita a amantes de animais ou pessoas excessivamente sensíveis. Esse enquadramento, porém, ignora tanto o vasto corpo de conhecimento científico sobre a senciência animal quanto a escala colossal do dano institucionalizado que infligimos a seres capazes de sentir dor, medo e prazer.

Mudar essa realidade exige mais do que empatia episódica; exige justiça. A criação intensiva de animais não é uma tradição ancestral imutável, mas um experimento industrial contemporâneo, com consequências éticas que apenas recentemente começamos a enxergar e a compreender.

Trata-se de um dos desafios morais mais complexos e abrangentes do nosso tempo. Sua magnitude, sobretudo quando consideramos também o sofrimento que aflige os animais selvagens, pode paralisar até mesmo os mais determinados. 

Ainda assim, em todo o mundo, milhares de pessoas já decidiram não aceitar esse estado de coisas. Elas partem de uma ideia simples, mas inflexível: o sofrimento dos animais importa, não de forma abstrata, não como metáfora, mas porque são indivíduos sencientes, que estão sofrendo e morrendo aos bilhões. E é aqui que algo decisivo acontece: no meio dessa carnificina cotidiana, encontro pessoas que se importam.

Vejo milhares delas reunidas, ouvindo atentamente, trocando ideias, oferecendo tempo, dinheiro, trabalho intelectual e energia emocional por seres de outra espécie que jamais conhecerão individualmente. Pessoas que poderiam seguir a vida sem jamais confrontar essa realidade, mas que, em vez disso, decidiram olhar diretamente para ela. Ativistas, cientistas, empreendedores, formuladores de políticas, donas de casa e cidadãos comuns que trabalham para desmontar esse sistema, desenvolver alternativas, reformular cadeias produtivas e defender os animais em universidades, parlamentos, tribunais e nas ruas.

Diante dessas pessoas, uma pergunta inevitável se impõe: por que, em um mundo no qual a maioria não se importa, você se importa? Como isso aconteceu? O que deu certo no seu percurso moral?

São perguntas genuinamente importantes. Você se tornou quem é por percepção própria, por escolhas conscientes e deliberadas? Ou foram sua família, seus amigos, sua educação e encontros fortuitos que o moldaram? E, talvez a pergunta mais difícil: uma vez que você passou a enxergar o sofrimento que existe por trás de toda a maquinaria de invisibilização, por trás do marketing, das narrativas culturais, das tradições repetidas sem reflexão, o que fez com que você seguisse adiante, mesmo sabendo que quanto mais se vê, mais dói?

Importa reconhecer o peso dessa escolha. Importa porque se importar tem um custo. Ver o que antes era ignorado rompe com a indiferença confortável e torna impossível o retorno à inocência moral. Ainda assim, você permaneceu.

Se soubéssemos exatamente por que algumas pessoas atravessam esse limiar moral e outras não, talvez conseguíssemos fazer com que mais pessoas se importassem de verdade. Talvez fosse possível inverter a lógica de um mundo no qual aqueles que se opõem à crueldade são tratados como ingênuos, exagerados ou radicais; um mundo no qual quem defende os animais precisa constantemente justificar por que se importa, enquanto quem os explora raramente precisa justificar o contrário.

Seja qual for a combinação de fatores que fez de você quem é, meu pedido é simples: continue. Continue se importando. Continue resistindo à paralisia moral que torna a crueldade aceitável e a indiferença confortável. Continue afirmando, com suas escolhas e ações, que os animais não humanos importam. Não pelo meio ambiente; não pela saúde humana; não pelos humanos marginalizados. Os animais não humanos importam por si mesmos.

Defender os animais pode, e talvez deva, ser um propósito de vida. Muitos passam a existência inteira buscando algo que dê sentido duradouro à própria trajetória. Uma vida orientada por propósito não elimina a angústia que sentimos diante da crueldade com os animais e da apatia moral que afeta a maior parte da sociedade contemporânea, mas a torna inteligível; não evita a dor, mas a transforma em compromisso. Há algo profundamente humano em dedicar a própria vida a reduzir o sofrimento alheio, sobretudo quando esse sofrimento é amplamente ignorado.

Que possamos, juntos, despertar mais pessoas para a urgência de considerar seriamente os animais não humanos. Se o começo deste texto foi sombrio, é porque a realidade o é. Mas ele não termina no desespero. Termina na possibilidade, real e concreta, de que a atenção, a responsabilidade e a ação ética não sejam exceções raras, mas sementes de um mundo moralmente mais amplo e justo, no qual importar-se deixe de ser um ato estranho e radical e passe a ser simplesmente o que fazemos.

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Referências

ARIOCH, D. Não há causa mais urgente do que a vegana. 2 ago. 2025. Vegazeta. Disponível em: https://vegazeta.com.br/nao-ha-causa-mais-urgente-do-que-a-vegana/

CHARLEAUX, J. P. Feliz Ano Novo, com 120 guerras em andamento no mundo. Nexo Jornal, Seção Internacional, 31 dez. 2024. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/feliz-ano-novo-com-120-guerras-em-andamento-no-mundo

CUNHA, L. C. O debate sobre a exploração animal: uma análise dos argumentos das perspectivas divergentes. 1. ed., mar. 2025. 112 p. (Coleção uma jornada pela Ética Animal: do básico ao avançado). Disponível em: https://senciencia.org/wp-content/uploads/2025/03/colecao-uma-jornada-pela-etica-animal-livro-4-o-debate-sobre-a-exploracao-animal.pdf

ICRC. How is “Armed Conflict” defined in IHL? 16 abr. 2024. Disponível em: https://www.icrc.org/en/document/icrc-opinion-paper-how-term-armed-conflict-defined-international-humanitarian-law

MARS INCORPORATED. 1 in 3 pets are homeless according to new global report - research shines a light on challenges facing pets today. 23 jan. 2024. Disponível em: https://www.prnewswire.com/news-releases/1-in-3-pets-are-homeless-according-to-new-global-report--research-shines-a-light-on-challenges-facing-pets-today-302040973.html

GUSTAVO HENRIQUE DE FREITAS COELHO

Graduado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Universidade de Franca (2015), e Graduado (licenciatura e bacharelado) em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (2019), onde também obteve o título de Mestre em Filosofia (2023) como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), com pesquisa sobre as implicações morais da técnica de xenotransplantação. Possui especializações em Ciências da Religião pela Faculdade Famart (2020) e em Direito Animal pelo Centro Universitário Internacional UNINTER (2022). Atualmente, é graduando em História (UFU); e doutorando em Filosofia pela mesma instituição, como bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com pesquisa sobre a moralidade da guerra no século XXI. Fundador e coordenador do Grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Ética Animal da Universidade Federal de Uberlândia UFU/CNPq (2019-2024), um projeto que ofereceu dezenas de cursos gratuitos nas áreas de Ética, Direito e Medicina Veterinária, impactando mais de 12 mil alunos em todo o Brasil. Também é membro fundador do Núcleo de Estudos Animalistas: Direito Animal, Ética e Sustentabilidade da Faculdade de Direito da UFU, iniciativa que amplia o debate sobre os direitos animais em contextos acadêmicos e jurídicos. Diretor-fundador do Instituto de Educação Antiespecista, organização dedicada a combater o especismo em todas as suas manifestações, com o objetivo de criar um espaço de transformação social por meio da educação. É organizador de dezenas de eventos acadêmicos, autor de artigos, capítulos de livros, e colunista no portal Jus Animalis. http://lattes.cnpq.br/5265638620788673

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