O louco, a fera e o canibalismo virtual
“Um alienado é, na realidade, um homem ao qual a sociedade se nega a escutar e ao qual quer impedir que expresse certas verdades insuportáveis” [1].
Um encontro inusitado e fatal viralizou nas redes sociais no dia 30 de novembro de 2025. O jovem Gerson de Melo Machado, 19 anos, morreu após invadir a jaula da Leona, uma leoa que vive em um zoológico de João Pessoa. Nesta reflexão, pretendemos pensar em alguns aspectos deste encontro mortal, são eles: a condição social do rapaz que faleceu, o ambiente onde vive a leoa e o papel das redes sociais na atualidade.
Gerson de Melo Machado nasceu em João Pessoa, na Paraíba. No dia da fatalidade, as imagens mostram o rapaz escalando um muro de seis metros e entrando no recinto da leoa. Ele tenta descer por uma árvore, mas é interceptado por Leona antes de chegar ao chão, vindo a falecer no local. Tudo foi filmado e postado nas redes sociais no mesmo momento em que a tragédia acontecia.
O incidente nos lembra a música Metrópole (1986), do grupo Legião Urbana: “É sangue mesmo, não é merthiolate. Todos querem ver e comentar a novidade. Tão emocionante um acidente de verdade. Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre. Vai passar na televisão”. Na época em que a letra foi criada, as notícias eram divulgadas pelas redes abertas de televisão, muito diferente de hoje, onde as redes sociais são mais velozes e furiosas. São instantâneas. Toda novidade viraliza no momento do acontecimento. O jovem foi vilipendiado, ridicularizado e defendido em algumas redes sociais. Veio à tona o seu histórico de transtorno mental.
Michel Foucault é um autor imprescindível para pensar a questão do louco e da loucura como espaço excluído da razão e, portanto, da organização social desde a modernidade. É no espaço do fora que se situa o louco na modernidade, tendo em vista que ele é esquadrinhado pelo saber psiquiátrico e destituído de falar sua verdade, na medida em que a razão é a responsável pela produção de verdade.
Antonin Artaud, na frase que começa esta reflexão, aborda a difícil realidade vivenciada por Van Gogh. Sua obra, que hoje é considerada uma das maiores de sua época, só foi reconhecida pelo público muitos anos após a sua morte. Durante a sua vida, as pessoas não perceberam a sua genialidade, principalmente por causa do laudo psiquiátrico que o classificou como louco, fazendo com que fosse percebido como alguém incapaz de compreender o mundo racional e as relações sociais.
A nau dos loucos marca a história da loucura de forma trágica e desumana. Eram barcos que levavam sua “carga insana” de uma cidade para outra. Os loucos tinham uma existência errante. Eram escorraçados das cidades. Esse costume era frequente na Alemanha, durante a primeira metade do século XV. Durante aquele período, têm-se vestígios de partidas obrigatórias, tratando-se de loucos detidos pelas autoridades municipais [2].
Hoje a realidade é outra. Muitas coisas mudaram outras continuam sem uma solução. No caso do jovem, a conselheira Verônica Oliveira, responsável por atende-lo dos 10 aos 18 anos, atribuiu ao Estado a negligência no atendimento do rapaz. Não houve o reconhecimento e o tratamento do transtorno mental. Houve um abandono por parte do Estado, da família e da sociedade. Todos falharam! E quanto a leoa?
A Leona é vitima de um espetáculo de dor, isolamento e solidão, o zoológico. O historiador norte-americano Peter Sahlins publicou a obra 1668: The year of the animal in France (1668: O ano do animal na França), na qual ele pensa o papel dos animais na construção do absolutismo no reinado de Luís XIV. O ano de 1668 foi o ano da criação de um zoológico no Palácio de Versalhes, diz o autor, “no zoológico, os animais eram graciosos e civilizados, a fim de representar o poder civilizador do rei, levando à conclusão de que na natureza animal do humano justificava o governo absolutista” [3].
A Europa moderna foi marcada pela captura, objetificação e uso de várias espécies de animais para o entretenimento e para a instrumentalização científica e industrial. A prática de realizar experimentações com animais não humanos virou uma febre, algumas espécies, consideradas biologicamente próximas da humana, foram massacradas, caçadas, presas e torturadas em experimentações que duravam meses. Por outro lado, o zoológico representava a superioridade humana diante das “feras”, capturadas e expostas como mercadorias nos zoológicos. O caso da Leona nos ensina muito sobre os limites do “entretenimento”.
A reação do animal enjaulado foi defensiva. Para ela, seu espaço foi invadido por um estranho, tanto que ela não devorou o rapaz. Sua reação foi defender e ficar alerta. No relato da veterinária que atendeu a leoa, houve um grande estresse para o animal, que precisou ser temporariamente isolado. Isolada do isolamento da jaula? Algo que não existe na natureza. Algo criado pela humanidade para “diversão”, “entretenimento” e para alimentar o fetiche de ver um animal subjugado.
Os zoológicos estão na mira da proteção animal. O caso do Elefante Sandro, cativo no Zoológico Municipal de Sorocaba, marca uma disputa judicial sobre a sua transferência para um santuário. A política local está usando o animal para agradar os eleitores e ignorando a decisão judicial e as preocupações de ativistas e pessoas ligadas à causa animal. O assunto foi abordado no texto de Laerte Levai, A viagem do elefante: reflexões sobre o caso Sandro [4].
O zoológico é um local de dor e privação. Serve para alimentar um comportamento colonialista e opressor, que separa espécies e enclausura vidas para todo sempre. Neste tempo de “produção de conteúdo” muitas pessoas se contentam com o superficial, com a falta de uma análise aprofundada. O ver tornou-se mais importante que o dialogar, construir, pensar... O regozijo com o vídeo da morte, seguido de longas discussões nas redes socias, marca um momento muito difícil para a humanidade. O canibalismo virtual está levando o ser humano para um local perigoso, para uma sentença sem julgamento.
Leona e o jovem representam duas vidas despojadas de direitos. Ele sem o direito aos cuidados de saúde, perambulava pelas ruas à deriva. Ela, em uma prisão perpétua, foi capturada, presa e vive fora do convívio com a sua espécie. O encontro fatal é um alerta sobre como a humanidade trata a vida. Vidas consideradas de menor valor são descartáveis?
_________
Referências bibliográficas
[1] ARTAUD, Antonin. Van Gogh, o suicidado pela sociedade. 2. ed., Rio de Janeiro: Achiamé, 1947, p 6.
[2] FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 9.
[3] SAHLINS, Peter. 1668: the year of the animal in France. New York: Zone Books, 2017.
[4] LEVAI, Laerte. A viagem do elefante: reflexões sobre o caso Sandro. Jus Animalis. 14 ago. 2025. Disponível em: https://jusanimalis.com.br/etica-animal/viagem-elefante-sandro-laerte-levai. Acesso em: 11 jan. 2026.