entrevista com Sônia Fonseca
"Olhando hoje para trás, em meio a tantas passeatas, panfletagens, abaixo-assinados e reuniões, à frente de tantos contatos políticos e jurídicos, projetos de lei e acompanhamentos legislativos, comparo-me a uma enzima que provoca as reações. Não sou eu que realizo a ação, mas a provoco"
Presidente Vitalícia do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, organização não-governamental fundada em 2000, Sônia Peralli Fonseca pertence à geração de mulheres protetoras cujo ativismo se voltou principalmente à criminalização da crueldade e à redução do sofrimento animal. Na legislação do século anterior era comum a impunidade de quem maltratava animais, inexistindo quaisquer meios para aliviar a dor dos bichos que sofrem. A justiça da época nunca se opôs ao extermínio maciço de cães abandonados, nem nunca impediu a exploração de animais em circos, tampouco questionou a tortura de cobaias nos laboratórios científicos ou o abate de bovinos com marretadas. As normas legais do século XX, de feições nitidamente antropocêntricas, sempre colocavam os animais em um patamar de inferioridade existencial, na condição de criaturas irracionais, objetos de uso e fruição ou bens semoventes que existiam apenas para servir ao homem.
Muita gente se insurgiu contra esse estado de coisas, merecendo lembrança o esforço pontual de entidades que cuidavam de cães, gatos e cavalos maltratados, sobretudo, buscando locais que lhes servissem de abrigo. Mas havia graves lacunas em aberto, como as diversões públicas que subjugavam animais, a exposição de espécies exóticas em condições hostis, a vivissecção praticada também nas atividades de ensino e tantas outras situações crueis pouco ou nunca questionadas pelo Ministério Público. O grande divisor de águas veio com a profissionalização da Advocacia Animalista, já no terceiro milênio, quando o Direito Animal enfim foi reconhecido como disciplina jurídica autônoma. Olhando para o passado, em comparação às conquistas do tempo presente, o Jus Animalis vem agora projetar luzes sobre a trajetória de uma mulher paulistana que, em 1998, articulou a integração nacional das associações protetoras de animais, preparando-as para agir de modo proativo e estratégico.
Essa pessoa é Sônia Peralli Fonseca, professora de biologia que foi colega de Paulo Nogueira Neto na USP e que, por não se conformar com a situação dramática vivenciada pelos animais na rua, passou a protegê-los. Nos anos 80, ao saber da farra do boi e da caça das baleias, tornou-se ativista propriamente dita, cuja liderança contribuiu para mudanças legislativas. Se a farra do boi foi julgada inconstitucional, é porque Sônia Fonseca contribuiu nos bastidores para antecipar a votação dos ministros do STF. Se hoje existe o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, é porque Sônia Fonseca convenceu a comissão de juristas encarregados da redação do texto que a criminalização era necessária. Se hoje o país possui uma rede de entidades animalistas em diálogo permanente, é porque Sônia Fonseca a idealizou vinte e sete anos atrás. E se hoje o Fórum Animal é uma das maiores referências na Advocacia Animalista brasileira, questionando situações crueis inimagináveis, é porque a perseverança de Sônia Fonseca se mostrou fundamental para sua atuação estratégica em defesa dos animais.
Jus Animalis - Quando lançamos um olhar para a história da proteção animal no Brasil, seu nome logo vem à tona. Sabemos que no século 20 a carrocinha funcionava como metodologia oficial de captura para extermínio de cães errantes, que o trânsito de veículos de tração animal era comum nas cidades e que nos matadouros o abate ocorria a golpes de marreta e machado. Fale um pouco desse tempo, das suas origens e de seu amor pelos animais.
Sônia Fonseca – Sou paulistana, minha mãe era descendente de italianos e meu pai de família brasileira de quatrocentos anos. E posso dizer que fui uma criança atormentada. Não podia ver o sofrimento dos bichos, sofria por eles e tinha febres emocionais. Tomava cuidado até para não pisar nas formigas, porque tinha pena delas. Uma vez vi minha babá queimar uma taturana ao sol, isso me fez muito mal. Lembro que, em outra ocasião, dentro de um açougue, a imagem da carne pendurada exposta ao público muito me impressionou. Eu tive pesadelos com isso, ao redor de meu berço pairavam cabeças de cavalo, partes de boi, o cheiro nauseante de sangue. Descobri então que a carne que minha mãe me obrigava a comer provinha de animais abatidos. Creio que a partir daí, ainda pequena, comecei a pensar em alguma forma de acabar com o sofrimento animal e, obviamente, deixar de comer carne.
Meu pai, que era uma figura boníssima, foi militar e em dado momento da carreira transferiu-se para Taubaté. Nesta cidade, eu pude ver a circulação de muitas carroças e charretes, com os animais sendo impiedosamente chicoteados pelos condutores. Com certeza essa cena me abalou desde a infância. Minha professora no curso primário, D. Nazaré, certa vez disse à classe: “Um dia, quem sabe, vocês serão inventores”, como que pedindo sugestões de novas ideias às crianças. Foi então que eu propus, como invenção pessoal, que as charretes fossem movimentadas por um cavalo de pau que se acionaria por pedais, sem o uso de animais...
Quando fui crescendo tive pena dos animais que viviam nas ruas, quando podia eu os pegava e trazia para casa. Mas quase sempre esses animais errantes eram doados por minha mãe. E eu ficava mal. Naquele tempo, a carrocinha passava para laçar os cães e isso me apavorava. A imagem deles laçados pelo pescoço e jogados no furgão da prefeitura era triste. Perto de onde eu morava havia uma casa com um terreno muito grande, isso me levou a pensar que seria bom ter um lugar assim para acolher todos os animais abandonados que precisavam de comida, abrigo e cuidados básicos. Assim fui me tornando conhecida por atitudes que tomava em favor dos animais. O trabalho que depois acabei realizando por eles foi necessário de acordo com meus propósitos de vida, a fim de que os animais não sofressem. Mas preciso dizer que sou uma pessoa contida, não gosto de aparecer.
Jus Animalis - Consta em sua formação acadêmica que é bióloga pela Universidade de São Paulo, com licenciatura em História Natural e especialização em Zoologia. Onde trabalhou profissionalmente e de que maneira suas escolhas influenciaram, ao longo da vida, nas iniciativas e ações que realizou em defesa dos direitos animais?
Sônia Fonseca - Embora minha intenção inicial fosse a de cursar Medicina, desisti logo dessa ideia, porque na realidade eu sempre quis lidar com animais, não com gente. Ingressei na Universidade de São Paulo para estudar História Natural, nome que se dava, naquele tempo, ao curso de Biologia, no qual me formei em 1959. Durante o período da faculdade sofri com as aulas de vivissecção, que exigiam o uso de alguns animais, sobretudo anfíbios. Participar das aulas era obrigatório para que os alunos obtivessem nota nas disciplinas. Muitas vezes eu me retirava da sala, em meio às aulas, para chorar no banheiro. Isso com certeza despertou em mim, anos depois, a vontade de apoiar uma lei que garantisse a objeção de consciência aos alunos contrários à metodologia oficial com animais.
Não posso deixar de dizer que tive como colega, na USP, Paulo Nogueira Neto, grande nome do direito ambiental brasileiro e que faria parte da Constituinte de 1988. Mais velho que o restante da turma, ele era magnânimo, modesto, discreto e generoso. Na época atuava como Secretário de Meio Ambiente, em Brasília, atividade que lhe rendeu grande prestígio. Ele sabia que eu gostava dos animais e me ajudou bastante. Décadas depois, quando da preparação do Congresso para a Assembleia Nacional Constituinte, vim a saber que ele estava na Comissão que trataria da redação do capítulo do Meio Ambiente.
Mas voltando à minha trajetória de vida, no início dos anos 60 prestei concursos públicos para ingressar no magistério, mais especificamente nas áreas de biologia educacional e biociências. Por sorte não caiu experimentação animal na prova e eu passei. E assim, a partir de 1961, comecei a lecionar como professora efetiva nas disciplinas de Ciências e Biologia, profissão que exerci durante 34 anos em escolas públicas e particulares de São Paulo, além de dar aulas em cursinho pré-vestibular.
Meus alunos logo perceberam que eu era contrária a atos de violência nos animais, tanto que nas minhas aulas a vivissecção não acontecia. Acredito que eu tenha sido uma das primeiras vozes contra a experimentação animal no ensino. Com o passar do tempo, muitos alunos que tive aprenderam a respeitar os animais e alguns chegaram até a me acompanhar em algumas manifestações de protesto na época, como por exemplo aquelas contrárias à farra do boi e à caça das baleias, práticas que aconteciam livremente no Brasil.
Mas o envolvimento ativista pelos animais comecei no início da década de 80, época em os jornais começaram a denunciar os abusos da farra do boi. O curioso é que eu vim a saber detalhes dessa prática cruel em sala de aula, durante conversas com meus alunos. Nessa mesma época também havia um forte movimento contra a caça das baleias, que ainda ocorria no estado da Paraíba. Fiquei tão impressionada com a violência que decidi ajudar a combatê-la. Assim começou meu ativismo pelos direitos animais.
Jus Animalis - De fato, naquele tempo a farra do boi foi o grande tema que mobilizou ecologistas e protetores de animais, alcançando repercussão internacional por seus índices de crueldade. Igualmente cruel, a caça das baleias tornou-se pauta da imprensa porque o espetáculo do retalhamento dos cetáceos arpoados, na praia do Costinha, chegou a entrar para o Calendário Turístico da Paraíba. Como isso influenciou, em termos práticos, seu ativismo?
Sônia Fonseca - Nos anos 80 a principal questão que mobilizou os ativistas brasileiros era a farra do boi, manifestação popular sádica praticada durante a Semana Santa no litoral catarinense e que consistia na perseguição e linchamento público dos bovinos. A escritora Urda Klueger enviou uma carta de denúncia para o jornal O Globo, contando detalhes horríveis dessa prática tida como cultural em Santa Catarina. Isso tudo antes da Constituição de 1988, quando a crueldade contra animais era apenas contravenção penal. Eu também não me conformava que ninguém pudesse fazer nada para impedir aquilo. Foi aí que me tornei ativista pelos animais. Lembro que na época o jornalista Dagomir Marquezi, que assinava uma coluna ecológica no “Estadão”, ajudou na propagação da notícia e isso repercutiu na opinião pública.
Um fato essencial em minha vida foi ter ido a um encontro contra a farra do boi, em São Paulo. Na época dos fatos, quando a campanha de protesto já havia sido desencadeada, foi publicado no jornal O Estado de S.Paulo um anúncio pago em que o advogado Antônio Gândara Martins convidava pessoas para uma reunião aberta cujo objetivo era discutir o problema da farra do boi. A convocatória deu certo. A reunião aconteceu em uma sala no Parque Antártica, estádio do Palmeiras, onde compareceram muitas pessoas interessadas que atuavam na proteção animal paulistana e, também, de outras cidades.
Foi ali que conheci muita gente ligada ao movimento de proteção animal. Desse encontro saiu a ideia de fazermos uma manifestação. Fiquei sabendo que em outros estados alguns grupos também estavam se mobilizando. Nossa grande referência era a advogada Edna Cardozo Dias, que fundara em Minas Gerais a Liga de Prevenção da Crueldade contra o Animal. No Rio de Janeiro posso citar Fernanda Colagrossi (APANDE) e Claudie Dunin (SOZED). Em São Paulo, Ana Maria Pinheiro (União em Defesa das Baleias) e Cacilda Lanuza (Grupo Seiva de Ecologia). Em Santa Catarina tínhamos Halem Guerra (ACAPRA). No Ceará atuava pelos animais a advogada Geuza Leitão. Era esse o pessoal contrário à farra do boi e que fez o tema chegar, por meio de ação judicial, até o Supremo Tribunal Federal.
Fizemos em São Paulo uma importante manifestação com passeata e faixas de protesto contra a farra do boi, isso precisamente em 16 de maio de 1986, saindo do Largo do Arouche, passando pela Avenida Ipiranga, seguindo pela Avenida da Consolação e finalizando na Rua Xavier de Toledo, defronte ao prédio do antigo Mappin. Reunimos em abaixo-assinado milhares de assinaturas populares. Além da União Internacional Protetora de Animais (UIPA), que fez o mesmo, eu também enviei material aos ministros do STF, em Brasília. Nesse ínterim surgiu a Constituição de 1988 dizendo, no artigo 225, que ao poder público incumbe vedar a submissão de animais à crueldade. O processo iniciado pelas associações protetoras caiu com o ministro relator Francisco Rezek, a quem encaminhamos uma extensa documentação.
Anos depois eu fui a Brasília para acompanhar a audiência pública relacionada às propostas da nova lei de experimentação animal. Aproveitando o ensejo de estar lá pedi para falar com o ministro Rezek e saber do nosso projeto que estava em compasso de espera. Nesse dia o ministro me recebeu e eu o indaguei por que não havia ainda tomado uma posição no processo da farra do boi. Ele ponderou dizendo que o estado de Santa Catarina era muito valoroso para o Brasil, mas quem havia ingressado com a ação foram entidades do Rio de Janeiro e São Paulo. O estado de Santa Catarina, segundo ele, não poderia ser ofendido por outros estados. Mas finalizou dizendo que se eu trouxesse algo sério vindo do próprio estado catarinense, aí sim o processo seria colocado em pauta de julgamento.
Por coincidência aconteceu em Santa Catarina, na Semana Santa daquele ano, um episódio grave envolvendo a farra do boi, quando um animal em fuga caiu sobre o telhado de uma casa e feriu moradores. Farristas apanharam o boi mesmo assim, a polícia intercedeu e o caso virou notícia de jornal. Maria Cristina de Oliveira, a dona da casa invadida pelo boi perseguido pelos farristas, ficou indignada com o ocorrido. Eu propus então que ela fosse a Brasília relatar o caso ao ministro Rezek, sob nossas custas. Deu certo. Naquele ano o ministro levou a julgamento a ação contra a farra do boi.
Na leitura de seu voto como relator, o ministro Rezek fez um belo discurso no sentido de que a farra do boi era uma prática cruel aos animais, dando início aos debates. Acontece que o ministro Maurício Corrêa, de posição contrária, pediu vista dos autos. Meses depois, com a maioria dos ministros votando pela inconstitucionalidade da farra do boi, obtivemos ganho de causa. Isso representou um marco histórico para o direito dos animais no país. Admito que tive sorte em chegar até Brasília e contribuir com um importante passo para a proibição dessa crueldade, declarada inconstitucional. Foi uma das coisas mais emocionantes que eu já passei na vida.
Já a luta contra a matança dos cetáceos no litoral da Paraíba representava uma causa igualmente importante para o ativismo brasileiro. Quem esteve à frente disso foi a Associação Paraibana dos Amigos da Natureza (APAN), primeira associação ecológica do Nordeste. Conversei algumas vezes por telefone com Paula Frassinete, professora ativista que iniciou o enfrentamento público dessa prática cruel que ainda acontecia por ali. Até que o presidente José Sarney assinou um decreto proibitivo em 1985 e depois a Lei dos Cetáceos, em 1987.
Posso dizer que a caça das baleias também inspirou o ativismo em mim, ao lado da farra do boi. Pela cidade de São Paulo, em defesa da proteção dos cetáceos, colhi com a ajuda de meus alunos, nos portões do Parque Ibirapuera e outros locais, milhares de assinaturas que foram encaminhadas ao Presidente da República. Foi a nossa contribuição. Nas vésperas da assinatura da lei, Ana Maria Pinheiro liderou uma performance subindo a rampa do Planalto com uma baleia inflável. O resultado positivo dessa campanha certamente entusiasmou muitos jovens e ativistas, mostrando a eles que as mudanças são possíveis e que vale a pena acreditar.
Jus Animalis - Dentre as características marcantes de sua atuação pelos animais e, mais tarde, por intermédio do Fórum Animal, podemos distinguir os contatos diretos e lobbies políticos. Após encaminhar às autoridades competentes ou aos deputados, material relacionado à crueldade, fazia o devido acompanhamento do pleito. Fale um pouco dessa estratégia.
Sônia Fonseca - Somos politizados, mas temos de ter o cuidado de sermos apartidários. Digo sempre que essa é uma condição sine qua non para nossa atuação pelos animais. E falo por experiência própria. Tudo o que conseguimos avançar nos direitos animais, de modo independente ou pelo Fórum Animal, foi justamente com passos políticos e acompanhamento legislativo. Penso que o êxito de qualquer projeto apresentado depende do nosso acompanhamento, que se mostra essencial. Como ativista fiz muitos lobbies políticos junto aos parlamentares, encaminhando a eles material de apoio. Eu acompanhava de perto as proposituras na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e, também, em Brasília.
Na época da Constituinte de 87/88 fui voluntária da proteção animal. Como já disse, tive sorte porque meu colega de turma e amigo, Paulo Nogueira Neto, estava na Comissão do Meio Ambiente. O presidente da Assembleia era o deputado Ulysses Guimarães, grande estadista e que foi amigo e companheiro político de um tio meu residente na região de Ribeirão Preto. Quando abertos os trabalhos da Constituinte, preocupei-me com as questões do meio ambiente e principalmente dos animais. Por isso, contatei meu primo, então prefeito de Altinópolis, o qual realizou a intermediação com a Câmara dos Deputados. Não demorou para que Ulysses Guimarães colocasse seu gabinete à disposição e eu fui recebida pelo secretário.
Na época em que comecei o ativismo, a forma mais comum de mostrar a força de uma pretensão em favor dos animais, seja ela qual fosse, era com abaixo-assinados. Uma das personalidades que nos ajudou muito, em São Paulo, foi a cantora Rita Lee. Logo percebi que ela gostava de animais. Pedi a uma voluntária, certa vez, que colhesse assinaturas para um abaixo assinado e Rita Lee foi muito receptiva, dizendo o seguinte: “Faço qualquer coisa pelos animais, se for preciso tiro até a roupa”. Virginia, irmã de Rita e, também, defensora dos animais, enfatizava que, nos casos mais graves de desrespeito aos direitos animais, precisávamos mesmo do apoio de Rita Lee.
Sobre isso há um episódio que merece ser contado. Recordo que entre o final da década de 80 e o início de 90, empresários queriam introduzir as touradas no Brasil. Quando nos demos conta disso eles já estavam construindo uma arena de touros no interior de São Paulo. Ana Maria Pinheiro e eu passamos então a denunciar o que verdadeiramente acontecia nas touradas, desde o preparo do boi, com cansaço induzido, vaselina nos olhos, até as estocadas com banderillas e o corte da cervical do animal, que se esvaía em sangue na arena. Uma covardia.
Naquela época, saiu uma notícia na revista Veja, onde o cônsul espanhol declarava a vontade de introduzir as touradas em nosso país. Fiquei estarrecida e não tive dúvidas, resolvi ir até o consulado falar com ele. Fomos num pequeno grupo formado por Rita Lee, Ana Maria Pinheiro, o vereador Roberto Tripoli e eu. O cônsul alegou que a colônia espanhola era muito expressiva no Brasil e que tinha o direito de exercer sua cultura. Mas como a Constituição de 88 já estava em vigor, eu ponderei a ele que nós tínhamos uma lei maior que vedava a crueldade aos animais. Ele respondeu alegando que nossas leis eram obsoletas. Eu retruquei: “Como o senhor ousa declarar uma coisa dessas, vivendo em nosso país?”. A conversa terminou aí.
Na mesma manhã, em São Paulo, eu soube que aconteceria um encontro com toureiros e empresários na região da Consolação, onde cerca de 500 pessoas participariam de um almoço. Decidimos nos dirigir até o local escolhido, formando uma passeata encabeçada por Rita Lee e Roberto Tripoli, manifestação esta que atraiu centenas de pessoas para protestar contra as touradas. Sabendo deste movimento ativista, os adeptos da tauromaquia cancelaram o encontro. E o projeto das touradas no Brasil não teve continuidade. Dias depois organizei outro ato similar, desta vez defronte ao consulado de Portugal, também contra as touradas. Além das faixas de protesto, houve a performance de um palhaço vestido de toureiro, que contratei para chamar a atenção do público. Tivemos muita aceitação nas principais emissoras de TV.
Outra batalha envolvia os rodeios, que ganhavam muito prestígio popular nos anos 90. Era difícil combater essa prática tão disseminada nas cidades do interior. Mas o que conseguimos, na época, foi proibir os rodeios na capital paulista, lembrando que a professora Irvênia Prada assinou pareceres técnicos magníficos. Em apoio ao PL proibitivo de rodeios em São Paulo, seguiu um abaixo-assinado que reunimos, em 1998, subscrito por artistas como Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Juca de Oliveira, Célia Helena, Sérgio Mamberti, Fulvio Stefanini, Lima Duarte, Fernanda Torres, Herson Capri, Liana Durval, Rosa Maria Murtinho, Thales Pan Chacon e outros tantos.
Também o assinaram os músicos Eleazar de Carvalho, Ivan Lins, Oswaldo Montenegro e a própria Rita Lee, além de personalidades jurídicas como Paulo Nogueira Neto, Helita Barreira Custódio, Ives Gandra da Silva Martins e Paulo José da Costa Junior. Mas não posso deixar de dizer que o grande trabalho de peso para o êxito da lei proibitiva contra os rodeios na capital paulista foi feito pelo vereador Roberto Tripoli. Resultado: o referido PL, de autoria do vereador Paulo Kobayashi, foi aprovado para proibir rodeios, vaquejadas e similares em São Paulo.
As vaquejadas também são crueis e difíceis de se combater. Trata-se de uma atividade extremamente lucrativa, porque as companhias têm muita força e apoio político. Em determinada ocasião, reunimos 14 ativistas, em São Paulo, para tentar impedir uma ocorrência de vaquejada, prática que submete o bovino a torturas prévias, lesões físicas, fraturas, hemorragias e sofrimento. Assisti à perseguição de um animal que teve um dos membros fraturados. Imediatamente se formou em torno dele um grupo de vaqueiros, isolando-o, para em seguida arremessá-lo numa caminhonete. Cheguei a invadir a arena juntamente com uma médica veterinária, mas fui impedida de me aproximar do animal.
O que faz o bovino correr é o fato de que no cercado, um espaço pequeno, ele é previamente espicaçado com um pau com prego na ponta. Quando se abre a porteira, o animal corre desesperado em razão da dor e é perseguido por dois vaqueiros montados em cavalos, sendo que para pontuar o puxador precisa derrubar o boi, puxando-o pelo rabo, fazendo o animal cair dentro de uma área delimitada. Após a prova, caudas ficam espalhadas pelo chão. É muito triste ver essa violência cometida nos animais. Até que na década passada, ao que me lembro, a lei estadual das vaquejadas, do Ceará, foi questionada pelo Ministério Público Federal.
O caso chegou até o STF, que julgou inconstitucional a lei cearense que autorizava vaquejadas, o que representou para nós uma situação de ganho de causa. Mas os retrocessos aconteceram em razão de manobras políticas, quando a PEC da vaquejada foi aprovada para alterar o artigo 225 da Constituição e permitir o uso de animais em espetáculos públicos. Essa vitória da bancada ruralista representou uma afronta à decisão da Suprema Corte, mas agora nos resta aguardar o julgamento da ação declaratória de inconstitucionalidade que o MPF ingressou, lembrando que o Fórum Animal foi uma das entidades que encaminhou representação para anular a absurda alteração constitucional.
Jus Animalis - Ainda sobre assuntos legislativos cabe assinalar que, depois da Constituição Federal, as atenções se voltaram para a elaboração das constituições estaduais. No tocante à Constituição Paulista de 1989, que contém dois dispositivos específicos relacionados aos animais – vedação à crueldade (artigo 193) e proibição da caça (artigo 204) – qual foi seu papel e de suas colegas protetoras nos trabalhos constituintes?
Sônia Fonseca - Eu acompanhei ativamente os trabalhos da Constituinte paulista de 1989, onde pude conhecer muita gente do movimento de proteção animal de São Paulo. Naquele ano, já estando aposentada em minha carreira de professora, passei a ir todo dia na Assembleia Legislativa. Eu percorria os gabinetes de todos os deputados e conversava pessoalmente com eles sobre as pautas importantes, dentre elas assegurar que os animais não sofressem crueldade no abate e que fosse proibida a caça.
Sobre a caça, preciso dizer que sua modalidade esportiva possuía adeptos ferrenhos e de posses, gerando com isso muito corpo a corpo e brigas. Nossas representantes mais combativas foram Ana Maria Pinheiro e Cacilda Lanuza. Lembro que Ana Maria Pinheiro certa vez apareceu na Assembleia vestida de caçadora, com roupas e objetos de camuflagem, a título de protesto. Noutra vez, os irmãos Ricardo Tripoli e Roberto Trípoli custearam uma performance com pessoas vestidas de animais silvestres. Os defensores da caça, aliás, faziam parte da Associação Brasileira de Caça e Conservação. O esforço das protetoras acima citadas e de outros ativistas foi decisivo para a aprovação do artigo 204 da Constituição Paulista de 1989, que proibiu no estado a caça, sob qualquer pretexto.
Nesse tema não posso deixar de mencionar o trabalho perseverante de Marcelo Pavlenko Rocha, da ONG SOS Fauna, que desde 2000 vem combatendo o tráfico de animais silvestres no Brasil. Ele é um grande protetor da fauna nativa, tanto que realiza incansavelmente um trabalho quase que solitário em defesa das espécies silvestres. Apesar de tudo, das dificuldades enfrentadas, Marcelo Pavlenko possui uma fé inabalável naquilo que acredita e vem atuando, de modo contínuo, contra a caça e os traficantes de animais. Sua luta exemplar merece ser reconhecida e apoiada.
Já em relação à matança cruel dos animais pelo setor de produção, na época da constituinte estadual, eu precisava protocolar na ALESP um documento com material sobre abate humanitário e que seria fundamental aos debates. Acontece que cheguei quase ao final do expediente e praticamente não havia mais parlamentares presentes. Mas vi no alto do prédio uma luzinha acesa: era o gabinete de um deputado que ainda estava na Casa. Fui até lá para falar de minha propositura e ele me orientou a protocolar o requerimento na Comissão de Sistematização, do contrário, o material não seria apreciado. Corri até o setor indicado e, nos minutos finais antes de a Assembleia fechar, consegui protocolar nossa documentação. Lembro que o chefe de gabinete do deputado Oswaldo Bettio, que ainda estava no recinto, me acompanhou até o protocolo, atendendo à exigência regimental.
Assim, foi possível apresentar subsídios para a redação daquilo que se tornou o inciso X do artigo 193 da Constituição Estadual de São Paulo, abrindo caminho para a exigência do chamado abate humanitário. Quando chegou o momento da votação, conversei com todos os constituintes. Mas um deles, o deputado Erasmo Dias, zombou dessa inclusão: “Agora querem colocar até boi na Constituição?”. Mas, ao final, ele acabou lendo o material que eu apresentei e se absteve da votação, facilitando a aprovação. O inciso X passou a obrigar o Estado, mediante lei, “a proteger a flora e a fauna, nesta compreendidos todos os animais silvestres, exóticos e domésticos, vedadas as práticas que coloquem em risco sua função ecológica e que provoquem extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade, fiscalizando a extração, produção, criação, métodos de abate, transporte, comercialização e consumo de seus espécimes e subprodutos”. Essa redação foi uma conquista nossa.
Jus Animalis - Parece até difícil de acreditar, mas algumas décadas atrás o município de São Paulo ainda fazia uso da carrocinha, destinando os cães capturados nas ruas ao extermínio, inicialmente com gás e depois em câmaras de descompressão. Tendo em vista que a defesa dos animais domésticos sempre foi uma das principais pautas das associações protetoras paulistas, o que se pode dizer sobre o drama dos cães errantes que viviam em estado de abandono e sofriam todo tipo de privação e perigo? Como foi enfrentar o CCZ para expor a matança que eles praticavam em nome da saúde pública?
Sônia Fonseca - Durante todo o século 20 circulou em São Paulo a carrocinha de cachorros, que muita gente alegava ser um mal necessário. Acontece que os animais capturados a laço pelos agentes municipais do Centro de Controle de Zoonoses eram levados às câmaras de gás, que foram substituídas posteriormente pelas câmaras de descompressão. Os cães sofriam demais neste processo a vácuo, tanto é que os corpos recolhidos depois apresentavam muitos sinais de violência, como arranhaduras e mordeduras, fato indicativo de que entravam em desespero e se agrediam mutuamente durante todo o procedimento, morrendo por asfixia. Era um método extremamente cruel.
Ninguém mexia nessa estrutura controlada pelo departamento de saúde pública. Observo que acompanhar tais atividades era terminantemente proibido a cidadãos comuns que não trabalhavam no local, sobretudo protetores de animais. Até que o Prefeito Jânio Quadros, por meio do Decreto 22.732, de 8 de setembro de 1986, criou o Conselho de Proteção e Defesa dos Animais, que passou a funcionar nas dependências do próprio CCZ. E assim, durante um evento municipal motivado por acontecimentos políticos (sabido que quando Presidente da República ele proibira as rinhas de galo), Jânio Quadros fez questão de colocar o Conselho para atuar justamente dentro de um recinto de sofrimento animal.
Pelo que me recordo, participaram desse colegiado municipal entidades protecionistas que funcionavam como abrigos de animais, além da UIPA, da APASFA, do Quintal de São Francisco e, também, o Grupo Tucuxi, dirigido por Márcio Augelli, que me convidou a ingressar no grupo e, assim, compor o Conselho. Começamos então a tratar dos principais problemas dos animais domésticos na cidade de São Paulo. O diretor do Centro de Controle de Zoonoses não deixava ninguém ver o que acontecia com os animais recolhidos pela carrocinha, apesar da minha insistência. Até que certa vez, talvez por simpatia, ele deixou que eu visse o procedimento de matança a que os cães eram submetidos. Logo de cara presenciei uma cena horrível: animais fechados em celas frias, sombrias, em meio a paredes de cimento e sobre piso de concreto.
Os cães recebiam duchas frias logo pela manhã, quando da lavagem das baias, permanecendo depois deitados na água (lembro que ali havia uma cadela alucinada tentando proteger os filhotes recém-nascidos). Questionei o funcionário da limpeza: “Não tem pena deles?”. Indignada, invadi a sala do diretor para protestar. A partir daí ele passou a ver pessoalmente os recintos e aceitou minhas sugestões de instalar tablados de madeira fornecidos pelos protetores e, também, cobertas para os cães. Quanto às câmeras de descompressão, ele retrucou: “Você acha que eu gosto disso? Mas não há outro jeito”.
Até que uma entidade internacional, a WSPA, veio visitar o CCZ, entrando nos recintos para filmar as câmaras de descompressão e extermínio dos cães. Essas imagens foram para a televisão. Não posso deixar de agradecer a gentileza da SUIPA, por meio de sua presidente Isabel Cristina do Nascimento, que nos cedeu uma cópia do filme. Quero também destacar a imensa contribuição de Ângela Caruso, presidente do Quintal de São Francisco, que conseguiu a documentação usada pela USP e que declarava a matança dos animais por asfixia.
Diante disso, o Fórum Nacional, por sua advogada Viviane Cabral, propôs em 2000 uma ação judicial contra a Prefeitura para que referida metodologia de abate fosse proibida, por ser notoriamente cruel e ferir o dispositivo constitucional que vedava a crueldade. Foram juntadas as provas das lesões nos animais durante o procedimento de matança, indicativas de maior sofrimento. Houve concessão de medida liminar, favorável ao Fórum, sendo que o processo teve prosseguimento e foi julgado procedente.
O médico Eduardo Jorge, quando se tornou secretário municipal de saúde, foi o único que nos ouviu e deu abertura para resolver o problema, mas pediu que provássemos que a eutanásia decorrente de processos químicos seria a única viável para o momento. Foi nessa época que as câmaras de descompressão do CCZ acabaram sendo substituídas pelo método da injeção letal. Cabe lembrar a atuação de pessoas fortes como Ângela Caruso, Rita de Cássia Garcia e o médico veterinário Werner John Payne, o qual se mostrou, em todos os sentidos, um verdadeiro protetor de animais, profissional exemplar e que também realizava trabalhos gratuitos de esterilização. Posso dizer que Werner foi uma das melhores pessoas que conheci.
Sobre o assunto, houve em 8 de junho de 2000 um grande evento na Câmara Municipal de São Paulo e ali compareceu o notável médico veterinário norte-americano Joseph Tait, para proferir uma palestra. Foi uma brilhante exposição. O palestrante soube da injeção letal obtida em São Paulo, mas questionou a continuidade da matança dos animais e nos induziu a investir no controle populacional. Nesse período surgiram novos problemas advindos do próprio CCZ e até mesmo do CRMV-SP, que eram contrários às reformas e questionavam o uso do novo método proposto. Por isso resolvemos fazer um protesto público. Realizamos um abraço simbólico em torno do prédio do CCZ, com muita gente que ali compareceu para reivindicar a necessidade do controle da população animal sem a matança indiscriminada. As entidades de proteção animal começaram, então, a trabalhar com a ideia da castração dos animais, sob a liderança de pessoas como Ângela Caruso.
Anos mais tarde foi aprovada a Lei estadual nº 12.916/08, do deputado Feliciano Filho, que ao tratar do controle de reprodução de cães e gatos proibiu a matança de animais e fez encerrar a discussão. A partir daí a captura cruel de animais também acabou.
Jus Animalis - Depois de aprovada a Constituição de 1988, cujo artigo 225 § 1º, inciso VII serviu de base para o STF julgar inconstitucional a farra do boi, as protetoras de animais da época, agora com força redobrada, voltaram a exigir a criminalização da crueldade no próprio Código Penal, cuja reforma já vinha sendo discutida, para que a crueldade deixasse de ser simples contravenção. Até que, em 1997, foi constituída uma comissão de juristas para redigir o anteprojeto da Lei de Crimes Ambientais. Qual o seu papel nessa luta e no que resultou?
Sônia Fonseca - Precisávamos muito criminalizar a crueldade aos animais porque a contravenção penal do artigo 64 era insuficiente se comparada ao texto da nova Constituição. Esse assunto tornou-se unanimidade dentre as associações protetoras, que buscavam maior rigor da pena a quem maltratasse animais. Foi então que vim a saber que a parte especial do Código Penal, aquela que trata dos crimes e das penas, estava em fase de revisão. Uma comissão de juristas ficou encarregada dos estudos e eu precisava chegar até eles.
Ao pesquisar os integrantes da comissão, descobri que havia quatro juristas de São Paulo, aos quais encaminhei abaixo-assinados com milhares de assinaturas apoiando a criminalização da crueldade, tudo isso para reforçar que a Lei das Contravenções Penais se mostrava inócua para a defesa jurídica dos animais. Na carta enviada a cada membro paulista do colegiado eu dizia que deveríamos fortalecer a proteção dos animais, a começar pela mudança da lei. Logo de cara um dos penalistas que compunha a comissão não só ignorou meu pedido, sem ao menos lê-lo, como se posicionou contrariamente a ele.
Eis que, em meio ao desânimo inicial, o inesperado aconteceu. Fiquei sabendo que viria a São Paulo um ministro do Superior Tribunal de Justiça, Francisco de Assis Toledo, conhecido por sua sensibilidade (a começar pelo nome, que evoca o santo protetor dos animais). Decidi pedir um aconselhamento jurídico a ele, só não sabia como e onde fazer. Ao ser informada do horário que ele desembarcaria em São Paulo fui até o aeroporto, mas o pretendido encontro não deu certo. Como o ministro veio para proferir uma palestra na Faculdade Direito da USP, dirigi-me em seguida ao Largo de São Francisco.
Lá chegando adentrei na sala vip da faculdade, levando em meu poder a mesma carta encaminhada aos membros da comissão de reforma do Código Penal e a documentação que a instruía, para ser entregue ao palestrante. Acontece que o ministro chegou atrasado e estava com pressa. Mesmo assim, o mestre de cerimônias me apontou e o convidado, de modo atencioso, veio falar comigo. Expliquei o motivo pelo qual eu estava lá, ele recebeu o material que eu trazia e gentilmente o colocou no bolso do paletó. Mas me prometeu que à noite leria tudo e depois disso conversaríamos. Pediu que eu lhe telefonasse no dia seguinte.
Conforme combinado, pela manhã liguei no número indicado e conversamos. Ele disse que leu o material, achou bom e até o elogiou, mas deu uma ideia diferente do que se imaginava. Contou-me que havia uma outra comissão de juristas trabalhando na área do meio ambiente, mais especificamente no texto da futura Lei de Crimes Ambientais, cujos trabalhos eram presididos pelo desembargador Gilberto Passos de Freitas. Sugeriu que eu procurasse essa comissão, porque se eu os convencesse poderia conseguir de forma mais efetiva o que pretendia para os animais, ou seja, tornar crime os atos de abuso e maus-tratos.
Conselho dado e aceito, na manhã seguinte dirigi-me ao endereço onde o grupo se reunia, em São Paulo, fazendo-me acompanhar da médica veterinária de animais silvestres, Ângela Branco. As minhas propostas de criminalização vinham sempre ilustradas com imagens impressionantes de crueldade. Compilei tudo isso na documentação e, ao apresentá-las, indaguei a eles: “Os senhores acham que isso pode continuar sendo contravenção penal?”. Um membro da comissão logo divergiu e foi até grosseiro comigo, alegando que eles estavam ali para tratar de fauna silvestre, não de animais domésticos. E pensar que eu sempre agi com cordialidade, por considerá-la uma virtude fundamental...
Mas não me dei por vencida. Ao sair do local fui imediatamente atrás de Paulo Nogueira Neto, o qual começou a escrever um parecer incisivo contrariando o entendimento de que apenas os animais silvestres importavam para o meio ambiente. Ele ainda aprimorou o texto para falar um pouco mais sobre o conceito amplo de fauna. Assim que concluiu o trabalho, passou a mim. E eu voltei na Comissão, ali entregando humildemente o parecer de Paulo Nogueira Neto, que fora constituinte de 1988. Disse na oportunidade que meu intuito seria apenas o de ajudar os membros integrantes da Comissão a tomarem a melhor decisão sobre o assunto.
À noite o desembargador Gilberto Passos de Freitas, sempre solícito e atencioso, me telefonou para dar a boa notícia: “O parecer foi muito importante e sua proposta acabou sendo aceita pela Comissão”. Mas também me pediu desculpas pela indelicadeza do colega cujo posicionamento era contrário. E assim surgiu a redação do artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, dispositivo que criminalizou a crueldade (abusar, maltratar, ferir ou mutilar) contra quaisquer animais, domésticos ou domesticados, silvestres, exóticos ou migratórios.
Jus Animalis - Em 1998, foi realizado em São Paulo, no Memorial da América Latina, o histórico 2º Congresso do Bem-Estar Animal, promovido pela Associação ARCA Brasil. Consta ter sido ali que, por sua iniciativa, surgiu a ideia da criação de um fórum permanente para a proteção e a defesa dos animais. Essa proposta de diálogo nacional fez o movimento saltar de um litisconsórcio eventual (como se deu no caso da farra do boi) para uma atuação estratégica mais organizada das ONG (muitas com legitimidade jurídica para propor ações). Comente.
Sônia Fonseca - Esse evento organizado por Marco Ciampi e Rita de Cássia Garcia, no mesmo ano em que surgiu a Lei dos Crimes Ambientais, foi mesmo marcante. Vieram palestrantes e congressistas de todo o país e tivemos apresentações de excelente conteúdo. Mas, nos intervalos do simpósio, notei que os congressistas estavam ávidos por conversar entre eles, trocar ideias e discutir os problemas comuns da proteção animal em seus municípios, tanto que falavam nos corredores do auditório, entre uma palestra e outra. Pedi então a Ciampi que concedesse, em meio à programação, um tempo para que os protetores se encontrassem para conversar. Ele cedeu uma hora, entre 13 e 14h, designando sala específica para esse fim.
Na reunião das associações, logo percebi que cada participante trazia problemas cabeludos para debater. Todos ali tinham suas atividades protetoras, embora alguns agissem independentemente e de forma solitária. Foi então que eu propus a criação de uma associação específica para intercâmbio de ideias, que pudesse tratar os problemas em conjunto. Disse aos presentes que seria um colegiado, onde todos teriam direitos iguais e garantia de participação em uma assembleia permanente. A ideia foi aprovada por unanimidade e saímos com uma moção: foi criado ali, em outubro de 1998, o Fórum Permanente de Proteção e Defesa Animal.
Para cumprir nosso propósito, conforme combinado, passamos a nos reunir mensalmente, todos os sábados, em uma sala do Ibama, em São Paulo. Nessa época, mudamos o nome para Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e criamos o logo. Associaram-se pessoas de outras cidades e estados, para tratar dos problemas relacionados aos animais em âmbito nacional. Dois anos depois, após muitas reuniões com os participantes do Fórum, fundamos o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, já sob o formato de organização não-governamental. A partir daí começamos a atuar na proteção animal rumo a uma especialização cada vez maior nas áreas escolhidas para enfrentamento.
Foram diversas as lutas travadas, como aquelas que já me referi relacionadas ao CCZ, aos rodeios e vaquejadas, à necessidade de esterilização de cães e gatos etc. Mas eu ainda quero mencionar uma luta em especial, contra os circos com animais. A protetora Celina Valentino foi a pessoa que se distinguiu nessa área. Eu a conheci casualmente numa delegacia de polícia registrando ocorrências de crueldade contra animais. Na sala de espera ficamos amigas. E essa amizade fez com que nos tornássemos praticamente irmãs. Atuamos juntas contra os circos que exploravam animais. Celina fazia de tudo para tirar leões de circo, com respaldo do Ibama, ajudando na construção de recintos para abrigá-los.
Havia muitos abusos contra os animais exóticos, que eram forçados a cumprir as ordens do domador, por isso começamos a fotografar e a filmar o que acontecia nos picadeiros. Chegamos até mesmo a levar essas gravações para a ministra do meio ambiente em 2003, Marina Silva. Depois entramos com um PL para abolir o uso de animais em circos, mas não conseguimos aprovar. Nessa mesma época, tivemos alguns incidentes trágicos em circos, sendo o pior deles acontecido na cidade de Jaboatão dos Guararapes, estado de Pernambuco, quando um menino morreu após ser puxado para dentro da jaula dos leões.
Participei de inúmeras audiências públicas sobre o tema. Era pesado, havia gente que não me deixava passar para adentrar nos auditórios. Sofri até ameaças de agressão física por uma mulher, isso dentro de um banheiro. Numa outra ocasião, um sujeito me ofendeu com palavrões, durante a minha exposição contrária a animais em circos, mas eu não me intimidei e continuei a falar. Com o passar do tempo, a sociedade foi se convencendo que circo com animais tinha de acabar. Conseguimos a aprovação de leis proibitivas em 14 estados, inclusive São Paulo, o que representou um duro golpe para as companhias circenses.
Jus Animalis - Ao longo deste século, com o reconhecimento do Direito Animal como disciplina autônoma do Direito Ambiental, o Fórum Animal cresceu e hoje conta com uma equipe multidisciplinar composta de médicos veterinários, advogados, marketing, comunicação e pesquisadores. Fale um pouco dessa profissionalização que levou a ONG a se tornar uma das maiores referências brasileiras na advocacia animalista, com uma atuação estratégica e proativa.
Sônia Fonseca - Assim que o Fórum Animal começou a se profissionalizar, exercendo sua legitimidade para propor ações civis pelos animais, nossa atuação passou a ser mais respeitada. A Declaração de Cambridge, proclamada em 2012, que reforçou o conceito de senciência animal ao demonstrar que a ciência reconhece que os animais sentem e sofrem, foi fundamental para o nosso movimento. Basta dizer, nos últimos tempos, que muitos processos sobre questões relevantes foram ajuizados pelo Fórum, podendo citar aqui a transferência da elefanta Bambi para um santuário, o acompanhamento do caso das girafas do zooparque do Rio de Janeiro e o mais difícil de todos eles, a ação contra o transporte marítimo de bovinos em Santos, que foi julgada procedente pelo juiz Djalma Moreira Gomes, da 25ª Vara Federal de São Paulo e que infelizmente foi reformada pelos desembargadores do TRF-3.
Outras iniciativas do Fórum Nacional, que podem ser acessadas pela internet (forumanimal.org/site/blog), visam a garantir o bem-estar dos animais, como por exemplo a manutenção das galinhas poedeiras fora de gaiolas, a melhoria da condição dos suínos no sistema de produção e outras medidas desse tipo. Muitas empresas se comprometeram a cumprir as indicações, mas pediram tempo para a devida readequação. O Fórum também ajuizou recentemente uma reclamação no STF contra um decreto do município de Serrinha/BA, que autoriza o abate de animais de médio e grande porte que forem encontrados em estado de abandono, por entender que ele afronta os direitos dos animais.
Outro assunto do momento é nosso questionamento da Lei federal nº 15.008/24, que regulamentou o rodeio crioulo como parte da cultura popular, mas que na verdade constitui um retrocesso às conquistas que obtivemos. Agora mesmo o Fórum Animal vem promovendo lives sobre o sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos (Lei federal 15.046/24), para tirar as dúvidas da população sobre RG animal e conscientizar as pessoas a levar a sério a saúde de seus bichos de estimação. Sabe-se da importância da castração de animais domésticos como política pública para o controle populacional, mas infelizmente a maioria das prefeituras não tem conseguido dar conta da alta demanda de cães e gatos abandonados.
Não podemos deixar de mencionar, na área veterinária, a parceria com o GRAD (Grupo de Resposta a Animais em Desastres), que sob a coordenação de nossa diretora técnica Vânia Plaza Nunes, tem feito um trabalho exaustivo e ao mesmo tempo maravilhoso voltado ao resgate de animais vitimados por catástrofes. Cabe dizer que Vânia é uma pessoa muito ativa e inteligente, que transita fluentemente por qualquer área. Ela está sempre disposta a agir pelos animais. Rita de Cássia Garcia, outra médica veterinária muito amiga e que sempre atuou pelos animais, hoje professora na UFPR, inspirou muitos alunos a ingressar na causa, tanto que um deles, Taylison Santos, se tornou diretor executivo do Fórum Nacional.
Na diretoria jurídica estamos muito bem representadas como o trabalho profissional de Ana Paula Vasconcelos, uma excelente advogada que se dedica à causa dos animais. Ela une profissionalismo e sensibilidade, agindo sempre de acordo com a lei e com aquilo que pensa e sente. O Fórum Animal é hoje presidido por Elizabeth McGregor, que foi diretora da WSPA. Muito ponderada, sua principal área de atuação é voltada à educação humanitária. Ela investe na ideia de modificar a sociedade com foco nas novas gerações e por isso realiza palestras para professores, levando às escolas uma proposta pedagógica que beneficie os animais. Hoje em dia o Fórum Nacional conta com representantes em quase todos os estados brasileiros e, também, grande número de voluntários.
Jus Animalis - Considerando sua incansável dedicação à causa animal, que redundou em conquistas legislativas e enfrentamentos jurídicos vários, uma última pergunta: nestes tempos atuais assolados pelo rigor das mudanças climáticas e pelos índices ainda alarmantes de crueldade animal, o que acredita se deva fazer para reverter essa situação tão adversa?
Sônia Fonseca - É muito preocupante o cenário contemporâneo em que estamos vivendo. Quando olhamos para o aquecimento global crescente no mundo, quando olhamos para a insanidade comercial de atravessar o oceano com milhares de bois em sofrimento, isso fica muito claro. Na seara política, entra ministro sai ministro e nenhum deles investe na educação como deveria. Se verdadeiramente fossem passados valores para as crianças, mostrando a elas que lixo deve ser jogado no lixo, que árvores não podem ser vistas apenas como matéria-prima e que os animais sentem e têm que ser respeitados, seria ótimo, a gente nem precisaria existir.
Essa capacidade de sensibilizar a população, com um olhar voltado aos animais e ao meio ambiente, deveria ser meta prioritária de qualquer ministro da educação. Olha só a importância política desse cargo. Quantas coisas boas um ministro, se quisesse, poderia fazer. A amplitude está nas mãos dele, mas para isso precisaria entender o significado do cargo. Ter dignidade e vontade, olhando para os que mais precisam de ajuda, poderia fazer com que tudo melhorasse no país. É, a meu ver, o ministério mais importante do governo brasileiro. Afinal, a educação é a principal forma de se mudar a sociedade.
Quanto a meu papel nessa luta pelos animais, digo sempre que fui apenas uma das colaboradoras da causa e tive sorte. Mas também me empenhei. Sou obsessiva nisso. Em termos retrospectivos, se nesta entrevista eu falei da amizade que tive com Paulo Nogueira Neto, das pessoas que conheci naquela reunião marcada por Gândara Martins, dos bastidores do julgamento da farra do boi, da providencial conversa com um ministro do STJ, da inclusão do artigo 193 inciso X na Constituição Paulista e da ampla redação do artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, isso tudo se deve às circunstâncias favoráveis.
Olhando hoje para trás, em meio a tantas passeatas, panfletagens, abaixo-assinados e reuniões, à frente de tantos contatos políticos e jurídicos, projetos de lei e acompanhamentos legislativos, comparo-me a uma enzima que provoca as reações. Não sou eu que realizo a ação, mas a provoco. Minha ação sempre foi enzimática: fazia as convocações, reunia as pessoas e dava o necessário empurrão para que as coisas fluíssem. No fundo sou uma protetora: valorizo as senhorinhas que cuidam de animais na rua, que os acolhem, que os tratam, porque essas ações importam.
Quero dizer, por fim, que é muito importante sonhar. Eu ainda gostaria de ver, na vida, os pássaros livres das gaiolas e os animais silvestres sendo verdadeiramente respeitados. Mas sei o quanto tem sido difícil, na realidade brasileira, enfrentar a cultura dos passarinheiros e a prática repulsiva dos traficantes de espécies nativas. Mas também sei que é preciso sonhar com as mudanças necessárias, porque quem sonha é mais forte na busca das transformações.
________________________________________