Apolo e a liberdade: a domesticação em tensão com o ideal abolicionista
Quinta-feira, 16 de abril de 2026
Apolo não tem mais de dois anos, de pelo e olhos claros, corpo magro, mas extremamente forte. Ele chegou ao nosso condomínio no ano passado, com a cautela de quem aprendeu a sobreviver ao ar livre. No início, ele se aproximava timidamente da comida que deixávamos para outros gatos que vivem nas áreas comuns e, às vezes, brigava com eles por comida e território. Aos poucos, foi conquistando seu espaço. Hoje ele tem uma casinha na entrada do meu prédio, que ele aceitou como sua. Não é uma casa imposta: é um espaço que se integra ao seu território cotidiano, onde ele pode se proteger sem perder sua autonomia.
Observá-lo todos os dias é testemunhar um delicado equilíbrio entre livre arbítrio e vínculo com os humanos. Esta manhã, enquanto o vacinávamos, a veterinária expressou seu desejo de adotá-lo. Sua intenção era nobre: oferecer-lhe segurança, um lar “definitivo”. No entanto, minha resposta foi não. E não foi uma recusa caprichosa, mas profundamente ponderada. Apolo já tem uma vida que, dentro de suas limitações, se aproxima de um ideal: ele é livre e, ao mesmo tempo, cuidado.
Eu o alimento três vezes por dia. Ele recebe carinho. Ele convive com as crianças do condomínio: algumas vão até ele e brincam com ele, e ele participa desses encontros com naturalidade. Ele tem um lugar onde se proteger da chuva e do calor intenso. Mas, acima de tudo, ele tem algo que muitos animais domesticados perderam: a possibilidade de decidir. Apolo entra e sai, aproxima-se ou afasta-se, habita o espaço sem ficar confinado a ele.
Do ponto de vista dos direitos dos animais e, em particular, de uma perspectiva abolicionista, essa situação convida à reflexão. Durante séculos, a domesticação foi apresentada como um ato de proteção, mas também implicou controle, confinamento e, muitas vezes, a negação da natureza própria dos animais não humanos. O ideal abolicionista não é simplesmente “cuidar melhor”, mas questionar as estruturas que sustentam essa relação de poder e dominação entre humanos e não humanos.
Apolo representa uma forma imperfeita, embora promissora, de desdomesticação: uma vida em que a liberdade não é suprimida e em que o cuidado não implica posse. Não é um modelo facilmente replicável, porque nossa sociedade ainda não está preparada. Fora de nossos conjuntos residenciais, nas ruas, persistem a violência, o abandono e a exploração. A ética dominante continua sendo profundamente antropocêntrica.
No entanto, histórias como a de Apolo abrem uma possibilidade. Elas nos lembram que é viável imaginar — e, em pequenos espaços, praticar — formas distintas de nos relacionarmos com os animais que não são da nossa espécie. Formas baseadas não na propriedade, mas no respeito, no amor, na compaixão e na solidariedade.
Que chegue o dia em que mais animais possam viver como Apolo: livres, cuidados e reconhecidos como sujeitos de sua própria vida.