Altruísmo eficaz e a encruzilhada dos direitos dos animais: legitimar o injustificável?

Sexta-feira, 20 de março de 2026


Enquanto continuarmos nos perguntando como explorar melhor, continuaremos evitando a única pergunta incômoda: por que continuamos explorando?

RMTT

Nos últimos anos, o chamado altruísmo eficaz ganhou força como uma proposta ética que busca responder a uma pergunta aparentemente simples: como podemos causar o maior bem possível com os recursos disponíveis? Aplicada ao âmbito dos animais, essa corrente impulsionou estratégias voltadas para a redução do sofrimento em grande escala, privilegiando intervenções que prometem um alto impacto mensurável. Entre elas, destacam-se as campanhas por melhores condições nos sistemas de exploração intensiva, como a transição para ovos de galinhas “criadas ao ar livre”.

À primeira vista, essas iniciativas parecem inquestionáveis: se milhões de animais podem viver com menos sofrimento, por que não apoiá-las? No entanto, um número crescente de autores e autoras na área de ética e direito animal começou a questionar essa abordagem. A crítica não é menor: o que está em jogo não é apenas a eficácia de certas políticas, mas a orientação moral de todo um movimento.

O altruísmo eficaz, em sua formulação mais influente (Singer 2015 e MacAskill 2015), parte de uma lógica fortemente utilitarista: o que é moralmente correto é aquilo que maximiza o bem-estar ou minimiza o sofrimento agregado. Dessa perspectiva, melhorar as condições de vida dos animais explorados — mesmo que a exploração continue — pode ser considerada uma intervenção altamente valiosa se reduzir grandes quantidades de sofrimento.

Daí o apoio a campanhas de bem-estar, como as de “cage-free”. Organizações influentes dentro dessa abordagem, como a Animal Charity Evaluators, têm promovido esse tipo de reforma como estratégias custo-efetivas: pequenas mudanças regulatórias ou corporativas que impactam milhões de animais.

No entanto, essa forma de pensar tem sido alvo de críticas profundas. Uma das mais importantes aponta que essa abordagem tende a reduzir a questão animal a um problema de quantidades de sofrimento, deixando em segundo plano — ou até mesmo excluindo — questões sobre justiça, direitos e legitimidade das próprias práticas.

Autoras como Alice Crary (2016) e Lori Gruen (2015) apontaram que esse tipo de abordagem pode invisibilizar dimensões éticas fundamentais. Em vez de nos perguntarmos apenas quanto os animais sofrem, deveríamos também nos perguntar, em primeiro lugar, se é moralmente aceitável utilizá-los como recurso. Dessa perspectiva, melhorar as condições de exploração não constitui necessariamente um progresso moral significativo, mas pode funcionar como uma forma de estabilizar e legitimar sistemas injustos.

Esse ponto se relaciona com uma crítica mais ampla ao bem-estarismo, desenvolvida há décadas por autores como Gary Francione (1996), que argumentou que as reformas que tornam a exploração “mais humana” tendem a perpetuá-la, ao torná-la socialmente “mais aceitável”. Se o consumo de produtos de origem animal for percebido como eticamente “melhorado”, a urgência de questionar sua base se dilui.

Mas a crítica não para por aí. Alguns autores têm apontado que a lógica do altruísmo eficaz pode levar a conclusões contraintuitivas — ou até mesmo inquietantes — quando levada às suas últimas consequências. Aqui surge a referência ao que na filosofia moral é conhecido como a “conclusão repugnante”, formulada por Derek Parfit (1984). Em termos simplificados, essa ideia sugere que, sob certas formas de utilitarismo, um mundo com uma enorme quantidade de vidas apenas dignas de serem vividas poderia ser considerado melhor do que um mundo com menos vidas, mas de alta qualidade.

Quando aplicado ao mundo animal, isso levanta questões incômodas: seria possível justificar a existência de sistemas de exploração em massa se a vida dos animais fosse “suficientemente” melhorada? É moralmente aceitável produzir mais animais para consumo se o sofrimento deles for reduzido, mesmo que suas vidas continuem sendo instrumentalizadas? Essas questões revelam tensões profundas entre uma ética centrada em resultados agregados e abordagens que enfatizam limites morais mais rígidos.

Além disso, algumas críticas recentes dentro do próprio campo do altruísmo eficaz começaram a apontar que a ênfase em intervenções mensuráveis e quantificáveis pode deixar de fora transformações mais profundas, mas menos facilmente avaliáveis, como as mudanças culturais, jurídicas ou políticas necessárias para questionar o status dos animais como propriedade.

Diante desse panorama, a questão central poderia ser formulada da seguinte forma: as reformas que reduzem o sofrimento estão abrindo caminho para uma transformação mais profunda ou estão consolidando o sistema que produz esse sofrimento?

Responder a essa pergunta implica reconhecer que a proteção animal não é apenas um problema técnico de otimização, mas um campo atravessado por disputas morais, políticas e conceituais. O risco de uma ética orientada exclusivamente para a eficácia é que, em seu empenho por “fazer o maior bem possível”, ela acabe perdendo de vista o que realmente significa fazer justiça.

Talvez, então, o desafio não seja escolher entre eficácia e princípios, mas resistir à tentação de reduzir o ético ao quantificável. Pois quando se trata de animais — de suas vidas, de seus corpos, de seu mundo — a questão não é apenas quanto eles sofrem, mas se temos o direito de colocá-los em uma posição em que seu sofrimento, por menor que seja, se torne parte do cálculo.

Este texto não pretende menosprezar a importância de reduzir o sofrimento imediato dos animais. Cada melhoria concreta em suas condições de vida é importante. Mas reduzir o horizonte ético da proteção animal à otimização do sofrimento corre o risco de empobrecer nossa imaginação moral.

De uma perspectiva crítica, o problema não é apenas o quanto os animais sofrem, mas a teia de relações que torna possível — e aceitável — a sua exploração. As campanhas de bem-estar podem aliviar sintomas, mas também podem funcionar como dispositivos de estabilização de um sistema que continua a considerar os animais como meios.

Por isso, mais do que opor eficácia e princípios, o desafio é não permitir que a lógica da eficiência suprime a questão da justiça. Nem tudo o que reduz o dano transforma o mundo que o produz.

Talvez o ponto de partida não deva ser como ajudar melhor dentro do sistema, mas como deixar de precisar de um sistema que produz vítimas em grande escala.


____

Referências


Singer, P. (2015). The Most Good You Can Do. Yale University Press.

MacAskill, W. (2015). Doing Good Better. Guardian Faber.

Animal Charity Evaluators (varios reportes).

Crary, A. (2016). Inside Ethics: On the Demands of Moral Thought.

Gruen, L. (2015). Entangled Empathy. Lantern Books.

Francione, G. (1996). Rain Without Thunder. Temple University Press.

Parfit, D. (1984). Reasons and Persons. Oxford University Press.


Artículo en Español

ROSA MARÍA DE LA TORRE TORRES

Doutora em Direito Constitucional pela Universidade Complutense de Madrid. Especialista em Direito Constitucional e Ciência Política pelo Centro de Estudos Políticos e Constitucionais de Madrid, Espanha. Diplomada em Direito Animal pela Universidade Interamericana de Rosario, Argentina. Diploma em Estudos Críticos e Questões Animais pelo Instituto de Pesquisa e Inovação Educacional da Colômbia. Pesquisadora titular da Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo, México.

Próximo
Próximo

Projeto de Lei nº 007 de 2024: Entre a solidariedade permitida e a persistente coisificação dos animais em condomínios