Zoológicos pelo mundo

Na minha primeira coluna para o Jus Animalis, escolhi compartilhar com todos e todas minhas percepções sobre jardins zoológicos em alguns dos países que visitei nos últimos anos. No animalismo, o tema é polêmico, mas eu, pessoalmente, sou favorável ao trabalho de conservação de espécies ex situ que alguns zoológicos realizam com espécies em risco de extinção e, por isso, sempre que possível, visito esses espaços no exterior, para entender como a cultura local se relaciona com os animais não humanos.

Se você quiser conhecer detalhes sobre a legislação brasileira que trata sobre a instalação e o funcionamento de zoológicos, recomendo artigo que publiquei em coautoria com Paulo Santos de Almeida na Revista Iberoamericana de Derecho, Cultura y Ambiente em dezembro de 2023 e que você pode ler aqui. Para esta nossa conversa, basta saber que todos eles devem desenvolver pesquisa científica e programas de educação ambiental, além de, obviamente, zelar pelo conforto, saúde e bem-estar dos animais. Nossa legislação não admite o funcionamento de zoológicos como mero entretenimento, embora saibamos que existe uma grande diferença entre o que a lei estabelece e a realidade. É sempre com esses olhos que visito os zoológicos nas minhas viagens.

Nos últimos 2 anos, visitei os zoológicos de Lisboa (Portugal), Buenos Aires (Argentina), Sacramento (Uruguai) e Lima (Peru). De início, adianto o que você já deve imaginar: em nenhum zoológico os animais aparentam ter espaço suficiente para exercer seu comportamento natural e muitos apresentam sinais de sofrimento psíquico e estresse, especialmente os mamíferos de grande porte, como ursos. Em todos eles, se anunciam programas de educação ambiental, mas apenas em Buenos Aires havia monitores para instruir crianças e jovens sobre respeito aos animais e a conservação de espécies e do meio ambiente.

Os zoológicos de Lisboa e Lima ainda mantêm “shows” com golfinhos, dos quais não posso falar porque me recusei a ver. Em Sacramento, cidade às margens da Bacia do Rio da Prata, o aquário local mantém peixes em espaços minúsculos, em que não podem girar em torno do seu próprio eixo e um peixe-elétrico era mantido em situação de estresse contínuo para demonstrar como emitia correntes elétricas. Em Lima, aves tropicais não têm espaço para voar. Os espaços são lindos, arborizados, bem sinalizados, claramente projetados para conforto dos humanos e sem a devida atenção ao enriquecimento ambiental dos animais encarcerados.

As experiências mais positivas aconteceram em Lisboa e em Buenos Aires. Nos fundos do zoológico lisboeta, em uma alameda arborizada e tranquila, se encontra um cemitério de pets – cães e gatos enterrados em túmulos com lápides e enfeitados com flores e fotos – uma prova irrefutável do vínculo de afeto que une animais humanos e não humanos. Muitas lápides são das décadas de 1950, 1960, até os anos 2000 e estão bem cuidadas e conservadas. E, vejam, o zoológico de Lisboa não é, na minha visão, o melhor exemplo de bem-estar animal que existe, embora tenha muitos projetos científicos e espaços e projetos de educação ambiental. Não deixa de ser especismo tratar com tanto apego os pets e sem a devida atenção os animais silvestres, não?

Exemplo bom mesmo, eu vi em Buenos Aires. O Zoológico está, aos poucos, se convertendo em um ecoparque. Os animais que morrem não são repostos, então já existem poucos deles expostos ao público. No lugar das jaulas vazias, foram instalados murais e brinquedos interativos e exposições digitais para educação ambiental de crianças e adolescentes. Há monitores espalhados por todo o parque. Hoje, os animais estão no Teimaken Bioparque, um santuário a 75km da capital.

Em geral, os zoológicos não estão nos circuitos turísticos de visitantes estrangeiros, mas conhecê-los e entender como aquela sociedade se relaciona com os animais não humanos é um passo para entender um pouco da sua cultura e do seu grau de maturidade em relação ao animalismo. É evidente que uma visita de poucas horas é insuficiente para formar opinião sobre as políticas públicas ambientais e animais de um governo ou sociedade e que muitas outras vertentes, como assistência a tutores, hospitais públicos veterinários e animais em situação de rua devem ser considerados nessa avaliação; mas as visitas a esses espaços não deixam de ser um importante ponto de partida.

LETÍCIA YUMI MARQUES

GRI Standards Professional. Mestra em Sustentabilidade (USP). Especialista em Direito Ambiental (Mackenzie). Pós-graduada em Direitos dos Animais (Universidade de Lisboa). Pós-graduada em ESG: Prática da Diversidade e Inclusão das Empresas (FGV-Law). Professora dos Cursos de Extensão em Direito Animal e Direito Ambiental Empresarial do Mackenzie.

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