Engenharia Genética e Bem-estar Animal: como o apetite por peitos maiores implicou na incapacidade de acasalamento dos perus
Introdução
Ao reverso da ideia de que os animais usados para produção vivem boas vidas e são mortos sob um Abate Humanitário – falsa crença que pacifica a consciência dos carnistas – verdade é que os animais de criação tornaram-se máquinas exploradas por uma indústria cada vez mais poderosa, que pretende maximizar a rentabilidade. E a biotecnologia, manejada por cientistas despidos de qualquer crítica ética fundamental, celeremente, recrudesce o sofrimento destes seres sencientes.
Inseminação artificial, clonagem, transferência de embriões, etc. que se sujeitam aos questionamentos morais da experimentação científica em animais não humanos, neste ínterim, alcançam os animais de fazenda, projetando animais transgênicos (leia-se, OGM’s) conforme as exigências do mercado consumidor [1].
Especialmente o “melhoramento” seletivo é percebido como inofensivo, afinal, cuida-se de processo perfeito há séculos. Tal assertiva não poderia ser mais inverídica. Doenças de produção, lesões variadas, estresse fisiológico, sofrimento são alguns dos efeitos secundários ao bem-estar animal derivados da busca infinita pelo aumento de produtividade, notadamente, crescimento mais rápido e animais maiores.
In casu, o peru é importante ave consumida em tradicionais festividades, seja no Natal dos cristãos, seja no Dia de Ação de Graças norte-americano. Comercializado, pois, para alimentação, aporta suas origens no sul do México, com registros arqueológicos de domesticação entre 200 a.C. e 500 d.C. Ave comum na América do Norte, em estado selvagem, apresentam um comportamento complexo e inteligente. Desenvolvem estrutura social sofisticada de pequeninos grupos com hierarquias de dominância estabilizadas. Memorizam indivíduos de seu bando, diferenciando-os dos demais grupos [2]. Na natureza, possuem cor escura, ostentando penas brancas listradas com um brilho iridescente verde e bronze. E, surpreendentemente, o peru selvagem pode até mesmo voar ainda que, curtas distâncias [3].
No entanto, pouco se conhece sobre a criação e matança dos seus descendentes, os perus comerciais. Para avalizar tal ilação, em pesquisa administrada a 1.695 entrevistados em novembro de 2018 nos EUA - maior produtor mundial de perus vivos - quando solicitados a identificar um peru a partir de fotografias, 4% dos entrevistados selecionaram o frango e 2% selecionaram o pato e, quando solicitados a identificar um peru doméstico, 94% dos entrevistados escolheram o peru selvagem. Ademais, 4% dos entrevistados foram textuais em afirmar que os perus não sentem dor. Nada obstante, 85% dos carnistas tenham indicado que compram produtos derivados de peru, depreende-se que, a maioria dos consumidores permanece numa propositada ignorância sobre as fazendas industriais e os animais mortos para alimentação. O intencional desconhecimento obstaculiza digressões sobre Direitos Animais, fortalecendo um posicionamento especista que pode ser extraído da preferência dos consumidores por rótulos orgânicos (39% dos entrevistados) diante de outros rótulos associados ao Bem-estar Animal (apenas 6% dos pesquisados selecionaram o selo Global Animal Partnership) [4].
“Melhoramento” seletivo e inseminação artificial
A criação seletiva de perus implicou em enormes alterações fisiológicas e anatômicas. Principie-se com a cor dos pássaros que se modificou. Penas escuras que sobram da depenagem são menos desejáveis para o consumidor que um trecho limpo de pele rosada. Ademais, perus comercializados para carne cresceram mais de três vezes o peso dos seus homólogos selvagens, atingindo mais de 16kg aos 136 dias de idade. Atualmente, um peru médio acende duas vezes mais volumoso que àquele da década de 60 e, na metade do tempo [5]. Noutros termos, a criação seletiva para crescimento rápido e alcance de pesos corporais finais mais pesados em períodos de tempo extremamente curtos – máximo biológico – persiste afinal, conforme prega a correlata indústria da morte, “a economia nos custos de alimentação e no tempo superam em muito a perda de algumas aves” [6].
Sabe-se que, grande parte do peso de um peru é transmitido através de uma almofada cartilaginosa na articulação da anca, chamada antitrocânter. Considerando-se a seleção comercial para animais com o máximo de carne possível, preferencialmente, no peito (e também, coxas), tem-se que, o enorme peso na parte superior do corpo do peru provoca um acúmulo de considerável pressão neste antitrocânter, resultando na excruciante quebra da estrutura e dolorosa degeneração da cartilagem da articulação do quadril. Tal condição, diagnosticada em todos os tipos de perus comerciais, mas prevalente em machos reprodutores, com a estimativa de 70% das aves, acarreta estado de dor crônica que inibe atividades espontâneas, como andar e comer, bem como a atividade sexual [7].
Para além da dor crônica nas articulações do quadril e outras mazelas de saúde advindas do crescimento acelerado e do sobrepeso (ad exemplum, dermatite ulcerativa focal, discondroplasia tibial, necrose isquêmica epifisária, deformidade em valgo varo, avulsão de tendões ou ligamentos no jarrete, doenças cardiovasculares, sistema imunológico prejudicado etc.) [8], a reprodução seletiva dos perus produziu animais cujo formato corporal impossibilita o contato de seus órgãos reprodutivos. A lucrativa seleção de perus com peitos cada vez maiores e mais carnudos, restou por inviabilizar a monta das fêmeas. Noutros termos, quando os pesados perus machos tentam acasalar, invariavelmente lesionam as fêmeas. Assim, a linhagem comercial de perus é formada por animais que são incapazes de desempenhar a função biológica da cópula. Para a indústria de produção animal, não importam a dor e o sofrimento envolvidos na amputação de um comportamento natural, solucionando tal “óbice” com a inseminação artificial, que se tornou a regra para a reprodução destas aves [9].
Aliás, inexequível tergiversar sobre Bem-estar Animal e fazendas industriais, num sistema de produção intensiva que pratica torturantes mutilações sem analgesia, a saber, o corte da protuberância carnuda sobre o bico dos perus (de-snooding), dos dedos dos pés (toe-clipping) e do bico (beak-trimming), numa tentativa de controlar o canibalismo advindo do estresse, assim como descarta perus muito doentes ou lesionados mediante deslocamento cervical ou esmagamento da cabeça e vértebras, batendo os animais contra uma parede, dentre outras práticas condenáveis [10].
Ademais, acresça-se que a própria inseminação artificial já se traduz por biotecnologia com impacto adverso no bem-estar animal. Com a impossibilidade da natural atividade sexual, para garantir-se a reprodução, “ordenham-se” os machos duas ou três vezes por semana, isto é, o “ordenhador” segura o peru macho e pressiona duas ou três vezes o abdômen, abaixo da abertura, projetando o órgão copulador e fazendo com que os espermatozoides sejam liberados do falo. Além da interrupção de água e comida por 6 horas antes do procedimento, a própria coleta de sêmen pode ser dolorosa para as aves porque causa hemorragias primárias em todo o proctodeu e urodeu, compartimentos da cloaca. No caso das fêmeas, são elas submetidas à fotoestimulação por volta das 22 semanas de idade, o que estimula a liberação de hormônios e o desenvolvimento folicular. Cerca de 10 dias após a fotoestimulação, a membrana que recobre a entrada do oviduto desaparece e a abertura do oviduto pode ser acessada, aplicando-se pressão no abdômen ao redor do orifício e, fazendo com que o oviduto se projete. Daí, insere-se um tubo de inseminação a 3 cm no oviduto, liberando-se os espermatozoides. Este procedimento é repetido pelo menos três vezes por semana. Perceba que, além do óbvio estresse, inseminações artificiais podem causar danos físicos [11].
O que torna esta quadra mais indizível, é o fato de que os perus compõem parcela animal capaz de fazer Partenogênese. Com efeito, Partenogênse significa literalmente “nascimento virginal”. De sentido afastado do senso comum de “virgindade”, na realidade, partenogênese refere-se à reprodução assexuada, isto é, o desenvolvimento de descendentes viáveis a partir de óvulos não fertilizados, dispensando a presença de espermatozóides. A partenogênese não é fenômeno tão raro, sendo encontrada em vespas, abelhas, formigas, lagartos, cobras, peixes – os tubarões reproduzem-se assexuadamente algumas vezes – pombos, tentilhões-zebra e codornas [12].
Não obstante, a reprodução sexuada entremostre-se vantajosa sob o viés evolutivo porque gera prole com maior diversidade genética, em algumas situações, a partenogênese é benéfica. Reproduzir-se assexuadamente consome menos energia, é mais célere, impõe menos riscos na busca de parceiros e pode significar a perpetuação da espécie em locais sem outros indivíduos do sexo oposto para acasalamento [13].
Cientistas ainda não conseguiram decifrar o porquê a partogênese ocorre. Cogita-se que, em aves, alterações alimentares, modificações de temperatura e até mesmo determinadas infecções virais possam elevar sua incidência.
Entretanto, a criação intensiva de perus domesticados, nomeada “melhoramento”, sujeitou estes incomuns seres à dependência absoluta da inseminação artificial para se manterem vivos [14].
Conclusão
É eticamente injustificável utilizar métodos de criação que condenam animais a sofrer dores incapacitantes nas pernas ou nas articulações, como também sofrimento moral na medida em que seus comportamentos naturais são vetados. O aumento da produtividade não deve ser alcançado à custa de dores generalizadas para os animais. Indiscutível que, a criação seletiva impacta o bem-estar animal, sendo indefensável por razões éticas e morais.
Sujeitar um animal à inseminação artificial apenas para que ele se reproduza de acordo com um mercado consumidor ignorante, ceifando-lhe o direito natural à reprodução é indubitavelmente antiético e imoral.
E não se assevere que exista um fim terapêutico, afinal, a incapacidade para acasalar de animais partenogênicos é uma contradição em si mesma, justificada tão só por um especismo.
Se a senciência dos animais de fazenda não se entremostra suficiente para rechaçar seu abate, a garantia do bem-estar animal com a reversão à original integridade anatômica e fisiológica demanda imediata defesa animal.
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Referências bibliográficas
[1] D’SILVA, J., STEVENSON, P. Modern breeding technologies and the welfare of farm animals. Compassion in World Farming Trust, New York City, 1995.
[2] THE HUMANE SOCIETY OF THE UNITED STATES. An HSUS Report: The Welfare of Animals in the Turkey Industry. Washington, 2008.
[3] TAYLOR, D. Humans have changed industrial turkeys so much they can’t even mate without our help. The Washington Post, Washington, 2016.
[4] BIR C. et al. (2019). Perceptions of Animal Welfare With a Special Focus on Turkeys. Frontiers in veterinary science, 6, 413. https://doi.org/10.3389/fvets.2019.00413.
[5] THE HUMANE SOCIETY OF THE UNITED STATES, op. cit.
[6] “Although a small percentage of birds may be predisposed to leg problems, use of highly selected fast-growing strains is recommended because savings in feed costs and time far outweigh the loss of a few birds.” in BEYER, R. S. Leg problems in broilers and turkeys. Kansas State University, June, 2002.
[7] D’SILVA, J., STEVENSON, P. Modern breeding technologies and the welfare of farm animals. Compassion in World Farming Trust, New York City, 1995.
[8] THE HUMANE SOCIETY OF THE UNITED STATES, op. cit.
[9] D’SILVA, J., STEVENSON, P. Modern breeding technologies and the welfare of farm animals. Compassion in World Farming Trust, New York City, 1995.
[10]THE HUMANE SOCIETY OF THE UNITED STATES, op. cit.
[11] D’SILVA, J., STEVENSON, P. Modern breeding technologies and the welfare of farm animals. Compassion in World Farming Trust, New York City, 1995.
[12] HURT, A. Turkeys Are Capable of "Virgin Birth". DISCOVER MAGAZINE, Waukesha, 2021.
[13] HURT, A. Turkeys Are Capable of "Virgin Birth". DISCOVER MAGAZINE, Waukesha, 2021.
[14] HURT, A. Turkeys Are Capable of "Virgin Birth". DISCOVER MAGAZINE, Waukesha, 2021.