Os animais em tempos de guerra
O conflito entre Israel e o Hamas (2023) nos leva a refletir não só sobre as mortes humanas, mas a de animais não humanos. De certa forma, os tempos mudaram um pouco, pois os brasileiros resgatados puderam trazer ao Brasil seus animais de estimação nos voos das Forças Aéreas Brasileiras - FAB. O mesmo ocorreu com refugiados da Guerra Ucrânia x Rússia (2022), quando retornaram ao Brasil. Isso demonstra que as pessoas aumentaram sua consciência em relação aos direitos dos animais. E que os animais no mundo inteiro já são considerados como parte da célula familiar. Civis ucranianos que percorreram a rota de fuga levaram consigo seus animais de estimação. As redes sociais exibiram fotos comoventes dos ucranianos caminhando abraçados a seus animais dentro de seus casacos ou embrulhados em cobertores. As rotas de fuga chegavam à Polônia e outros países, e várias Organizações Não Governamentais se mobilizaram para receber os animais. Infelizmente, muitos desses animais não ficaram com seus donos e tiveram que ir para abrigos.
Entretanto, os animais não tiveram a mesma sorte em outros tempos de guerra. Desde os tempos mais remotos, o homem se utilizou dos animais para fins bélicos. Antes de Cristo, os elefantes e cavalos faziam as vezes de tanques de guerra. Os camelos e dromedários experimentaram juntos com os humanos as mesmas agonias e mortes em combates sangrentos. Os camelos foram muito usados no deserto árido ou regiões ao norte da África e Oriente Médio, devido à sua capacidade de sobreviver por vários dias sem água. Apresentavam grande resistência em campos de batalha. Eles armazenam gordura na corcova e são capazes de fazer longos percursos. Eram usados pelos egípcios, assírios, árabes e persas.
Os elefantes estiveram presentes no exército cartaginês de Aníbal nas Guerras Púnicas. Aníbal possuía um exército de elefantes africanos que assustava o opositor. O exército considerado inimigo matava os elefantes atirando flechas atrás das orelhas. Outra tática do inimigo era desferir machadada nas pernas dos elefantes. Os elefantes também foram usados por Dario III, último Xá da Pérsia (336 a 330 a.C.).
Os cavalos foram os animais mais presentes nas guerras. Não só eram utilizados para salvar feridos, como para enfrentar as batalhas, lutando corpo a corpo com os soldados. Eram usados para puxar as chamadas “ambulâncias voadoras”, que eram carruagens puxadas por cavalos.
Na Idade Média, os “cavaleiros” se tornaram uma classe importante, e eram hábeis guerreiros. Muito conhecida foi a participação dos cavaleiros nobres nas Cruzadas. As Cruzadas tinham como objetivo devolver a Terra Santa para os cristãos. E lá estavam os cavalos envolvidos nessa guerra entre cristãos e mulçumanos na Palestina.
Na época da pirataria, serpentes e abelhas eram lançadas contra o inimigo e, até hoje o veneno de animais peçonhentos como sapos, pererecas, cobras, aranhas, besouros e escorpiões é usado para matar as pessoas. Índios Kalahari, habitantes de deserto no sul da África (Namíbia e Botswana) envenenavam suas flechas com veneno potentíssimo de besouro. Essa técnica de guerra é habitual entre outros povos indígenas. Nas florestas da Colômbia existe uma rã dourada que é um dos animais mais venenosos do mundo.
Cobras e serpentes foram usadas na Guerra do Vietnã (1961/1975). Os vietnamitas comunistas construíram túneis criando caminhos falsos nos quais colocavam serpentes e cobras venenosas para matar soldados americanos.
Os pombos sempre estiveram presentes nas guerras. Essa ave, que é o símbolo da paz e do Espírito Santo para os cristãos, não foi poupada nas batalhas. Os pombos eram usados como correio e carregavam mensagens por meio de um tubo amarrado na perna. Em alguns casos eram treinados para carregar máquinas microfotográficas colocadas embaixo das asas para tirar fotos do inimigo. Quando soldados descobriam uso de pombos para envio de mensagens, introduziam falcões para interceptá-los.
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os alemães usaram gases tóxicos, como cloro gasoso e os animais, inclusive cães sofreram os efeitos dessa arma letal. Sem esquecer que os cães foram levados à guerra desde o antigo Egito, quando eram lançados com pontas de ferro na coleira para atacar o inimigo. Ainda na Primeira Guerra Mundial os chamados cães misericordiosos (mercy dogs) levavam remédios aos soldados feridos. Carregavam água, álcool e primeiros socorros. O exército da então União Soviética ensinou os cães a procurar comida debaixo de tanques. Depois amarravam bombas nos animais para explodirem debaixo dos tanques dos inimigos.
Na Segunda Guerra Mundial (1939/1945), houve um verdadeiro holocausto “pet”. A fim de racionar alimentos, a Inglaterra recomendou a matança dos animais domésticos. As pessoas entregavam voluntariamente os animais para o sacrifício.
E o que dizer dos animais camicases? No Reino Unido, carcaças de ratos eram preenchidas com explosivos plásticos com a intenção de espalhá-las próximo às caldeiras dos nazistas. A expectativa era que, ao verem os ratos os atirassem nas caldeiras, ocasionando uma explosão. O plano teria dado certo se o primeiro carregamento de ratos explosivos não tivesse sido capturado pelos alemães.
Em 1942, depois do ataque de Pearl Harbor pelos japoneses, os americanos lançaram no Japão nuvens de camundongos munidos de minibombas incendiárias. Além disso, os EEUU criaram um projeto denominado Bat Bomb, em que atirariam no Japão morcegos mexicanos carregados com bombas relógio. Mas, optaram pela Bomba Atômica. A primeira bomba nuclear foi criada pelo projeto Manhattan nos EEUU. As bombas atômicas atiradas no Japão causaram destruição em massa, devido ao intenso calor e radioatividade que perdurou por longo prazo, danificando os animais, o meio ambiente e as pessoas. Com autorização do presidente Truman em 06 de agosto de 1945, foi atirada a bomba “garotinho” em Hiroshima (urânio), e em 09 de agosto de 1945 foi lançada outra bomba em Nagasaki (plutônio). Morreram mais de 120 mil pessoas e milhares de animais. Em 1970, foi firmado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).
Todas essas armas assassinas são testadas, anteriormente, nos laboratórios de experimentação animal. Assim, as atividades de laboratório preparam as guerras. O Instituto Sueco de Pesquisa para a Paz revelou que fabulosas somas de dinheiro são empregadas em pesquisa de armas biológicas e químicas. Os países beligerantes gastaram milhões de dólares para importar macacos para suas experiências armamentistas.
Os testes nucleares continuaram a acontecer, como foi o caso dos testes no Atol de Bikini no Oceano Pacífico, onde foram realizadas várias explosões experimentais (operação Crossroads - 1946 - Guerra Fria). Foram desenvolvidos pelos EEUU que lançaram mais de vinte bombas de hidrogênio e nucleares (1946-1958), aniquilando muitas formas de vida. Para testar os efeitos das bombas no meio ambiente, porcos e cabritos foram usados como cobaias. Esses animais eram soltos e submetidos a medidores de radiação no convés dos navios.
A França, nas ilhas da Polinésia Francesa (1960/1990), também realizou testes nucleares no projeto Moruroa Files, dizimando a fauna marítima e danificando os corais. Tratava-se de um programa nuclear secreto que durou trinta anos. Os níveis de câncer na Polinésia subiram e o Estado nunca pagou indenização às vítimas.
Na Guerra do Vietnã (1955/1975), os animais sofreram com o derramamento do agente laranja (desfolhante químico) pelos EEUU. Milhões de pessoas e animais foram expostos. Os EEUU entraram na guerra depois do assassinato do presidente da Coréia do Sul.
Na Guerra do Irã X Iraque (1980/1988), foram usadas armas químicas que dizimaram os animais. Essa guerra foi uma disputa entre os dois países (Irã X Iraque), uma vez que o presidente do Iraque, Saddan Hussein, tentava deter a expansão do islamismo radical combatendo os curdos que viviam no Iraque.
A Guerra do Golfo (1990/1991) foi um conflito militar travado entre o Iraque e forças da coalizão Internacional liderada pelos EEUU, patrocinada pela ONU. A briga foi pelo preço do barril de petróleo (Iraque X Kwait). Milhões de barris foram incendiados pelas tropas iraquianas no Kwait. Os animais ficaram cobertos de óleo. Nessa época já havia uma consciência ambiental e muitos biólogos e cientistas tentaram salvar os animais limpando-os e deles cuidando.
A Guerra do Iraque (Segunda Guerra do Golfo - 2003/2011) se deu quando o Iraque foi invadido por uma coalizão militar com a finalidade de procurar armas químicas que jamais foram encontradas. Na ocasião, 140 golfinhos e leões marinhos foram usados para detectar minas submarinas. Golfinhos foram equipados por câmeras para localizar minas e mergulhadores inimigos. Desde a Guerra do Vietnã, a Marinha dos EEUU já havia usado os golfinhos (2003). Os golfinhos eliminaram as minas que existiam no Porto de Umm Qasr, no Golfo Pérsico.
Os golfinhos também foram usados pelos russos na atual Guerra da Ucrânia. Imagens foram detectadas por satélite mostrando que russos colocaram golfinhos no Mar Negro para proteger a base naval do Kremlin.
O Direito Internacional Humanitário não protege os animais, como é o caso da Convenção de Genebra (1949), da Convenção sobre as Armas Químicas e Biológicas (na sigla em inglês BWC - 1972), da Convenção sobre a Proibição do Desenvolvimento, Produção, Estocagem e Uso de Armas Químicas e sobre a Destruição das Armas Químicas Existentes no Mundo (1993), O Tribunal Penal Internacional (2002), que só julga crimes que afetam pessoas humanas.
Em 2014, quando a Rússia tomou a península da Criméia, testemunhas assistiram animais fugindo incendiados pelas bombas comunistas atiradas pelo presidente da Rússia, Putin. Os animais dos zoológicos estavam morrendo de fome e cogitou-se de matá-los para evitar a possibilidade de que fugissem das jaulas e atacassem as pessoas.
Embora atualmente algumas pessoas se preocupem com o resgate de animais durante as guerras, constatamos que o homem continua desde sempre colocando sua inteligência a serviço da destruição. A inteligência humana está sendo desacoplada da consciência. Todos nós almejamos que o futuro nos reserve um mundo mais pacífico, próspero e justo. Este é um mundo que só poderemos construir todos juntos. Temos que reconhecer, em adição às nossas responsabilidades profissionais e familiares, que temos uma responsabilidade coletiva com a sustentação dos princípios da dignidade humana, com a restauração da integridade da natureza e da dignidade dos animais.
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Referências bibliográficas
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