Nós, Animais: um Caleidoscópio de Emoções, Cognições e Sensibilidades

I.Introdução

Certo dia, voltando de uma caminhada rotineira, me deparei com um corpo caído no chão. Era um “pacote flácido”, como diria Chico Buarque de Holanda em sua primorosa poesia Construção, canção do álbum homônimo lançado em 1971. Mas a sua forma compacta – repleta de circunvoluções e dobras simétricas – sugeria se tratar dos restos mortais de um pequeno pássaro. Ou será que aquele ser ainda estaria vivo e precisava de socorro? 

O aperto no coração, contudo, logo se desvaneceu. Vi que estava diante de um fragmento de coração de bananeira, já semi despedaçado e desidratado. Que bom, pensei. Não gosto de caminhar e me deparar com a morte de seres sencientes, apesar de ser ela o famoso e inexorável “outro lado” da vida. Imediatamente comecei a viajar mentalmente em perguntas que, a despeito de todo o avanço científico que temos, jamais foram respondidas. Uma delas é: o que é a vida? E, mistério ainda maior: como a vida se tornou senciente e autoconsciente?  Sobre esses “milagres” da evolução, passo a fazer um breve resumo baseado no capítulo IV do meu livro mais recente (BRÜGGER, 2023).

II. Sobre a suposta dicotomia animais humanos e não-humanos


O biólogo Frans De Waal (2017) comenta que o termo ´não-humano´ o deixa irritado, porque agrupa milhões de espécies por uma ausência, isto é, como se lhes faltasse alguma coisa. Em tom jocoso ele diz que muitos animais são também não-pinguins, não-hienas, etc. 

Por mais que tentemos, portanto, parece que somos eternos prisioneiros de nossas palavras, das nossas formas de expressão antropocêntricas e especistas...

De Waal (2017), que estuda a cognição animal sob o ponto de vista evolutivo, afirma que os animais são tradicionalmente descritos como escravos de suas emoções. Tudo remonta à visão dicotômica de que os animais são seres ´selvagens´, ao contrário dos ´civilizados´ humanos. 

Ser selvagem implica ser indisciplinado e incapaz de se conter, enquanto ser civilizado refere-se ao exercício das boas maneiras de que os humanos são capazes. Segundo o autor, até recentemente, mesmo no meio acadêmico, os animais eram vistos como máquinas de estímulo-resposta para obter recompensas – e evitar punições – ou como robôs geneticamente dotados de instintos úteis. Isso mudou enormemente. Quase todas as semanas há uma nova descoberta sobre uma forma sofisticada de cognição animal. 

Ouvimos dizer que os ratos podem se arrepender de suas próprias decisões, que os corvos fabricam ferramentas, que os polvos reconhecem rostos humanos, e que neurônios especiais permitem que os macacos aprendam com os erros uns dos outros. Falamos abertamente sobre a cultura [1] nos animais, e sobre sua empatia e amizades. Nada mais está além dos limites, nem mesmo a racionalidade, considerada a marca da humanidade. 

De Waal (2017) argumenta que atribuímos uma enorme importância à linguagem e ao pensamento abstrato, mas essa é apenas uma maneira de enfrentar o problema da sobrevivência. Existem muitas formas de processar, organizar e difundir informações, e só recentemente a ciência tornou-se suficientemente aberta para tratar essas diferentes maneiras com fascínio e admiração, em vez de negação e rejeição. Cresce também a oposição ao termo ´inato´, já que mesmo o comportamento típico de uma espécie se desenvolve a partir de uma história de interação com o meio ambiente. E como nada é puramente inato, ou genético, o termo ´instinto´ também deve ser evitado.

De Waal (2017) cita o biólogo Jakob von Uexküll, que chamou a atenção para o ponto de vista do animal, chamando-o de (o seu) Umwelt – palavra alemã para mundo/meio circundante. A noção de Umwelt diz respeito ao mundo autocentrado e subjetivo de um organismo, que representa apenas uma diminuta parcela de todos os mundos possíveis. 

Uexküll (2010) rejeitava a tese cartesiana do animal-máquina, e via os órgãos sensoriais e motores como meios para a percepção e a produção de efeitos. Para ele, esses dois mundos – o da percepção e o da produção de efeitos – formavam uma unidade fechada, um certo Umwelt, e tais universos seriam tão diversos quanto os próprios animais. A partir dessas premissas, De Waal pergunta: como é ser um morcego?

De Waal (2017) define a cognição como a transformação mental da entrada/inserção sensorial em conhecimento sobre o ambiente e a aplicação flexível desse conhecimento. Já a inteligência se refere mais à capacidade de fazer esse processo ser bem-sucedido. Cada espécie lida de forma flexível com o meio ambiente, realiza isso de maneiras diferentes, e desenvolve soluções para os problemas que esse ambiente apresenta. 

A cognição não é meramente um produto dos sentidos, da anatomia, e da capacidade cerebral de um animal. É por isso que apenas a teoria evolutiva é capaz de explicar a sobrevivência,  a ecologia,  a anatomia, e a cognição ao mesmo tempo. O que temos, então, são capacidades, inteligências, e cognições, sendo a cognição humana uma variedade de cognição animal.

Essa riqueza de modalidades de cognição dificultou historicamente a compreensão do Umwelt de outros animais, mesmo no meio acadêmico. Uma consequência disso é que fazemos muitas afirmações antropocêntricas e especistas sobre os outros animais, principalmente sobre o que eles não têm, ou não são. 

Gonçalves (1988, p.17), por exemplo, critica a transformação de diferenças em hierarquias, via evolucionismo linear. Ele diz que “as sociedades ditas primitivas são consideradas opostas à cultura, e à civilização porque não têm Estado, não têm escrita, não têm classes sociais. Dessa forma, dizemos que o que elas não têm e não o que eles são”. 

Esse mesmo tratamento narcisista e obtuso se estende aos outros animais, aos não-humanos. Antropocentrismo, etnocentrismo, racismo, especismo, e sexismo são, por conseguinte, formas de discriminação que se agrupam em torno de pelo menos um elemento comum: a ignorância, no sentido mais pleno e original dessa palavra.  

No que concerne à consciência, De Waal (2017) acredita que um senso de identidade esteja presente em diversas espécies – para além de testes como o do reconhecimento do próprio reflexo em espelhos – e defende que a autoconsciência se desenvolve como uma cebola, construindo camada após camada, em vez de surgir do nada. 

Concordo inteiramente com De Waal: por tudo o que sabemos hoje sobre a diversidade cognitiva e emocional presente no mundo animal, as “pétalas” da cebola da sua metáfora não são homogêneas em espessura ou em qualidade. Elas exibem refinamentos que lhes são próprios, não observados em outras composições. Isso é algo que a abordagem filogenética tradicional não dá conta, como é demonstrado no estudo The Cambridge Declaration on Consciousness (LOW, 2012).

De acordo com o biólogo Marc Bekoff (2007), Charles Darwin foi o primeiro cientista a levar a sério o estudo das emoções nos animais e compilou mais de vinte e cinco delas [2]. Darwin postulava que as emoções evoluíram tanto nos animais quanto nos humanos, com o propósito de fortalecer os laços sociais daqueles que vivem em grupos. Ele acreditava que as emoções nos conectavam com o resto da nossa comunidade e com o resto da biosfera.

Darwin se valeu de observações sobre comportamentos como pausas, antes de resolver problemas, para embasar sua teoria de que mesmo os animais sem linguagem são capazes de raciocinar. E enfatizou que as diferenças entre as espécies eram de grau e não de natureza. Dessa forma, para Darwin, existia um continuum evolutivo entre os animais não apenas no que toca às estruturas anatômicas, mas também no que diz respeito aos cérebros e às capacidades cognitivas e emocionais a elas associadas. Em suma, diz Bekoff, é possível encontrar as raízes da nossa inteligência e emoções nos outros animais.

Embora a obra de Charles Darwin tenha representado uma quebra de paradigma, ela não serviu como base para o movimento de defesa dos direitos animais (WILKS, 2011). Apesar de Darwin haver escrito extensivamente sobre as emoções nos animais, penduramos uma ´pedra de moinho´ no pescoço da biologia, como afirmou o grande evolucionista Ernst Mayr em relação à visão cartesiana dos animais como autômatos imbecis (De Waal, 2017). O autor destaca ainda que muitos cientistas no século XIX estavam ansiosos para encontrar inteligência nos animais. 

Hoje, contudo, existem provas robustas sobre a capacidade dos animais experimentarem não apenas estados emocionais como alegria, angústia ou medo, mas também de serem capazes de estabelecer regras de convivência social e exibir comportamentos complexos, como o luto, e outros ligados à honra, à empatia, e à justiça. E mesmo nos animais que consideramos mais distantes de nós, como os peixes, há evidências sobre a sua capacidade de sentir dor, medo, demonstrar astúcia, e até tradições culturais. Diversos estudos comprovam também que muitos mamíferos são capazes de refletir acerca de eventos futuros (BEKOFF, 2007). 

O biólogo Jonathan Balcombe (2010) salienta que hoje a questão não é mais se os animais pensam, mas o que eles pensam. É fundamental, portanto, que entendamos que os animais são inteligentes (e pensam) na medida de suas necessidades. Ele também defende a tese de que a moralidade não se originou nos humanos, e destaca a evolução da senciência como um ponto de mutação crucial que afetou todos os animais na história biológica, uma vez que é indiscutível o valor das emoções para abalizar o sofrimento. 

De fato, acerca do continuum entre nós e os outros animais, esses biólogos acreditam numa modificação gradual, e indagam: como a nossa espécie teria se tornado racional e consciente, se não houvesse degraus no mundo natural? 

Para De Waal (2017), os animais geralmente sabem apenas o que precisam saber. Cada organismo tem sua própria ecologia (e Umwelt)  que ditam o que é preciso saber para viver e sobreviver. Como os cérebros são órgãos dispendiosos, em termos de consumo de energia, os animais têm os cérebros de que precisam — nada mais, nada menos. Para nós, animais humanos, é o mesmo princípio: forças evolutivas moldam a aprendizagem e a cognição, e a cognição foi modelada para servir à sobrevivência. 

E sobre diferentes formas de comunicação? Segundo De Waal (2017), os golfinhos conhecem os chamados uns dos outros, mas fazem muito mais do que isso: produzem assobios característicos, chamados de ´apitos de assinatura´, que são sons agudos com uma modulação única para cada indivíduo. Cada vez mais especialistas veem esses apitos como nomes. 

Um estudo no Parque Nacional Amboseli, no Quênia, mostrou que tanto estorninhos (Spreo superbus), quanto macacos (Cercopithecus aethiops) emitem gritos de alarme acusticamente diferentes para diferentes classes de predadores. Os ´alarmes de rapina´ dos estorninhos e dos macacos são assim chamados porque estão relacionados exclusivamente a espécies de aves que atacam do ar. 

Pesquisas também demonstram que os macacos comparam as vocalizações de acordo com seus referentes, e não apenas com suas propriedades acústicas: os que aprenderam a ignorar a reprodução do alarme para aves de rapina de um estorninho, posteriormente também ignoraram a reprodução do alarme para águias de um macaco. O estudo demonstrou ainda que esses macacos são sensíveis à amplitude de especificidade referencial exibida por diferentes chamadas. Os indivíduos que aprenderam a ignorar a reprodução de um alarme de predadores terrestres, por estorninhos, posteriormente também ignoraram a reprodução dos alarmes tanto para leopardo quanto para raptores, por macacos (SEYFARTH e CHENEY, 1990).

Mais impressionante é um estudo recente que descobriu que elefantes selvagens da savana africana se dirigem aos membros de sua família com chamados específicos individuais que se assemelham a nomes, sem qualquer evidência de imitação das vocalizações do receptor. Isso é semelhante à nomeação na espécie humana, mas diferente de fenômenos conhecidos em outros animais. 

A pesquisa mostrou que os elefantes responderam de forma diferente às reproduções de chamadas originalmente endereçadas a eles, em contraste com as chamadas endereçadas a um indivíduo diferente, indicando que eles podem determinar a partir da estrutura de uma chamada se esta foi dirigida a eles ou não. Essas descobertas oferecem a primeira evidência de uma espécie não humana abordando individualmente membros da mesma espécie sem imitar o som emitido pelo receptor (PARDO et al.,2024).

De Waal (2017) questiona a suposta profunda conexão entre cognição e linguagem e diz: não tenho certeza se penso em palavras. Muitas vezes lutamos para encontrar as palavras adequadas. Mas isso não acontece porque não saibamos o que pensamos, ou sentimos. Hoje é amplamente aceito que embora a linguagem auxilie o pensamento humano, fornecendo categorias e conceitos, ela não é a matéria do pensamento. Na verdade, não precisamos de linguagem para pensar. 

Outras semelhanças entre nós e os outros animais são contundentes. A chamada Teoria da mente, e a metacognição, ou seja, a capacidade de compreender os estados mentais de outros e de refletir sobre seus próprios pensamentos, são mais um contexto. Pelo menos os chimpanzés demonstram isso. Eles fazem muitas tomadas de perspectiva, desde estarem cientes do que os outros querem, até saberem o que os outros e eles próprios sabem. O autocontrole é outra característica muito antiga das sociedades animais. Também nesse quesito os chimpanzés demonstram uma grande capacidade. 

De Waal (2017) fala ainda em comportamentos políticos e ligados ao poder, além de outros que demonstram que muitos animais têm uma exata noção do custo-benefício de suas ações. Muitos estudos revelam comportamentos ligados ao altruísmo, aprendizagem por conexões causais, e possibilidades de uso de diferentes objetos em primatas não humanos. Vários animais usam ferramentas, como os corvos, e agora temos evidências acerca desse uso para além de mamíferos e aves. 

E quanto aos “inveterados” invertebrados? De Waal (2017) discorre longamente sobre a habilidade e a inteligência em polvos, os quais possuem o maior e mais complexo cérebro de todos os invertebrados. Esses animais têm quase duas mil ventosas, cada uma equipada com seu próprio gânglio com meio milhão de neurônios. O cérebro se conecta com todos esses minicérebros e, em vez de um único comando central, o sistema nervoso cefalópode funciona mais como a Internet! [3].

Segundo Valente (2022), o debate ético acerca da consideração moral aos animais não humanos é atualmente centrado na ética senciocêntrica, e embora a imensa maioria destes seja constituída por invertebrados – e de muitos se mostrarem sencientes – eles são em geral excluídos desse debate. Os invertebrados tampouco são protegidos por legislação alguma [4], seja devido a vieses relacionados à empatia, inteligência etc., seja por questões culturais. A falta de consenso acerca de serem ou não sencientes é outro entrave.

Entretanto, crustáceos (como caranguejos, lagostas e camarões) são indubitavelmente sencientes, e insetos e aracnídeos (como aranhas e escorpiões) também demonstram o serem. Além disso, anelídeos (como minhocas), e gastrópodes (como caracois) exibem reações de escape a estímulos dolorosos, e moluscos bivalves, (como mexilhões, ostras, e berbigões) apresentam receptores para dor. A autora defende, com isso, a inclusão dos invertebrados no âmbito da proteção legislativa, e enfatiza a necessidade de revermos a atual ordenação ética e moral baseada em hierarquias e padrões antropocêntricos.

Barron e Klein (2016) destacam que as razões subjacentes a como, por que, e quando a consciência evoluiu continuam sendo tópicos muito debatidos, porque essa discussão implica considerar a sua distribuição em toda a árvore filogenética animal. Os autores propõem que pelo menos um grupo de invertebrados, os insetos, possui as capacidades para o aspecto mais básico da consciência: a experiência subjetiva. Por essa razão, eles propõem que as origens da experiência subjetiva podem ser traçadas a partir do Cambriano. 

Apesar de todo o conhecimento que temos, e do que se desvela diante dos “olhos do nosso coração”, estamos submersos no que o filósofo Richard Ryder (2011) chama de um especismo generalizado e institucionalizado. Uma coisa é certa, porém: não é mais moralmente possível tolerar o tratamento desigual dos nossos “iguais”. E Ryder, autor do termo especismo, destaca: para a moralidade, o que importa não é a consciência, em geral, mas a consciência da dor e do sofrimento. 

III. Algumas considerações finais


Os fatos científicos aqui citados deveriam ter desdobramentos muito importantes no universo ético e moral, pois tais evidências mostram que não há mais argumentos para sustentar a ideia de que os humanos têm o direito de usar os outros animais como recursos, objetos, ou propriedades (FRANCIONE e CHARLTON, 2015). É lamentável constatar que, à exceção dos polvos, os mamíferos e as aves — citados na “Declaração de Cambridge” — constituem a maior parcela dos bilhões de animais criados e abatidos todos os anos para a alimentação humana, além dos milhões de outros explorados e mortos em diversos contextos, como o da ciência especista.

Goodall (1999) enfatiza que as raízes do lado sombrio da espécie Homo sapiens são claramente encontradas nos nossos parentes mais próximos, os chimpanzés. Ela discorre sobre um senso de identidade de grupo que, mesmo neles, pode evoluir para a xenofobia. Ela também discorre sobre o que observou neles sobre violência e predisposição para guerras. No entanto, ela afirma que a maldade humana é incomensuravelmente pior do que a pior agressão dos chimpanzés.

Tudo indica, portanto, que apesar de nos julgarmos superiores aos outros animais em tudo – principalmente no que toca a atributos morais e cognitivos – parece que nos falta altruísmo e discernimento no que tange à justiça.

Masson (2014), que discute conceitos como o de crueldade, ódio e indiferença, contextos como a guerra, e temas como a exploração alheia, conclui que – apesar do nosso enorme potencial para o altruísmo – somos possivelmente a espécie mais agressiva que há no planeta. 

O autor também examina as raízes da moralidade humana, com base na noção de bem e de mal presente nos animais, e afirma que o uso do nosso extraordinário poder intelectual se tornou desconectado das nossas necessidades reais. Isso acabou por nos expor a perigos ainda maiores, em vez de nos proteger. Mais interessante ainda é que ele argumenta que esse processo teria começado com a domesticação dos animais, a qual trouxe à tona uma crueldade humana que se encontrava em estado latente. 

E aqui vale sublinhar: além das espécies chacinadas para a alimentação humana, aquelas exploradas em laboratórios, e em inúmeros outros contextos são todas domesticadas. Tudo isso sem necessidade.

Este foi um breve relato acerca da senciência e da consciência nos animais baseado em pesquisas científicas. Todavia, tais estudos são apenas a prova cabal do que deveríamos saber se prestássemos atenção no nosso entorno, se nos envolvêssemos no delicado exercício de imergir no Umwelt de outros seres sencientes e conscientes. 

Tenho a sorte de morar junto à natureza. Será a sinfonia de pássaros à minha volta apenas uma soma de “cantos” sem significado algum? Serão somente sons desconexos, uma cacofonia de notas musicais? Claro que não! E pelos horários e diversidades de cantos já ouso arriscar que horas são, se há vento forte ou não, ou se já vai amanhecer...  

Ao me deixar levar pela experiência de resgatar insetos condenados a se afogarem em corpos d´água artificiais – como as piscinas – consegui, ainda que de forma incipiente, imergir no mundo da sua agonia e medo, mas também na sua sensação de alívio ao se sentirem seguros sobre os meus dedos [5]. Essa é uma das inúmeras formas de abrir uma janela para o universo desses animais distantes de nós, de penetrar na parte emocional do seu Umwelt. É também uma forma de vivenciar, ainda que por momentos fugazes, a condição de ser vítima. E é, sobretudo, uma forma poderosa de experimentar a compaixão, de se colocar no lugar do outro (BRÜGGER, 2020).


______

Notas

[1]: Em 1952, o primatólogo Kinji Imanishi propôs ser possível falar de cultura animal, quando os indivíduos aprendem hábitos uns dos outros, mas a ciência ocidental levou quarenta anos para incorporar essa ideia. (DE WAAL, 2017, p.51).

[2]: Algumas dessas emoções em mamíferos são: ansiedade, desespero, ternura, devoção, amuo, determinação, ódio, desdém, culpa, orgulho, paciência, surpresa, medo, e vergonha.

[3]: Indico o belíssimo documentário Professor Polvo (My Octopus Teacher) de 2020, produzido por Craig Foster e dirigido por Pippa Ehrlich e James Reed. Disponível na Netflix.

[4]: Um recente pequeno passo nesse sentido foi a inclusão da proibição do cozimento de polvos, lagostas, e caranguejos vivos na nova Lei de Bem Estar Animal do Reino Unido. Veja mais em: HUNT, Katie. CNN Brasil. Lagostas e caranguejos sentem dor e não deveriam ser cozidos vivos, diz estudo. 23.nov.2021. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/lagostas-e-caranguejos-sentem-dor-e-nao-deveriam-ser-cozidos-vivos-diz-estudo/

[5]; Piscinas e outros lagos artificiais não têm “praias” ou zonas de transição que permitam a saída da água para o ambiente terrestre.  


Referências bibliográficas


BALCOMBE, Jonathan. Second nature: the inner lives of animals. New York: Palgrave Macmillan, 2010.

BARRON, Andrew B. e KLEIN, Colin. What Insects Can Tell Us about the Origins of Consciousness. PNAS, v. 113, n. 18, p.4900-4908, May 3rd, 2016.

BEKOFF, Marc. The emotional lives of animals: a leading scientist explores animal joy, sorrow, and empathy: and why they matter. Novato: New World Library, 2007.

BRÜGGER, Paula. Animais como modelos experimentais: uma visão abolicionista transdisciplinar. Florianópolis: Editora da UFSC, 2023.

BRÜGGER, Paula. Animalicídios não dolosos. In: BRAGA, Elda, LIBANORI, Evely, SCHÖPKE, Regina (Orgs.). Animais em prosa e verso – uma escrita pela libertação animal. Rio de Janeiro: Oficina da Leitura, 2020: 134-138. Disponível em: http://www.oficinadaleitura.com.br/resources/%28Livro%29%20Animais%20em%20prosa%20e%20verso.pdf. Acesso em: 11.jul.2023.

DE WAAL, Frans. Are we smart enough to know how smart animals are? London: Granta Books, 2017.

FRANCIONE, Gary; CHARLTON, Anna. Animal Rights: The Abolitionist Approach. Middletown: Exempla Press, 2015.

GONÇALVES, Carlos Walter P. Possibilidades e limites da ciência e da técnica diante da questão ambiental. Geosul, Florianópolis: Editora da UFSC, ano 3, n.5, p.7-40, 1o sem. 1988.

GOODALL, Jane. Reason for Hope: A Spiritual Journey. New York: Grand Central Publishing, 1999.

LOW, Philip. The Cambridge Declaration on Consciousness. In: Francis Crick Memorial Conference, July 7 2012, Churchill College, Cambridge University. Proceedings[…]. Churchill College; Cambridge University, 2012. p 1–2. Disponível em: https://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf. Acesso em: 06 jul. 2024.

MASSON, Jeffrey Moussaieff. Beasts: what animals can teach us about the origins of good and evil. New York: Bloomsbury, 2014.

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SEYFARTH, Robert e CHENEY, Dorothy. The assessment by vervet monkeys of their own and another species' alarm calls. Animal Behaviour, v.40, p.754-764, 1990.

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WILKS, Jessica. Animal Rights and the 19th Century Antivivisection: Was Charles Darwin the Catalyst? Nov. 2011. Disponível em: https://makinghistoryatmacquarie.wordpress.com/2011/11/22/animal-rights-and-19th-century-antivivisection-was-charles-darwin-the-catalyst/. Acesso em: 07 jul.2024.

PAULA BRÜGGER

Bióloga,com especialização em Hidroecologia, mestra em Educação e Ciência, e doutora em Sociedade e Meio Ambiente. Foi professora titular do Departamento de Ecologia e Zoologia, da Universidade Federal de Santa Catarina, e atuou nos cursos de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento, e Perícias Criminais Ambientais. Foi coordenadora de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira – SVB, e diretora de educação do Instituto Abolicionista Animal – IAA. Atualmente coordena o Observatório de Justiça Ecológica da UFSC. É autora dos livros Educação ou adestramento ambiental?, Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas, Jornalismo Especista – textos e fragmentos de olhares sobre os animais não humanos na mídia, e Animais como modelos experimentais: uma visão abolicionista transdisciplinar, além de  uma centena de outros textos sobre ética ambiental e animal. Temáticas de pesquisa: educação ambiental abolicionista animal; paradigmas de ciência e sustentabilidade; implicações éticas e epistemológicas da visão mecanicista da ciência na experimentação animal; e imagem da natureza e dos animais não-humanos na mídia.

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