TURISMO CRUEL: RETRATOS DA EXPLORAÇÃO ANIMAL NO SUDESTE ASIÁTICO

Quarta-feira, 29 de abril de 2026


Teatro de Elefantes do Nong Nooch Tropical Garden, Tailândia. Foto: Laerte Levai

Durante os meses de fevereiro e março deste ano a reportagem do Jus Animalis esteve, literalmente, do outro lado do mundo. A pauta que norteou a matéria realizada no Sudeste Asiático, a partir da Tailândia, viu a realidade deste país e daqueles que formavam a antiga Indochina - Camboja, Laos e Vietnã -, além de outro a leste da Índia, Myanmar, mas sem deixar de falar dos que se encontram mais ao sul do continente, como Malásia, Indonésia e Filipinas. A maioria dessas Nações é adepta da CITES - Convenção Sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e da Fauna Selvagens Ameaçadas de Extinção, o que em tese as autorizaria a combater o tráfico e os atos abusivos a ele inerentes. Sucede que na prática a realidade é outra, até porque a captura de espécimes silvestres e sua exploração servil são interfaces do comportamento humano desvirtuado.

Nosso intuito jornalístico em se aventurar pela Ásia foi o de retratar a condição de animais selvagens como elefantes, tigres e crocodilos (levados à indústria do turismo), macacos (submetidos também à atividade laborativa), ursos (aprisionados em fazendas de extração da bile), elefante macho (abatido para retirada de marfim), pangolins (cujas escamas interessam à medicina tradicional) ou calaus (aves que têm a cabeça decepada para aproveitamento da carapaça no artesanato), dentre outras tantas situações agressivas à natureza dos bichos. E como se mostrará nesta matéria, a simples exibição turística das espécies selvagens perante o público pagante é capaz de esconder atrás de si, não raras vezes, um histórico de opressão e violência que se manifestam de forma inimaginável no corpo ou na mente dos animais. Daí a necessidade de conhecer para repudiar.

Apesar de o Sudeste Asiático ter uma das maiores biodiversidades do mundo e, paradoxalmente, uma diminuição gradativa de suas florestas tropicais, em face da expansão dos limites urbanos e da atividade extrativa do óleo de palma, a maioria das Nações que o compõem possui alguma norma de proteção animal, mesmo que ineficiente. O que atrapalha a aplicação da lei são motivações de ordem cultural, econômica e social. Isso porque a sujeição legitimada de certas espécies muitas vezes tem respaldo governamental em virtude de hábitos e tradições ancestrais.

E ainda pior, as reprimendas legais são insuficientes para intimidar os infratores, tal qual se verifica em relação aos caçadores furtivos. Não bastassem tantas dificuldades, a economia da maioria dos países asiáticos parece estimular a interação do turista com animais selvagens e, em alguns casos, promove o consumo de carne exótica. Já os órgãos governamentais de fiscalização – em meio à dificultosa realidade das fronteiras vazadas - não têm efetivo humano suficiente para proteger grandes áreas florestais e coibir a violência contra espécies nativas. Essa é a dura realidade.

O atual ano solar budista é 2569, que no calendário gregoriano ocidental corresponde a 2026. Na Tailândia a Lei de Bem-Estar Animal é o Ato B.E. (Buddhist Era) 2557/2014, que busca coibir atos de crueldade e negligência aos animais. Ali também está em vigor a Lei de Proteção à Vida Selvagem (B.E.2562/2019), de natureza conservacionista e cuja apenação é mais severa, direcionada aos animais nativos e que visa a proteger, cuidar e restaurar a vida selvagem, além de garantir seu habitat. O país ainda é subscritor da CITES e sua legislação se opõe ao comércio de espécies ameaçadas, medida igualmente adotada por outras nações de religião budista, como Laos, Camboja e Myanmar. Malásia e Indonésia, de tradição muçulmana, que, assim como Filipinas, predominantemente cristã, seguem a mesma normatização internacional de proteção à fauna.

Nossa reportagem se propõe a mostrar como e porque acontece a exploração turística interativa com animais na Tailândia. Fala das circunstâncias que ocasionaram a trágica morte de 72 tigres em Chiang Mai. Revela de que maneira a Escola de Macacos ainda sobrevive em algumas localidades no interior do país e porque a bizarra luta de boxe entre orangotangos, que havia na Tailândia, estava relacionada ao tráfico na Indonésia. Mostra que, por trás da captura de ursos nas florestas do Vietnã, de pangolins no Laos e no Camboja, de Calaus na Malásia e de crocodilos-filipinos, há uma rede de traficantes e contrabandistas que se direciona, por vezes, ao apelo turístico em obter benefícios econômicos, estéticos ou medicinais advindos de animais exóticos. 

Isso tudo sem deixar de dizer que, numa determinada província em Myanmar, o tráfico animal corre solto nas feiras de rua, nos estabelecimentos comerciais ou mesmo pela internet, sem que o governo militar do país consiga reprimir os criminosos. Mas apesar da cruel realidade que se vê em todo canto, a matéria do Jus Animalis indica que no Sudeste Asiático há esforços para melhorar a situação e o movimento de defesa animal permanece forte, seja por meio de vozes ativistas que combatem a crueldade, seja pela louvável iniciativa de se instituir áreas florestais protegidas ou santuários éticos que acolhem animais apreendidos ou resgatados em situação de vulnerabilidade.               

ELEFANTES, DO SAGRADO AO PROFANO

Templo em Chiang Mai: elefantes na simbologia religiosa budista e hinduísta. Foto: Laerte Levai

Na Tailândia o elefante é considerado um animal sagrado que, em termos espirituais, assume o papel de guardião de Buda, a conciliar em si força, paz e sabedoria. Na cultura hindu tal simbologia ancestral védica se projeta numa figura mítica com corpo humano e cabeça de elefante, a divindade Ganesha, cuja capacidade de vencer obstáculos está relacionada aos desafios que enfrenta. Em meio à riqueza de significados que possa ter o elefante, o fato é que se costuma dizer que as orelhas grandes conseguem ouvir o que é justo ou injusto, ao passo que a flexibilidade da tromba permite movimentos variados para desempenhar quaisquer tarefas e superar adversidades.

Independentemente de como o elefante apareça nas representações da espiritualidade oriental, o fato é que no Reino de Sião e em outras milenares dinastias reais retratadas nos templos budistas e nas obras de arte da monarquia asiática, sua imagem é sempre reverenciada. A passividade, a calma, a memória e a longevidade dos elefantes são comumente associadas à ideia de iluminação e de paz interior, imprescindíveis àqueles que buscam a verdadeira felicidade. Existe também uma crença, no Sudeste Asiático, que esses animais majestosos trazem fartura, proteção e sorte, recompensas almejadas por muitas pessoas que se lançam à jornada espiritual.

Não é nada disso que se vê, infelizmente, quando se examina a condição do elefante asiático em tempos mais recentes. O trabalho forçado na indústria madeireira (proibido na Tailândia em 1989) e a extração ilegal de marfim, somados à redução das áreas florestais para expansão urbana ou plantio da monocultura de palma, implicou em subjugação e/ou matança desses grandes mamíferos, que já vinham sentindo a perda significativa de seu habitat. No Sudeste Asiático os elefantes selvagens ainda sofrem com a ação de caçadores e o comércio ilegal, estimando-se que apenas na Tailândia, em termos estatísticos, há aproximadamente 3 mil vivendo na selva e outros 3 mil em cativeiro. Diana Zalamea, do santuário Elephant Nature Park, esclareceu à reportagem que em termos práticos a distinção entre ser animal selvagem ou domesticado acaba definindo jurídica e administrativamente a situação dos elefantes:

“De maneira geral, os elefantes selvagens são protegidos como vida silvestre, o que significa que não podem ser capturados, feridos ou comercializados, e estão sujeitos às leis de conservação. Por outro lado, os elefantes domesticados são legalmente considerados animais de propriedade privada, mais semelhantes a animais de criação. Eles podem ser possuídos, transferidos e manejados por indivíduos, desde que estejam devidamente registrados. Portanto, embora sejam da mesma espécie, o enquadramento legal em torno deles é bastante diferente dependendo de serem classificados como selvagens ou domesticados”.

Passeios turísticos em elefantes no parque Nong Nooch, na Tailândia. Foto: Laerte Levai

O JusAnimalis esteve no Nong Nooch Tropical Garden, na Tailândia, empreendimento que possui mais de 200 funcionários e recebe cerca de 5 mil visitantes por dia. O passeio de elefante custa 400 THB por pessoa (cerca de U$13 dólares). No costado dos animais, como se vê na imagem acima, sobem até quatro pessoas concomitantemente. No local há cerca de 100 elefantes disponibilizados para participar de atividades, sendo que alguns deles, como Pang Jenni e Jing Jo, nasceram na década de 1980 (época da inauguração do parque turístico). O animal mais velho é Plai Bird, nascido em 1976, e o mais novo é Plai Bai Lan, que nasceu no próprio parque em 2025. 

Nossa reportagem acompanhou a rotina laborativa de dezenas de elefantes ali mantidos. Logo na entrada há uma baia em que os turistas podem dar bananas aos animais e dinheiro ao tratador. Os animais distinguem o alimento que comem e o papel moeda que entregam com a tromba ao homem que permanece sentado em seu pescoço. Essa rotina entremeada de fotografias se estende durante horas a fio, enquanto outros elefantes percorrem os jardins do parque transportando turistas. Chamou a atenção, na baia, um elefantinho acorrentado à mãe que interagia com os visitantes. O olhar de aflição do filhote, que tentava se libertar das amarras que o prendiam ao ambiente opressivo, puderam ser registradas em imagens fotográficas.

Turista diante de elefantes cativos no Parque Nong Nooch, na Tailândia. Foto: Laerte Levai

Eis que começa o espetáculo The Elephants Show, com quatro sessões diárias. Ali os animais continuam estimulados com bananas distribuídas pela plateia e demonstram habilidades inimagináveis. Na arena é possível ver elefantes atirando setas ao alvo, se arriscando no futebol, basquete e boliche, alguns com grande precisão no direcionamento da bola. Em seguida vem o momento da pintura artística, quando três ou quatro animais ficam postados diante de telas com camisetas em branco e, manipulando tintas com a tromba, desenham imagens que serão oferecidas à venda para o público. As fotografias sequenciais captadas pela reportagem, registrando ações antropomórficas dos elefantes no show do parque Nong Nooch Tropical Garden, falam por si. Elas não conseguem esconder uma rotina abusiva:  

Teatro de Elefantes do Nong Nooch Tropical Garden, Tailândia. Foto: Laerte Levai

Teatro de Elefantes do Nong Nooch Tropical Garden, Tailândia. Foto: Laerte Levai

Teatro de Elefantes do Nong Nooch Tropical Garden, Tailândia. Foto: Laerte Levai

Por mais esforço que se faça, é difícil acreditar que os animais utilizados pelo turismo no Sudeste Asiático não tenham sido submetidos a uma doma rigorosa para cumprir tarefas laborativas ou circenses que, se estivessem em vida livre, jamais fariam. Sabe-se que elefantes do setor turístico, quando filhotes, passam pelo rigor do método denominado “phajaan”. Amarrados em troncos, os animaizinhos sofrem esmagamento para sentir dor nos ossos e vivenciam longas privações alimentares, até que comecem a obedecer ao comando do domador. É aí que eles aprendem aquilo tudo que terão de fazer nas exibições públicas que tanto atraem os turistas, a começar pelas atividades interativas que rendem muitas selfies e postagens em redes sociais.

O elefante asiático, encontrado nas florestas da Tailândia, Laos, Camboja, Vietnã e Mianmar, sofre diversos tipos de violência. Há caçadores que matam os machos para retirar suas presas (marfim), produto de alto valor econômico no mercado clandestino. Outros aprisionam os filhotes com o intuito de vendê-los a empreendedores do setor turístico. Também há muitos casos de animais atingidos em minas terrestres pela denotação do explosivo soviético PMN-2, sobretudo nas áreas do recente conflito entre Tailândia e Camboja, sofrendo ferimentos graves ou irreversíveis. Alguns desses animais sobreviventes, embora lesionados, vivem hoje em Centros de Reabilitação da Vida Selvagem ou em alguns santuários éticos mantidos no Sudeste Asiático com a subvenção de entidades protetoras internacionais.

É importante enfatizar a necessidade de o turista adquirir consciência de que os elefantes não devem ser explorados, porque isso gera o permanente círculo vicioso da crueldade. Afora o dever legal de o Estado coibir a caça e o tráfico, há o dever moral de as pessoas se recusarem a prestigiar empreendimentos que desenvolvam atividades interativas como montaria ou quaisquer outras anômalas à natureza animal. Melhor optar por visitar santuários éticos que não promovem contato direto com os elefantes, mas tão somente a observação à distância. O próprio turista pode ajudar muito se recusar-se a montar ou assistir a shows com elefantes, se não adquirir produtos feitos com marfim e, ainda, se apoiar santuários verdadeiramente éticos. 

A TRISTE SINA DOS TIGRES TRISTES

Tigre asiático acorrentado aguarda turistas para fotografia. Pattaya, Tailândia. Foto: Laerte Levai

Em 2016, a partir de fatos constantes em matéria jornalística publicada pela National Geographic, autoridades tailandesas apreenderam 147 tigres asiáticos mantidos irregularmente por monges budistas no Templo dos Tigres, que ficava na província de Kanchanaburi. Neste local os animais serviam como atração turística que permitia toques no corpo, alimentação dos filhotes com mamadeira e até caminhadas monitoradas ao lado dos felinos adultos. Os tigres disponibilizados para os registros fotográficos, segundo relato de pessoas que visitaram o local antes da denúncia, aparentavam estado letárgico, como se estivessem dopados. Apesar das críticas, o templo funcionava normalmente em razão do grande afluxo de turistas.

Sucede que mais da metade dos animais resgatados foi acometida de um vírus letal e isso motivou a ação do Departamento de Parques Nacionais e Conservação da Fauna e Flora da Tailândia. A necrópsia realizada nos felinos indicou que um vírus lhes comprometeu o sistema respiratório, somando-se a um surto de cinomose canina. A ONG australiana Cee4life, a partir de pesquisa de campo que já vinha sendo realizada por Sybelle Foxcroft, indicou evidências de que o templo administrado pelos monges estaria envolvido com o tráfico, recebendo animais capturados no Laos e utilizando-os em procedimentos de reprodução forçada. A investigação do governo também encontrou no local 40 corpos de tigrinhos em um freezer. O Templo dos Tigres acabou enfim sendo fechado.

Coincidência ou não, o fato é que em fevereiro deste ano o Jus Animalis preparava-se para visitar, na província de Chiang Mai, o famoso parque zoológico Tiger Kingdom. Ocorre que o estabelecimento estava interditado porque uma misteriosa doença acabara de matar 72 tigres em curto espaço de tempo. Cogitou-se a princípio da hipótese de transmissão de gripe aviária advinda da carne de frango fornecida aos felinos. Mas o Departamento de Pecuária da província, após realizar exames laboratoriais nos corpos, constatou a presença do vírus da cinomose canina e de bactérias que afetam o sistema respiratório. Diagnóstico muito semelhante àquele obtido no Templo dos Tigres, sugerindo que o contato direto dos animais com seres humanos pode acarretar a transmissão de moléstias inimagináveis.    

O escândalo do Templo dos Tigres e a recente tragédia do Tiger Kingdon revelam o lado oculto do entretenimento com animais. Apesar disso, a Tailândia ainda insiste no uso interativo dos felinos em parques temáticos devidamente licenciados, desde que os animais tenham origem legal e a segurança dos turistas, do tratador e do público sejam asseguradas. A reportagem decidiu visitar um estabelecimento semelhante situado em Pattaya e viu de perto que os dois felinos disponibilizados para interação – um tigre asiático e outro siberiano - permaneciam deitados sobre uma bancada de pedra, presos por grossa corrente de ferro no pescoço. Quando entrava alguém no recinto o tratador cutucava o animal com uma vara, fazendo-o levantar a cabeça. Nisso a pessoa sentava-se atrás do tigre e ali permanecia pelo tempo necessário à obtenção de fotografias.

Tigre siberiano com turista e o tratador munido de bastão. Pattaya, Tailândia. Foto: Laerte Levai

Nas jaulas chama a atenção o espaço reduzido que os tigres cativos têm para exercer seus movimentos naturais, o que explica o comportamento estereotipado que eles apresentam em zoos ou parques temáticos, às vezes andando em círculos, outras vezes mordendo o próprio rabo. O tigre siberiano em liberdade, por exemplo, necessita de amplo território para deslocamento vital, mas em cativeiro permanece confinado em espaço restrito. Outra violência aos animais, que acontece com frequência, é a prematura separação da mãe dos filhotes para que estes possam interagir com pessoas, quando se sabe que na floresta a tigresa somente se aparta da cria após dois anos de convívio. Estima-se que, apenas na Tailândia, haja 1500 tigres submetidos à indústria turística.   

Não se pode esquecer que a diminuição do habitat fragiliza os tigres selvagens. Sem alimento, eles invadem as fazendas produtivas em busca de comida e são abatidos a tiro. Além do tigre-da-indochina, proveniente das florestas do Sudeste Asiático (Tailândia, Myanmar, Laos, Camboja e Vietnã), há na região outras duas espécies criticamente ameaçadas de extinção: o tigre-malaio (da Malásia) e o tigre-da-sumatra (da Indonésia), vítimas das quadrilhas de caçadores. A perseguição e matança ilegal desses animais na Ásia, perpetradas por grupos criminosos organizados, tem por finalidade atender à demanda do mercado clandestino que se interessa por sua pele, crânio, dentes e garras. Os filhotes interessam para a reprodução comercial ou para a atividade turística, após a confecção de falsa documentação comprobatória de origem.

Por que a Tailândia, detentora de Lei de Prevenção da Crueldade e Bem-Estar Animal e adepta da CITES, ainda autoriza a exploração turística dos tigres e não faz o suficiente para coibir o tráfico que vem pelas fronteiras? A resposta talvez esteja no próprio governo, haja vista que no período de 2001 a 2006 o então primeiro-ministro Thaksin Shinawatra aprovou o sistema de exibição interativa de animais selvagens, possibilitando ao público contato direto com elefantes e tigres em situação de cativeiro. Tal decisão permanece válida até hoje e acabou legalizando, no país, práticas similares àquelas que animais exóticos realizam nos espetáculos circenses. Os parques ou refúgios de vida silvestre, nesse contexto adverso, surgem como a melhor opção para acolhimento dos felinos vítimas da violência ou da exploração.

ESCOLA DE MACACOS E TRABALHO ESCRAVO ANIMAL

Um dos pontos turísticos que até alguns anos atrás havia na Tailândia, em Phuket, era a Monkey School, que apresentava aos visitantes exibições bizarras com macacos adestrados. As atrações tinham natureza hostil, nos moldes de shows que já aconteciam na Coreia do Sul, com os animais vestindo roupas, andando em pé, pedalando bicicletas e imitando gestos humanos, onde participavam até mães com filhotes. Os primatas desempenhavam tarefas muito parecidas àquelas que acontecem na rotina dos circos, ou seja, ações comportamentais comuns ao ser humano e que passavam a ser “imitadas” pelos símios.  A Escola de Macacos tailandesa impressionou muita gente pelo grau de violência com que eram tratados os animais, que durante a interação com o público vinham presos com correntes no pescoço. Depois disso eles voltavam para suas gaiolas e ali permaneciam até a hora do novo espetáculo.

Vale ainda dizer que anos atrás uma influenciadora digital australiana esteve visitando o referido empreendimento turístico na Tailândia e postou nas redes sociais fotografia em que aparece, lacrimosa, segurando um macaquinho acorrentado, o que serviu para fomentar o debate sobre exploração animal. De fato, a postagem na internet ensejou um amplo debate a respeito do problema ético inerente a esse tipo de atração turística. Não tardou para que Suzanne Milthorpe, diretora de campanhas da Proteção Animal Mundial, viesse a público alertar que a indústria da crueldade movida pelo entretenimento pode ser barrada a partir da conscientização das pessoas.

Outra modalidade de treinamento de primatas na Tailândia envolve o macaco-de-cauda-de-porco, que apesar de estar listado no Anexo II da CITES, é explorado pela indústria de cocos. A prática, constatada na província de Surat Thani, consiste em condicionar os animais, desde pequenos, a trabalhar presos em cordas, subindo em coqueiros para apanhar cocos maduros. Essa atividade laborativa com animais em árvores de até 30 metros de altura leva muitas horas e, certamente, estressa os macacos, que têm medo de desobedecer aos comandos verbais do homem que o prende na corda. Quando não estão retirando cocos os símios permanecem em cativeiro, acorrentados no povoado rural daqueles que o exploram.  

A prática causou indignação a organizações animalistas da Ásia, dentre elas a People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) e Wildlife Friends Foundation Thailand, que denunciaram publicamente os abusos. Isso levou Mike White, autor da série The White Lotus, a contatar com a primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra White, solicitando a ela o fim dos abusos animais da indústria de cocos. A intervenção surtiu efeito, porque a Escola de Macacos, em termos turísticos, foi oficialmente encerrada. Acontece que em alguns povoados no sul do país, a atividade laborativa com os primatas ainda ocorre, sob a justificativa de que se trata de tradição cultural rural.

  Primata escravizado na coleta de cocos em aldeia da Tailândia. Foto divulgação: Cruelty-Free Kitty

A PETA Ásia insistiu na proibição total da atividade e avançou, com seu empenho, na proposta de boicote internacional às marcas de coco tailandesas que não tivessem a certificação “Monkey-free coconut”. Algumas empresas do país já inseriram, na embalagem de seus produtos, a expressão alusiva à não-exploração de macacos. Espera-se que em breve as comunidades extrativistas que se utilizam dos primatas na apanha de coco, deixem de fazê-lo, até porque a Tailândia possui legislação hábil a impedir tais práticas abusivas. A ativista Abigail Forsyth, da PETA-Ásia, falou um pouco disso ao JusAnimalis:

“Denunciamos que macacos na Tailândia são capturados ilegalmente na natureza, treinados em cruéis ´escolas de macacos´ e forçados a uma vida inteira colhendo cocos para a indústria de leite de coco no país. Convencemos grandes empresas a encerrar parcerias com atrações que exploram animais de forma desumana. Como afirma o lema da PETA, os animais não são nossos para serem usados como entretenimento, e cada vez mais pessoas estão reconhecendo os animais como indivíduos vivos e sencientes que são. A educação é fundamental para ajudar a sociedade a eliminar os abusos contra os animais”. 

E pensar que em Bangkok, duas décadas antes, o parque Safári Word apresentava ao público pagante lutas de boxe entre orangotangos, espetáculo que apenas terminava quando um dos animais caísse nocauteado no ringue. Ainda pior foi saber que os primatas eram capturados nas florestas da Indonésia e contrabandeados para a capital da Tailândia, onde sofriam treinamento cruel antes de ser aprovados como lutadores. Embora a orangotango-de-Bornéu e o orangotango-de-Sumatra sejam considerados animais em perigo de extinção, conforme classificação da União Internacional para a Conservação da Natureza-IUCN, o fato é que tais espécies eram arrancadas de seu habitat para atender a interesses inescrupulosos da indústria do entretenimento. 

 Orangotangos em ringue de boxe em Bangkok, Tailândia. Foto reproduzida: Olhar Animal, 2017

URSOS EM SOFRIMENTO NAS FAZENDAS DE BILE

O Vietnã é considerado um dos países que detém a maior biodiversidade do continente asiático. Dentre as espécies ameaçadas que habitam seu território pode-se mencionar o elefante, o rinoceronte-de-Java e o tigre-da-Indochina. Outro animal encontrado em suas florestas tropicais é o urso-negro-asiático, de pelagem preta com peito branco. Tamanha variedade de espécies raras levou o governo vietnamita a criar importantes áreas de conservação, dentre elas o Parque Nacional de Phong Nha-Ké Bàng, o Parque Nacional de Cát Tiên e o Parque Nacional de Cuc Phuong, que abrigam uma vasta diversidade de aves, répteis e mamíferos. No país também atuam organizações sérias como a Word Wildlife Fund-WWF, a Education for Nature Vietnam-ENV e a Save Vietnam´s Wildlife, que se propõem a defender os direitos animais.

Acontece que um dos piores casos de crueldade a animais ainda ocorre no Vietnã. Trata-se da captura e aprisionamento de ursos-negros para servir a medicina tradicional asiática. A bile, líquido produzido no fígado dos animais e que ajuda na digestão dos alimentos, é produto de grande interesse na China e países vizinhos, destinando-se ao tratamento de hematomas, doenças oculares, digestórias e outras tantas. Embora a eficácia do líquido biliar do urso em seres humanos seja algo muito questionável do ponto de vista científico, sabido que há alternativas fitoterápicas e sintéticas eficazes, o fato é que existe mercado para esse produto. Havendo demanda, a captura e exploração clandestina de ursos em áreas rurais do Vietnã ainda continua.

Urso negro preso para extração de bile, Vietnã. Foto reproduzida: Proteção Animal Mundial, 2021

Somente no Vietnã, onde o problema ocorre com mais frequência, ainda há mais de uma centena de ursos cativos em fazendas de extração de bile. Nesses locais eles permanecem confinados em jaulas, para retirada periódica de bile da vesícula biliar, o que se dá por meio de um procedimento invasivo traumático e muito doloroso para os animais. Além do Vietnã, a prática cruel escusa acontece no Laos, no Camboja, em Myanmar e em algumas localidades da Malásia e da Indonésia. E a espécie mais visada pelos caçadores é justamente o urso-negro-asiático. Se o animal é abatido durante a caça, partes de seu corpo são oferecidas no mercado clandestino. Quando capturada a mãe, os filhotes costumam ser vendidos como pets exóticos.

Enquanto a Tailândia vem avançando na legislação florestal e faunística, tanto que estabelece como crime “manter, comercializar ou explorar ursos sem autorização” (Wildlife Preservation and Protection Act), o Vietnã é considerado a principal rota do tráfico de animais na Ásia. Vale dizer que parte de suas províncias ainda possuem fazendas com ursos cativos para extração de bile. O governo vietnamita, apesar de a atividade de posse, venda e consumo de bile de urso se tornar considerada conduta ilícita a partir de 2005, precisa insistir nas medidas necessárias ao socorro dos animais que ainda permanecem cativos em jaulas insalubres.

O Vietnã é adepto da CITES e, em razão disso, assumiu o dever de combate a ações delituosas contra espécies em risco de extinção. Desde 2008 o país possui uma Lei da Biodiversidade e proíbe o comércio de espécies ameaçadas, dentre elas o urso explorado nas fazendas extrativas de bile. Em agosto de 2023 uma ação conjunta entre o Departamento de Proteção Florestal do Vietnã e a Proteção Animal Mundial logrou resgatar dois ursos que viviam presos em fazenda para extração de líquido biliar, na província de Binh Duong. Bonnie e Clyde, mantidos em cativeiro durante 25 anos, foram transferidos para o Centro de Resgate de Ursos do Vietnã, que é administrado pela Animals Asia Foundation.        

Entrevistada pelo JusAnimalis, Rebecca Keeble - estrategista de Campanhas da Vida Selvagem (internacional) da World Animal Protection - disse que a exploração de ursos em cativeiro para extração de bile é um dos piores exemplos de crueldade contra animais no mundo: “Os ursos são mantidos em condições terríveis e forçados a passar por extrações de bile extremamente dolorosas. Todas as técnicas utilizadas causam dor e sofrimento aos animais. Complicações decorrentes desses procedimentos incluem abscessos dolorosos, inflamação crônica da vesícula, cálculos biliares e ulcerações. Esse sofrimento físico e mental intenso pode durar anos — alguns ursos suportam essa tortura por décadas”.

Segundo ela, a World Animal Protection trabalha em sintonia com as autoridades locais e, acompanhada pela ONG Education for Nature Vietnam, tem desempenhado um papel fundamental na identificação e confisco de ursos ilegais mantidos no país em cativeiro, conseguindo muitas vezes convencer os possuidores a entregá-los voluntariamente. Indagada sobre as estratégias que adota para o melhor enfrentamento desse grave problema encontrado no Vietnã e quais os avanços obtidos no ativismo pelos animais, Rebecca faz uma descrição detalhada:

A organização World Animal Protection tem feito campanhas para acabar com a exploração da bile de ursos por mais de duas décadas, utilizando estratégias de advocacia direcionada, pesquisas científicas e mobilização pública. O objetivo é engajar diferentes partes interessadas — incluindo governos, proprietários de fazendas de ursos, empresas, o público e praticantes de medicina tradicional — para que adotem práticas médicas que não envolvam a exploração da vida selvagem. Avanços significativos foram alcançados na Coreia do Sul e no Vietnã. Ambos os países proibiram a prática — o Vietnã em 2005, e a Coreia do Sul aprovou uma lei em 2025 que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026. Com o fim quase completo da indústria nesses dois países, a China pode ser o último país onde essa prática ainda é legal. O programa de monitoramento foi essencial para que o Vietnã avançasse rumo ao fim dessa atividade. Desde 2006, em colaboração com autoridades, foram fornecidos equipamentos e treinamento para a implantação de microchips nos ursos”.

Sabe-se que vinte anos atrás, logo depois que o governo vietnamita proibiu a criação de ursos para extração de bile, milhares de animais ainda estavam confinados nas fazendas e o risco da atividade clandestina com eles era algo real, haja vista que continuou a ocorrer no país. Diante dessa situação e da superveniência da técnica da microchipagem, a reportagem indagou a Rebecca Keeble de que maneira a tecnologia mais avançada ajudou na luta ativista, obtendo dela um relato minucioso:

“Em 2015, após a implantação dos microchips, iniciou-se um amplo programa de inspeção das fazendas. Graças a esse monitoramento, ursos identificados sem microchip ou sem documentação — considerados ilegais — são confiscados e transferidos para centros de resgate administrados pelo governo ou por organizações como Four Paws, Free the Bears e Animals Asia Foundation. Após pressão da World Animal Protection e de outras ONGs, o governo vietnamita proibiu a criação de ursos para extração de bile em 2005. Na época, cerca de 4.300 ursos estavam em fazendas. Todos precisaram ser registrados e microchipados para impedir a entrada de novos animais, e a extração de bile tornou-se ilegal. No entanto, ainda é permitido manter ursos em cativeiro, o que significa que o risco de extração ilegal de bile continua existindo de forma clandestina. O programa de monitoramento tem sido um elemento fundamental no avanço rumo ao fim dessa prática”.

A respeito de como está a situação atual dos ursos no Sudeste Asiático, Rebecca Keeble conclui:

“Atualmente, há mais ursos em santuários e centros de resgate do que em fazendas, e o Vietnã está muito próximo de encerrar essa indústria. Até outubro de 2024, o número de ursos em fazendas caiu quase 96% em relação a 2005. Em dezembro de 2025, restavam 147 ursos em fazendas de bile em todo o país — mais da metade deles em Hanói. Os esforços atuais concentram-se nas últimas fazendas restantes. Por meio de um Memorando de Entendimento (MoU), as equipes trabalham diretamente com o Departamento de Proteção Florestal para realizar inspeções, verificar microchips, confirmar registros e identificar sinais de atividades ilegais, como ausência de documentação ou evidências de extração de bile. Quando irregularidades são encontradas, as autoridades, em conjunto com ONGs, confiscam os animais e os transferem para santuários”.

Em data mais recente, ainda no Vietnã, outra iniciativa privada veio em socorro aos ursos. A organização de bem-estar animal Four Paws inaugurou seu Santuário de Ursos com 10 hectares na província de Nihh Binh, garantindo ali espaço para até uma centena de animais vítimas de maus-tratos. O local, que dispõe de recintos externos dotados de esconderijos, árvores, rochas e lago para os animais, já está aberto ao público e permite visitação. A entidade internacional, que se propõe a atuar como centro educacional voltado a promover a conscientização e a conservação das espécies, conta com clínica veterinária, estação de quarentena e abrigos para os ursos resgatados.

PANGOLINS, CALAUS, CROCODILOS E OUTRAS VÍTIMAS

Indonésia, Malásia, Camboja, Laos e Vietnã são países asiáticos que abrigam várias espécies selvagens em perigo de extinção, as quais são subjugadas, perseguidas ou mortas por razões econômicas, culturais, medicinais ou alimentares. Sem se importar com a existência de leis ambientais e de tratados internacionais de proteção a fauna, caçadores furtivos e mesmo trabalhadores rurais adentram nas florestas do Sudeste Asiático com o propósito de apanhar animais e deles extrair partes do corpo que podem ser muito valorizados no mercado clandestino, como escamas, pele, órgãos, casco ou a carne. Em meio à extensa lista de vítimas estão pangolins, calaus e crocodilos.

O pangolim é um mamífero asiático cujo corpo é coberto de escamas e, quando ameaçado, se enrola para tentar se proteger.  Não há como esquecer que, na época da pandemia Covid-19, surgiu a hipótese de que ele seria um dos prováveis hospedeiros do vírus SARS-CoV-2 na sua transmissão para o ser humano, conforme dados referentes ao que aconteceu na província chinesa de Wuhan. Mesmo que depois da pandemia a Ásia tenha aumentado a fiscalização nos mercados de animais vivos, a caça do pangolim continuou ocorrendo e isso o levou à classificação, pela União Internacional para a Conservação da Natureza-IUCN, como espécie “Criticamente em Perigo”.

No Sudeste Asiático, sobretudo na Malásia, no Vietnã e no arquipélago da Indonésia, o problema do tráfico ilegal de pangolins é grave. A região, igualmente afetada pelo desmatamento voltado à abertura de áreas para o plantio de palma (destinada ao preparo de azeite) e à expansão urbana (que reduz o habitat dos animais selvagens), abriga o pangolim-da-Sunda e o pangolim-chinês, ambos em risco de extinção. A população desse animal reduziu 80% se comparada ao montante que havia no século 20, tanto que em algumas regiões do sul da Ásia o pangolim já não é mais encontrado. O interesse maior em sua captura está na carne e nas escamas, estas consideradas produto afrodisíaco de grande valor no mercado clandestino.

Pangolim, animal considerado dos mais caçados no mundo. Foto reproduzida: Olhar Animal, 2025

Ainda que o pangolim seja uma das principais vítimas da caça, esforços de conservação vêm sendo feitos em sua defesa. Vale lembrar que os países do Sudeste Asiático, de  modo geral, são adeptos da CITES. Mas para que o problema seja adequadamente enfrentado há necessidade de cooperação global no combate às redes criminosas que atuam na caça, com o aumento de operações especializadas contra o tráfico. É preciso, também, que os governos apoiem a criação de Centros de Resgate e Reabilitação de animais, na expectativa de tratá-los e, se possível, devolvê-los à natureza. Por fim, campanhas de conscientização pública junto às comunidades locais, países circundantes e turistas são extremamente bem-vindas.

Outra espécie em risco nas florestas da Indonésia, Malásia, Myanmar e do sul da Tailândia é o pássaro calau-de-capacete, que também foi considerado pela IUCN como “criticamente em perigo de extinção” e incluído no Anexo I da CITES. O fato de possuir no topo do bico multicolorido uma estrutura óssea rígida (casco), despertando grande interesse ao artesanato, faz com que ave seja largamente caçada nas matas do sul asiático. Isso provocou uma significativa redução da densidade populacional da espécie, tanto que em algumas regiões da Ásia ela não é mais sequer encontrada. Em território tailandês, entretanto, os poucos calaus que ali vivem estão em zoos ou habitam algumas reservas florestais protegidas. 

Pássaro que atrai caçadores, o calau asiático está em extinção. Foto reproduzida: GreenMe!, 2024

Há quem diga que, no mercado clandestino, o “casco-capacete” do calau se equipara – em termos monetários – ao valor cobrado pelo marfim do elefante. Isso explica por que a espécie tem sido tão perseguida e abatida pelos caçadores. Ainda que as peças coletadas possam ser encontradas em feiras urbanas ou mercados físicos no próprio país da captura, a comercialização da carapuça extraída da ave decapitada, em regra, é feita pela internet no sistema de venda on-line, com o envio postal da mercadoria ilícita. Isso também acontece em relação a pequenos répteis, aracnídeos, insetos ou partes extraídas do corpo de grandes felinos, sobretudo ossos, dentes e pele.

Nas Filipinas, país de grande biodiversidade e composto de ilhas a perder de vista, os animais endêmicos também sofrem com a ação humana. Os mesmos problemas socioambientais que afligem seus vizinhos do oeste ocorrem no arquipélago malaio de 112 milhões de habitantes, onde é comum a superveniência de tufões devastadores que atingem os ecossistemas naturais. Muitas espécies animais nativas ali vivem acuadas, dentre elas o pequeno primata társio-das-filipinas, a raríssima águia-das-filipinas e o búfalo selvagem da Ilha de Mindoro. Outro animal criticamente ameaçado de extinção, no país, é o crocodilo-filipino. Em razão da perda do habitat e da caça esse réptil de água doce pode ser encontrado apenas numa região isolada do arquipélago.

Ele é considerado o crocodilo mais ameaçado do mundo, o que se deve aos índices de matança pela caça e, também, à pesca insustentável praticada com o uso de explosivos. A população estimada, uma década atrás, não excedia uma centena de indivíduos, o que ensejou esforços conservacionistas do governo pela edição de lei proibitiva da sua caça. Paralelamente a isso, a Fundação Mabuwaya iniciou projeto comunitário objetivando a proteção dos crocodilos e dos pântanos existentes na Ilha Luzon, assegurando a preservação de seu habitat. Espera-se que o trabalho de conscientização popular ajude na solução do problema, eis que os crocodilos-filipinos ainda estão em situação de vulnerabilidade perante os seres humanos.

Ao contrário do que acontece nas Filipinas, os crocodilos da Tailândia não estão em risco de extinção, mas sofrem com a exploração turística. Estamos nos referindo ao crocodilo-siamês, característico por sua coloração cinza-esverdeada e que possui faixas escuras no corpo. Esses répteis encontrados em lagos e áreas alagadiças no país podem alcançar até 4 metros de comprimento. Milhares deles hoje vivem distribuídos em zoos e parques temáticos abertos à visitação turística. Em alguns destes locais autorizados, os visitantes podem interagir à distância com os bichos, a ponto de alimentá-los com uma vara em cuja extremidade é pendurada o corpo de um galináceo. Os répteis saltam da lagoa e abocanham a carne, em movimentos bruscos capazes de assustar a plateia posicionada no platô de observação.   

Espetáculos assim podem ser vistos no parque temático Crocodile Farm, na Tailândia, onde a atração principal acontece de hora em hora em uma piscina repleta de crocodilos. Em dado momento o tratador adentra no recinto e puxa os animais pela cauda, trazendo dois deles à plataforma dos espetáculos. Um dos crocodilos permanece com a mandíbula aberta o tempo todo, enquanto o domador se aproxima a ponto de colocar a cabeça dentro da boca do animal, permanecendo ali alguns segundos sem ser mordido. O show anunciado ao som da trilha sonora do filme Indiana Jones se repete várias vezes e em alto volume, impactando não apenas os crocodilos utilizados como também as girafas que habitam o recinto ao lado.

Crocodilo de parque temático diante do domador. Crocodile Farm, Tailândia. Foto: Laerte Levai

No mesmo parque temático os visitantes podem olhar outros bichos cativos em suas jaulas, passear sobre elefantes ou tirar selfies com tigres acorrentados, tudo no velho estilo que prioriza a interação do homem-turista-dominante com o animal-fera-dominado. E assim o dia transcorre, repleto de sobressaltos e espantos, até o horário do almoço no próprio restaurante do parque. O prato mais pedido do cardápio, segundo constatou a reportagem, é carne de crocodilo. Nada de se estranhar diante do que se viu ali. Em Bangkok e noutras cidades turísticas tailandesas, como Pattaya e Krabi, os crocodilos se tornam gastronomia exótica que chama a atenção nas praças de alimentação. Estamos falando do Nuea Jorake Yang, onde os animais cozinhados por inteiro no rolete, exceto pela cabeça que não é consumida, não têm mais que um metro de comprimento. São filhotes.

Carne de crocodilo servida em banquinhas de rua em Bangkok e Pattaya, Tailândia. Foto: Laerte Levai

MYANMAR, O EPICENTRO DO TRÁFICO NA ÁSIA

Myanmar, denominação atual da antiga Birmânia, possui em seu território muitas espécies animais raras que são protegidas pela CITES e pela Convenção da Diversidade Biológica. Quase 45% da superfície territorial de Myanmar ainda têm sua cobertura vegetal preservada, além de contar com extensas áreas agrícolas destinadas ao plantio de arroz e o turismo em ascensão. O país de mais de 14 milhões de habitantes não é urbanizado e a maior parcela de seus habitantes vive no meio rural, em pequenos vilarejos, embora cidades como Yangon e de Mandalay sejam populosas, superando 1,5 milhão de pessoas. Sucede que, ironicamente, o país de tanta biodiversidade é considerado região em que o tráfico de animais é intenso, perverso e quase impune.

O golpe militar de 2021 agravou a crise de direitos humanos que já vinha transcorrendo em Myanmar, com aumento da pobreza e violência generalizada.  Mais de 1600 indivíduos foram mortos durante o conflito e meio milhão de pessoas forçadas a abandonar suas casas. Após as 22 horas há o toque de recolher e quem estiver na rua pode ser detido. Em meio à crise econômica que se instalou no país, as pessoas não hesitam em fazer qualquer coisa para melhorar sua condição de vida. Essa fragilidade social o enfraqueceu demasiadamente, tanto que na região que faz fronteira com a Tailândia quadrilhas especializadas montaram uma cidade-escritório que atua com fraudes on-line. No local, jovens em regime de trabalho escravo são obrigados a aplicar golpes virtuais com criptomoedas, a serviço de redes criminosas globais, trabalhando sob ameaças e torturas psicológicas

Não há dúvida de que esse quadro político-social desfavorável influencia o destino dos animais selvagens que vivem nas florestas tropicais de Myanmar, ora em constante perigo diante da ação organizada de caçadores. Províncias como Mong La e Tachilek, com seus mercados abertos e vendas na rua, são lugares onde o comércio ilícito de espécies vivas ou pedaços de seus corpos ocorre impunemente. Dentre as espécies traficadas há macacos, pangolins, calaus, gibões, tartarugas e leopardos. Existe uma demanda crescente por subprodutos de espécies que interessam à medicina tradicional, ao artesanato, ao consumo de carne exótica ou simplesmente como símbolo status e poder. A instabilidade do país trouxe lacunas nas leis ambientais e enfraqueceu a própria fiscalização em fronteiras. Basta dizer que Mong La, que fica próxima à província chinesa de Yunnan, tornou-se o epicentro do tráfico de animais no Sudeste Asiático.

Feira aberta com partes de animais. Mong La, Myanmar, 2016. TERRAIN.org. Foto de Naomi Hellmann

O JusAnimalis planejava entrar nesse território sinistro, que fica entre o norte da Tailândia e o sul da China, mas foi desaconselhado por questões de segurança. É que na região, ao que se comenta, atua um grupo armado ligado à máfia chinesa, que não tolera a presença de gente estranha e muito menos jornalistas investigativos. Sabe-se que em Mong La, cujo idioma nativo é o birmanês, fala-se chinês, a moeda corrente é chinesa e a cultura, de modo geral, é voltada toda ela aos valores da China continental. Enquanto nos aeroportos o governo de Myanmar praticamente interroga os turistas que tentam ingressar no país, cidadãos chineses, para chegar a Mong La, atravessam a fronteira sem qualquer controle estatal. Não é difícil imaginar as facilidades na distribuição de animais caçados em Myanmar, ou de partes de seus corpos, para o território chinês.

Evitando o risco de adentrar em Myanmar com destino a Mong La, nossa reportagem preferiu recorrer a um trabalho de campo realizado em 2016 pela pesquisadora Naomi Hellmann (artigo denominado Wildlife Trafficking in MongLa), que na época ali esteve e documentou o tráfico de animais a céu aberto e diante dos próprios vendedores ambulantes que  expunham, sem qualquer receio, filhotes de tigre recém-abatidos, chaveiros com mãos de macaco, peles arrancadas de pangolins, dentre outras cenas de horror explícito. O texto de Naomi, publicado no site da Terrain.org, revelou fatos escabrosos que ainda costumam ocorrer numa área controlada por milícias armadas que protegem os traficantes de animais. Sinal de que há corrupção em Mong La e ausência de ações de Myanmar para restabelecer sua autonomia.

Afora o impacto ambiental que a caça ilegal acarreta ao país, com perdas significativas ao equilíbrio dos ecossistemas, as espécies caçadas – sejam elas aves, mamíferos ou répteis - têm uma morte terrível, onde a ambição humana em lucrar com sua pele, seus crânios, seus chifres, seus dentes, suas unhas, seus ossos, suas escamas, suas penas ou sua carne pode ser traduzida como barbárie. Muitos animais são abatidos e retalhados no próprio local da feira, diante dos olhos de transeuntes. Não há como tolerar tamanha crueldade quando o país em que isso acontece é subscritor da CITES e do Tratado de Convenção Biológica. Se medidas existem para impedir esse estado de coisas, elas devem ser voltadas à efetiva fiscalização de fronteiras, na repressão aos traficantes, na punição dos contrabandistas ou receptadores e na aplicação rigorosa das leis internacionais de proteção à vida selvagem

Naomi Hellmann, que há 10 anos registrou as imagens ora reproduzidas pelo JusAnimalis, contribui assim para denunciar crimes que jamais deveriam ocorrer hoje. Mas que ainda acontecem e, pior, continuam impunes. Nas lentes de Naomi é possível identificar pequenos felinos, pangolins, lóris e outras espécies recém-abatidas, ensanguentadas em praça pública. Em data recente o Relatório Global sobre a Vida Selvagem, subscrito pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, mostrou que as estatísticas do tráfico de animais (que afeta mais de 4 mil espécies em todo o mundo), pouco diminuíram nas duas últimas décadas e isso requer medidas rigorosas das Nações. Para a ONU, é preciso que haja legislação mais forte para lidar com oferta e demanda, viabilizando ações anticorrupção e monitorando áreas críticas com presença policial mais efetiva. Isso tudo precisa ser aplicado a Myanmar e, sobretudo, a Mong La. Antes que seja tarde demais.

 Feira de rua com animais mortos. Mong La, Myanmar, 2016. TERRAIN.org. Foto de Naomi Hellmann

SUDESTE ASIÁTICO, PANORAMA JURÍDICO-ECOLÓGICO

Ao examinar a situação dos animais selvagens explorados em atividades turísticas no Sudeste Asiático, nossa reportagem focalizou países como Tailândia, Laos, Camboja, Vietnã, Myanmar, Malásia, Indonésia e Filipinas. Não é demasiado dizer que nas áreas rurais a cultura asiática de tradição ancestral aceita o consumo da chamada carne de caça (macaco, javali, pangolim etc.) e de répteis (crocodilos, cobras, lagartos etc.), assim como de aves e insetos, utilizando partes do corpo de algumas espécies na medicina tradicional e no artesanato. Ainda que a Tailândia tenha sido pioneira em aprovar legislação de vida selvagem e proibir práticas cruéis, os demais países limitam-se, em linhas gerais, a restringir a caça e o comércio de espécies ameaçadas com base na CITES.   

Os motivos que levam à subjugação ou ao abate dos animais na Ásia giram em torno de fatores comuns a quase todos os países envolvidos, ou seja, a diminuição dos espaços ambientalmente protegidos e o costume humano de subjugar ou destruir outras espécies. Tais fatores, somados, revelam falta de consciência ecológica e clamam por um agir com ética. Na Tailândia e no Laos, por exemplo, o elefante asiático foi um dos que mais sofreu com as perdas ambientais; no Vietnã, ursos e pangolins; na Indonésia, o tigre-de-Sumatra e o orangotango-de-Bornéu; na Malásia, o calau; no Camboja, o rinoceronte asiático; em Myanmar, todos os bichos que se movem. Isso também permitiu o uso de algumas espécies no turismo, seja este recreativo em zoos e parques de vida selvagem, seja no sistema interativo com elefantes, tigres, crocodilos e macacos.     

Na Tailândia a Lei de Prevenção da Crueldade e Bem-Estar dos Animais (B.E. 2557/2014) e a Lei de Proteção à Vida Selvagem (B.E. 2535/2019) trazem a falsa impressão de que os animais estão inteiramente protegidos, o que não é verdade. Aquela prioriza os animais domésticos, exigindo que tutores e responsáveis garantam a eles boas condições de vida, alimentação e saúde, vedando crueldade, negligência e transporte inadequado. Já o Ato B.E. 2535 regula a importação e exportação de animais selvagens e estabelece critérios para posse e criação de espécies protegidas, com regras para o licenciamento de zoológicos ou criadouros e permissão para exibição pública interativa. Na prática, com base em subterfúgios jurídicos, a legislação ainda permite o uso e a exploração dos animais.

O governo do primeiro-ministro Thaksin, no início deste século, possibilitou forte expansão do turismo, deu incentivo a parques temáticos, concedeu flexibilização administrativa para zoos privados e permitiu o crescimento dos shows em que há interação do público com animais, principalmente tigres e elefantes. Em resumo, o uso turístico destes animais é autorizado na Tailândia desde que haja a concessão de licenças administrativas pelo Departamento de Parques Nacionais, Vida Selvagem e Plantas-DNP. Apesar de a atualização da B.E. 2557, que em 2019 passou a distinguir animais protegidos e animais de conservação, as regras ficaram mais rígidas e até as penalidades aumentaram, mas isso ainda não tem impedido a exploração animal nas atividades turísticas.

Os demais países do Sudeste Asiático também são adeptos da CITES, tanto na permissão para importação e exportação de espécies listadas nos Anexos I, II e III da convenção internacional, como nos registros administrativos das espécies mantidas em cativeiro em zoos, parques temáticos ou posse doméstica. Desse modo, a autorização isolada de qualquer país em relação a determinado animal selvagem protegido pela lei de conservação da fauna não substitui as exigências internacionais. Em outras palavras, as Nações que fazem parte da Convenção não podem legislar contrariamente às suas diretrizes, sob pena de violação. Mas o tráfico que percorre todo o continente asiático é prova de que a CITES vem sendo continuamente desrespeitada.

No Vietnã, onde centenas de caçadores rurais montam armadilhas na mata e áreas alagadiças para a captura de pangolins, cobras, pássaros d´água e tartarugas, o crime corre solto. O país é rota de passagem para animais aprisionados que seguem para a China vindos do Laos e do Camboja; às vezes os bichos traficados chegam de barco, trazidos da Malásia e da Indonésia. A gastronomia do Vietnã também é repleta de carnes exóticas, tanto que um restaurante sofisticado de Ho Chi Minh anunciava animais silvestres ainda vivos, matando-os na frente dos fregueses para demonstrar que a comida era fresca. Isso acontecia abertamente, apesar de que vender espécies protegidas ou comercializar animais selvagens de qualquer tipo é crime no Vietnã.

No Laos a atualização do Código Penal, que se deu em 2018, incluiu um dispositivo que criminaliza maus-tratos a animais domesticados, incluindo aqueles usados no trabalho, estabelecendo penas de prisão ou multa. Em relação à vida selvagem o Laos segue o Wildlife and Aquatic Law, que regula a conservação das espécies nativas e o comércio ilegal, definindo penas que, na prática, enfrentam desafios para obter efetividade em razão de ausência de recursos materiais do governo, falta de pessoal capacitado e de fiscalização especializada, sobretudo no tráfico online. Apesar de o país ser subscritor da CITES e do esforço de organizações não-governamentais atuantes no país, a política pedagógica sobre a importância da proteção animal ainda se mostra incipiente.

Imagem ilustrativa com os países do Sudeste Asiático. Mapa geográfico. Brasilescola.uol.com.br

Já o Reino do Camboja, que estabelece penas pecuniárias por “maus-tratos e morte injustificada de animais domésticos ou em cativeiro”, afirma em relação às espécies nativas que “todo tipo de vida selvagem é propriedade do Estado”, e que “é estritamente proibido caçar, ferir ou assediar a vida selvagem ou caçar em épocas ou em zonas proibidas” (Lei Florestal, 2022). O país também veda, por decreto, “transações comerciais, transporte ou alimentação de animais selvagens sem autorização”, objetivando prevenir o comércio clandestino e a matança de espécies nativas. ONGs que atuam em defesa da fauna do Sudeste Asiático, entretanto, afirmam que no Camboja as leis de proteção animal também contêm lacunas de aplicação e reprimendas muito brandas, o que estimula o crime e gera impunidade.

Voltando ao caso específico dos elefantes usados em montaria e shows diversificados, na Tailândia, o estabelecimento que quiser obter licença de funcionamento deve comprovar a origem de cada animal, dispor de seu registro individual e cumprir as regras sanitárias e de manejo. Já os tigres são protegidos e listados no Anexo I da CITES, caso nascidos em cativeiro e tenham registro de origem, podendo ser mantidos sob licença, inclusive para exibição e contato com o público. Configura-se o crime apenas se o felino não tiver origem lícita comprovada. Quanto a animais dopados para permitir interação turística, há que se demonstrar que a inoculação intencional de drogas ocasiona maus-tratos ou sofrimento desnecessário no animal. O fato é que se um profissional veterinário fizer a sedação permitida, para que o felino permaneça dócil, fica difícil convencer as autoridades que os animais explorados sofrem crueldade.

Com essa pequena amostra é de se concluir que os países do Sudeste Asiático ainda caminham em busca de legislação mais eficaz de proteção e defesa da vida animal, cuja aplicação encontra dificuldades que não apenas de ordem técnica, mas nos mecanismos que permitem a exploração legitimada de espécies. Mesmo as leis que parecem eficazes, elas esbarram na fiscalização deficiente ou na corrupção sistêmica que estimula o tráfico de espécies silvestres. Foi triste nossa reportagem ver de perto que as fronteiras asiáticas porosas e a ação de receptadores e adquirentes de animais exóticos vivos (ou suas partes) somam-se a problemas socioculturais que afetam a população dos países mais pobres, favorecendo as práticas cruéis.

PARQUES DE VIDA SELVAGEM E CENTROS DE REABILITAÇÃO

Sob uma perspectiva mais ampla o Sudeste Asiático é formado por 11 países que somam, juntos, quase 700 milhões de habitantes. Além das nações tratadas nesta reportagem, pertencem à mesma região Singapura, Brunei e Timor Leste. Dotado de extensa área territorial (4,5 milhões de km2) e repleta de planaltos, florestas densas, pântanos e montanhas rochosas, seu espaço de biodiversidade tem sido bastante afetado nas últimas décadas. A redução do habitat de animais selvagens e o aumento dos índices de tráfico ilegal ensejam, em contrapartida, a busca por áreas florestais protegidas, onde as espécies resgatadas possam ser acolhidas, receber tratamento especializado e, eventualmente, voltar à natureza. Sucede que muitos animais apreendidos em poder dos caçadores ou aqueles sobreviventes encontrados com lesões graves ou irreversíveis necessitam de cuidados em centros de recuperação.

Em todos os países asiáticos há, em maior ou menor grau, políticas governamentais voltadas à gestão dos parques nacionais. Órgãos administrativos florestais exercem essa função e podem instituir áreas de preservação ambiental com propósitos conservacionistas, para neles abrigar animais em risco de extinção. No Vietnã, por exemplo, o governo possui o Parque Nacional de Phonh Nha-Kè Báng, que reúne uma grande variedade de espécies e é considerado patrimônio mundial da biodiversidade; o Parque Nacional de Cát Tiên, voltado para a conservação de símios e de elefantes; e, ainda, o Parque Nacional de Cuc Phuong, que possui um centro de resgate de primatas. Os ursos vão para o Centro de Resgate de Ursos do Vietnã. Já o Centro Cu Chi, administrado pela Wildlife at Risk, cuida de espécies ameaçadas como pangolins, gibbons e civetas.

Já em território tailandês, onde atua pedagogicamente a Wildlife Friends Foudation Thailand em favor de animais silvestres com vistas a seu bem-estar, a observação da vida selvagem pode ser feita em Parques Nacionais como Khao Yai e Khao Sok, assim como no parque Khap Kheow. Nas Filipinas, mais exatamente na reserva florestal de Kabili-Sepilok, em Sabah, funciona um centro para reabilitação de orangotangos, o Sepilok Orangutan Rehabilitation Centre.

No Camboja há o Phnom Tamao Wildlife Rescue Centre, área de 2 mil hectares que é referência por manter centenas de espécies resgatadas do tráfico e de cativeiro ilegal, como ursos, tigres, elefantes, gibbons, crocodilos e tantas outras. Na província de Preah Vihear fica uma das maiores reservas naturais de fauna do Sudeste Asiático, o santuário de vida selvagem Kulem Promtep Wildlife Sanctuary, com rica biodiversidade e muitas espécies endêmicas. O local, que é aberto a visitantes, não deixa de ser um autêntico centro de educação ambiental a céu aberto, capaz de mostrar na prática a importância da conservação e dos espaços protegidos imprescindíveis à sobrevivência das espécies.      

 Elefante selvagem caminha em estrada na Tailândia. Imagem Reproduzida:  National Geography 

Na Tailândia, o Departamento de Parques Nacionais, Vida Selvagem e Conservação de Plantas é vinculado ao Ministério de Recursos Naturais e Meio Ambiente. Dentre suas funções incluem-se o gerenciamento de parque nacionais, refúgios de vida selvagem e santuários, assim como a política de proteção de habitats naturais, a implementação de programas de conservação de espécies ameaçadas, o controle de caça, o turismo sustentável e a pesquisa científica. Esse trabalho envolve ações de fiscalização, elaboração de plano de manejo de fauna, educação ambiental e contatos comunitários com o entorno. Deve zelar, ainda, pelo cumprimento da Lei de Proteção à Vida Selvagem, adotando medidas contra crimes ambientais e tráfico de animais. Dentre as espécies ameaçadas protegidas pela lei incluem-se rinocerontes, búfalos selvagens e muitas aves e répteis. Nas proximidades de Chiang Mai já foram instaladas, em rodovias, placas para evitar atropelamento de elefantes.

Sinalização animal na rodovia que liga Bangkok a Chiang Mai, norte da Tailândia. Foto: Laerte Levai

A CITES, como instrumento norteador da política de proteção à fauna em todo o Sudeste Asiático, também estabelece diretrizes prévias ao uso de animais selvagens. Os países que fazem parte da Convenção devem combater o comércio internacional de espécies ameaçadas, exigindo permissão para a importação e exportação das espécies listadas nos Anexos I, II ou III e registros administrativos para aquelas que estão sendo mantidas em cativeiro. Mesmo obtendo licença do país originário, quem quiser importar, exportar ou transferir animais precisa de autorização específica da CITES, o que se aplica também na posse doméstica e nas atividades de exibição pública das espécies protegidas. Essa exigência internacional, se devidamente observada e cumprida, poderia evitar o comércio clandestino e a exploração ilícita de animais.

Para ajudar na fiscalização e oferecer apoio aos animais vítimas da exploração, muitas organizações não-governamentais e entidades internacionais vêm atuando no Sudeste Asiático. Podem ser citadas algumas: Wild Animal Rescue Network (conhecida como Warn Asia, uma rede regional de centro de resgate de animais selvagens); Freeland Foundation (combate ao tráfico ilegal), Wildlife Alliance (proteção de espécies ameaçadas); Word Animal Protection (ações contra o tráfico e o uso de animais em entretenimentos); Animals Asia (combate a exploração animal); Asia Wild (defesa de animais marinhos e terrestres), International Fund for Amimal Welfare (fundo para defesa dos animais selvagens); Mandai Nature (proteção de ecossistemas e espécies ameaçadas) e Word Wildlife Fund -WWF (apoio internacional e financeiro para a conservação da vida selvagem e habitats). E ainda há outras.

Apesar de muita gente defender a importância de zoológicos para a manutenção segura de animais que já não podem retornar à natureza e garantir, em contrapartida, a reprodução de espécies ameaçadas, não há como aceitar a ideia do cativeiro permanente com fins econômico-recreativos. Exibir animais selvagens aprisionados em jaulas nunca deixará de ser uma violência. Parques temáticos ou safaris de vida selvagem, onde os bichos permanecem submetidos a constante e ruidosa presença humana, não são adequados para os animais. Basta um dia de visita ao Zoo Safari Word de Bangkok, onde não faz muito tempo que um leão matou seu tratador, para concluir que a vida em cativeiro é sempre estressante e pode trazer consequências trágicas. A opção da semiliberdade aos animais, em alguns casos específicos, é sempre melhor. 

Como bom exemplo de iniciativa ética podemos citar o caso do elefantinho asiático Chhouk, que em 2007 foi encontrado gravemente ferido nas florestas do Camboja e depois precisou amputar a pata dianteira esquerda. O animal havia caído em uma armadilha de caçador e, após vagar sozinho pelo nordeste do país, acabou resgatado pelo diretor da Wildlife Alliance, Nick Marx, sendo levado para o centro de vida selvagem Phnom Tamao, no Camboja. O elefante, que hoje possui três metros de altura e quase quatro toneladas de peso, vive com uma prótese especialmente construída pela Cambodian Scholl of Prosthetics and Orthotics, conseguindo caminhar pela área protegida e exercer algumas atividades básicas, o que lhe permite viver com dignidade.

A ideia da acolhida, do tratamento e do esforço de recuperação ao elefante Chhouk, somado à atual rotina tranquila desse animal em um espaço de liberdade, traz algumas reflexões fundamentais que nunca devem ser esquecidas: o esforço pela proteção animal nunca é em vão e, apesar das dificuldades que surgem, precisa sempre prosseguir; os animais são seres sencientes e merecem ser respeitados em seus direitos fundamentais relacionados à existência digna e à integridade física respeitada; toda vida importa, independentemente da condição do animal que necessita de ajuda.          

Elefante Chhouk, no Camboja, caminhando com a prótese. Imagem reproduzida: Metrópoles, 2023

O PAPEL DOS SANTUÁRIOS ÉTICOS

Elefantes no Rio Mae Taeng, que passa no santuário Elephant Nature Park. Foto: Laerte Levai

Chiang Mai, situada em uma região montanhosa do norte da Tailândia, é o lugar mais procurado por aqueles que buscam exercer sua espiritualidade em majestosos templos budistas. A província, em termos turísticos, também costuma atrair visitantes interessados na vida selvagem, muitas vezes em atividades interativas com tigres e elefantes. Além dos santuários de elefantes os interessados procuram o zoo parque Tiger Kingdom, onde em fevereiro deste ano morreram 72 felinos em razão de uma infecção devastadora. Seja como for, Chang Mai tem um cenário marcado pela tradição budista e a presença humana nesse lugar espiritualizado é um convite à reflexão. A questão dos animais não pode ficar de fora.

Quando se pensa na exploração dos elefantes, que acontece em larga escala na Tailândia mediante passeios com montaria e shows de habilidades, o debate sobre ética animal começa a vir à tona para repercutir na própria sociedade. Se após a proibição da atividade madeireira os elefantes passaram a ser adestrados com rigor para servir no setor do turismo, o novo costume foi se incorporando na cultura tailandesa a ponto de se naturalizar no pensamento coletivo. Agências de viagens atraíam interessados a conhecer o país desde que os pacotes oferecessem passeio às ilhas do sul, visitas a templos budistas e, por fim, passeios montados em elefantes. Foi então que Saengduean Chailert (conhecida como Lek), pioneira da ideia de turismo ético com elefantes, transformou uma área rural de 100 hectares, em Chiang Mai, no Elephant Nature Park, o primeiro santuário de elefantes onde não se pode interagir com os animais, apenas observá-los à distância. E, sobretudo, respeitá-los.       

Elefantes no santuário ético Elephant Nature Park, em Chiang Mai, Tailândia. Foto: Laerte Levai

No Elephant Nature Park o lema é “sem ganchos, nem correntes, sem montaria”. Distribuídos em uma área plana entrecortada pelo Rio Mae Taeng, mais de uma centena de elefantes resgatados vive ali em paz e livres de sofrimento. Alguns deles vieram com lesões graves quando puxavam toras de maneira ou foram atingidos por explosivos de minas terrestres, perdendo os movimentos da pata ou até mesmo a visão. No santuário mantido por Lek há 26 anos não há apenas elefantes, mas também outros animais socorridos em estado de vulnerabilidade, como cães, gatos, búfalos, ovelhas, porcos, cabras e coelhos. O local, que dispõe de clínica veterinária para o atendimento de todos os animais que o habitam, é mantido pelo turismo e conta, também, com o apoio de entidades internacionais. Joe Udom Ratiapirom, um guia tailandês que trabalha no Santuário, contou ao JusAnimalis um pouco da rotina dos elefantes acolhidos:

“Cerca de 125 elefantes vivem aqui, sendo a maioria fêmeas.  Os machos são mantidos em outra ala, para que não haja procriação. Mas nem todos os animais permanecem na área aberta para visitantes. Muitos desenvolveram medo ou agressividade em relação a humanos, por isso preferem ficar em áreas florestais mais afastadas do público. Outros têm distúrbios mentais em decorrências de abusos que sofreram no passado, o que pode deixá-los facilmente irritadiços ou perturbados. Cada elefante daqui possui um cuidador, chamado de Mahout, responsável pelo animal durante sua rotina. De dia os animais têm à sua disposição boa oferta alimentar e à noite um abrigo. Cada um deles possui comportamentos típicos e preferências, muitos andam em grupos, outros preferem permanecer sozinhos mesmo quando se banham no rio. Os mais velhos precisam de cuidados especiais, sobretudo na alimentação. Já os mais novos são alegres e gostam de brincar. O Santuário não é um local ‘hands on’, ou seja, aqui os visitantes devem apenas observar os elefantes, mas sem tocá-los.”

Joe Udom Ratiapirom, guia turístico no Elephant Nature Park, em Chiang Mai. Foto: Laerte Levai

Pode-se concluir, em vista disso tudo, que a exploração tradicional de elefantes precisa evitar montaria e banhos com os animais, assim como espetáculos de destreza e uso de correntes, sendo que muitas dessas práticas são advindas do cruel método de adestramento phajaan (palavra que significa, em tailandês, esmagamento). Em substituição, o modelo mais ético prioriza a observação à distância em grandes áreas naturais, ausente qualquer tipo de interação física. No Sudeste Asiático, além de Elephant Nature Park, seguem nessa mesma linha outros santuários de elefantes, embora em menor extensão, um no Camboja e outro no Laos (Save Elephant Foundation Laos).

Diana Zalamea, responsável pela comunicação internacional do Elephant Nature Park, disse ao JusAnimalis que a proporção de gente que escolhe visitar santuários éticos em relação a parques que mantêm o sistema interativo tradicional está dividida, mais ou menos 50% para cada lado.  Segundo ela, “Muitos locais se mascaram como santuários (palavra da moda), mas na realidade oferecem elefantes treinados pelo método phajaan para que interajam com turistas. É uma situação muito ruim, os turistas pensam que ajudam quando na realidade estão perpetuando o sistema exploratório. Nós aqui focamos na educação: se as pessoas soubessem a verdade sobre o método de domesticação dos elefantes, 90% delas não aceitariam a exploração”. No santuário de Chiang Mai, durante o almoço vegano servido aos visitantes, Diana Zalamea contou à reportagem sobre as mazelas da exploração animal e o esforço de Lek em obter avanços para os animais:

“Na Tailândia elefantes domesticados são tratados pelas regras pecuárias, como se fossem gado. Não são considerados animais selvagens, o que significa que o possuidor tem poder total sobre eles. Antigamente os elefantes eram utilizados para pedir dinheiro e trabalhar em madeireiras, mas agora isso não é mais legal. Mas o trabalho em madeireiras ainda ocorre clandestinamente, enquanto o phajaan continua sendo a metodologia padrão de adestramento: os elefantes são acorrentados ainda filhotes, apanhando para que ocorra a ‘quebra de espírito’. Mas o treinamento quebra também a relação da mãe com o filhote, separando-os. A Lek vem lutando pelos animais há muitos anos, reunindo-se com legisladores em Bangkok na tentativa de promover mais leis de proteção e, também, tornar o phajaan ilegal. A recente proibição de montarias em elefantes na Indonésia pode ser uma inspiração para outros países”.

Diana Zalamea, diretora de comunicação do Elephant Nature Park, em Chiang Mai. Foto: Laerte Levai

O modelo de santuários éticos em substituição ao padrão de cativeiro que prepondera sobre os animais selvagens expostos ao turismo, como elefantes e tigres, também foi defendido por Edwin Wiek, conceituado ativista que décadas atrás fundou na Tailândia a Fundação Amigos da Vida Selvagem, onde pôs mais de duas dezenas de elefantes resgatados vagando livres em uma área de 16 hectares. Edwin acredita que além da necessidade de a procriação de elefantes domesticados ser controlada, os animais deveriam ser mantidos apenas para visitação à distância, sem qualquer interação turística. 

Já o governo, segundo ele declarou à agência BBC News anos atrás, poderia gerenciar a população selvagem criando corredores ecológicos que permitissem aos elefantes se deslocar pelos parques nacionais e florestas contíguas sem risco de conflito com humanos. Que essas sugestões possam ainda convencer as autoridades florestais tailandesas a adotar medidas técnicas capazes de favorecer não apenas os elefantes, mas toda a fauna selvagem em risco no país. Em entrevista concedida com exclusividade ao JusAnimalis, a PETA Ásia faz importantes considerações sobre os problemas existentes no continente asiático e as conquistas obtidas. A ativista Abigail Forsyth assim se pronunciou:

“A PETA faz campanha contra a exploração de elefantes para festivais e passeios turísticos em países como Bali, Laos e Nepal, além de atuar contra o uso de espécies silvestres no comércio de animais de estimação e a criação em larga escala de macacos para laboratórios no Vietnã e no Laos. Convencemos grandes empresas a encerrar parcerias com atrações que exploram animais de forma desumana, incluindo o Festival do Elefante de Chitwan, no Nepal, enquanto companhias de turismo de todo o mundo deixaram de oferecer passeios de camelo e cavalo nas pirâmides do Egito após nos ouvir. Também celebramos recentemente a proibição nacional de passeios de elefante na Indonésia. Ainda há um longo caminho a percorrer para acabar o sofrimento de animais na indústria do entretenimento, mas a percepção pública está mudando e os turistas estão exigindo melhores práticas”.

Abigail Forsyth, ativista da PETA ASIA. Imagem cedida pela própria entrevistada

No que toca a possíveis estratégias válidas para promover uma transformação ética no relacionamento humano com os animais, a representante da PETA mostra-se enfática: “Incentivamos o público a adotar um turismo livre de exploração animal, excluindo animais de seus planos de viagem ou apoiando santuários que priorizam o bem-estar animal acima do lucro. As empresas devem deixar de patrocinar ou promover eventos ou estabelecimentos que mantêm animais aprisionados ou os utilizam com entretenimento, e os consumidores devem rejeitar produtos – da moda à alimentação – que dependam do sofrimento animal. À medida que nosso conhecimento sobre as necessidades individuais dos animais continua a crescer, os países do mundo todo devem reavaliar continuamente sua legislação para garantir que os animais estejam protegidos”.

O roteiro de um santuário ético, seja para qual espécie for, é simples: não permitir contato físico com os animais (sem toques nem selfies ou banhos turísticos); priorizar a reabilitação e cuidados vitais (foco em bem-estar, não no entretenimento); limitação do número de visitantes (grupos pequenos e com horário controlado) e transparência (comprovação da origem dos animais, custos de manutenção, protocolos veterinários e missão institucional). Os visitantes, de sua parte, devem difundir essa nova consciência perante terceiros, mostrando que a postura ética é imprescindível para repudiar a caça, o tráfico e quaisquer outras formas de violência e exploração animal.          

O repórter do Jus Animalis, Laerte Levai, durante trabalho de campo no Sudeste Asiático

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LAERTE F. LEVAI

Jornalista ambiental (DRT n. 96682/SP). É repórter do Jus Animalis.

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