ANIMAIS COMO MODELOS EXPERIMENTAIS: UMA VISÃO ABOLICIONISTA TRANSDISCIPLINAR
Autora: Paula Brügger
O Livro, publicado pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, traz discussões sobre experimentação animal, paradigmas de ciência, epistemologia, história, moralidade e ética (animais humanos e o preconceito especista), senciência, consciência, e cognição animal, além de uma breve reflexão sobre alternativas, substitutivos, educação, e legislação.
O objetivo é mostrar que o enfoque transdisciplinar – aliado às visões sistêmicas de ciência – é o caminho mais promissor para erigir um conhecimento mais completo e fidedigno nesse domínio.
Milhões de animais não-humanos são mortos anualmente em testes que os submetem a queimaduras, mutilações, injeções com substâncias tóxicas, condições ambientais extremas, e um sem-fim de outras atrocidades.
A experimentação animal, ou vivissecção, é uma prática milenar que segue firme devido à nossa herança cultural antropocêntrica e especista, à crença acrítica no paradigma mecanicista de ciência, e à deliberada má-fé, decorrente de interesses econômicos.
É aterrador pensar que, além da crueldade perpetrada contra esses seres sencientes e autoconscientes, os dados provenientes desses experimentos sejam pouco ou nada confiáveis. Isso acontece porque a base paradigmática dessa “ciência experimental” é reducionista e inadequada para descrever fenômenos complexos, o que torna tais expedientes ainda mais indefensáveis sob os pontos de vista moral e ético.
O caminho à frente do enfoque transdisciplinar, aliado às visões sistêmicas de ciência, é, todavia, repleto de obstáculos. O mais recorrente é o argumento falacioso de que se não usarmos animais, seremos obrigados a realizar testes em seres humanos. Mas tal alegação ignora a possibilidade de ricas combinações entre cosmovisões alternativas e/ou métodos substitutivos, hoje muito avançados. E também omite, propositalmente ou não, o fato de que os humanos sempre acabam fazendo parte desses testes, seja voluntariamente, nas fases clínicas das pesquisas, seja involuntariamente, quando são sujeitos a fármacos não seguros e até mortais.
Paula Brügger espera que seu trabalho possa representar uma centelha na escuridão densa e caótica que marca mais essa relação de tirania para com os animais. Todas as evidências de que dispomos hoje – sejam de natureza ética ou científica – apontam na direção de abolir essa modalidade de escravidão. Não deixemos que esses conhecimentos se percam como “lágrimas na chuva”, como lamentou o andróide Roy Batty, no filme Blade Runner. Razão e emoção precisam e devem caminhar lado a lado.
Segundo a Autora, “a motivação para escrever este livro vem de longa data. Durante a minha graduação, em Ciências Biológicas, já sentia uma profunda rejeição por quaisquer formas de manipulação de vidas animais e mesmo de vegetais, em alguns casos. Com uma percepção que foi do intuitivo ao racional, fui descobrindo que o atual paradigma de ensino das ciências da vida, “necrofílico” – e fundamentado em modelos animais – promovia um processo de insensibilização ao basear-se no valor instrumental, e não no valor intrínseco dos seres vivos. Esse paradigma hegemônico exclui quaisquer discussões sobre a real cientificidade de tais testes e modelos e, muitas vezes, se vale de expedientes coercitivos para impor seu modus operandi. A recusa em adotar alternativas e tecnologias substitutivas dá continuidade a esse processo, reproduzindo e perpetuando essa visão de mundo especista e pseudocientífica. Felizmente a nossa Carta Magna corrobora o que preconiza a epistemologia mais recente, garantindo amparo legal para que trilhemos o urgente e necessário caminho de abandonar essa prática abominável sob o ponto de vista moral e espúria no âmbito científico”.
Aos leitores interessados na obra, esta encontra-se disponível em edição impressa através desse link.
Sobre a Autora:
Paula Brügger é Bióloga, com especialização em Hidroecologia, mestra em Educação e Ciência, e doutora em Sociedade e Meio Ambiente. Foi professora titular do Departamento de Ecologia e Zoologia, da Universidade Federal de Santa Catarina, e atuou nos cursos de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento, e Perícias Criminais Ambientais. Foi coordenadora de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira – SVB, e diretora de educação do Instituto Abolicionista Animal – IAA. Atualmente coordena o Observatório de Justiça Ecológica da UFSC. É autora dos livros Educação ou adestramento ambiental, Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas, e Jornalismo Especista – textos e fragmentos de olhares sobre os animais não humanos na mídia, além de uma centena de outros textos sobre ética ambiental e animal. Temáticas de pesquisa: educação ambiental abolicionista animal; paradigmas de ciência e sustentabilidade; implicações éticas e epistemológicas da visão mecanicista da ciência na experimentação animal; e imagem da natureza e dos animais não-humanos na mídia.