Nem peixe, nem boi: ele mama, não rumina e corre risco de vida

Terça-feira, 07 de abril de 2026


Dóceis e inofensivos, de movimentação lenta, passam o dia se alimentando de plantas aquáticas (algas, gramíneas e folhas de mangue), em locais rasos e abrigados. Seus maiores predadores, desde o século XV, estão entre a espécie humana, devido à caça, à destruição do seu habitat e às mudanças climáticas.

Manatis, dugongos, peixes-boi e vacas-marinhas pertencem à família dos Sirênios, sereia, nome derivado do latim. O nome indígena do peixe-boi amazônico é goaragoá, guaraguá ou igarakuê, derivação de ïgwara'gwa.

Registros fósseis registraram 36 espécies no mundo. Atualmente há apenas quatro. Duas são nativas do Brasil: a marinha (Trichechus manatus manatus), e a amazônica (Trichechus inunguis). Uma terceira habita entre a Flórida (EUA), México e América Central, e a quarta na África, entre Senegal e Angola.

O peixe-boi marinho vive entre Alagoas e Amapá. É considerado extinto no Espírito Santo, na Bahia e em Sergipe. O amazônico é endêmico da Bacia do Amazonas, habitando todos os principais afluentes, rios menores e lagos entre Peru, Colômbia, Equador e Brasil até a foz, no Atlântico. 

Características e curiosidades

Os peixes-bois-marinhos têm a pele rugosa e sua cor varia entre cinza e marrom-acinzentado, podendo medir até 4 m e pesar entre 600 e 1.000 kg. Possuem unhas nas nadadeiras peitorais.

O peixe-boi-da-amazônia é menor. Mede até 3 metros e pesa até 450 kg. Seu corpo é robusto e fusiforme, a pele é espessa e a coloração varia de cinza-escuro a negra. Não possui unhas nas nadadeiras.

Ambos possuem uma grande nadadeira caudal circular. As narinas estão na parte superior do focinho, onde estão as vibrissas ou pelos táteis, sensíveis ao movimento ou ao toque. 

Alimentando-se de vegetais, as fezes dos peixes-boi são ricas em nutrientes que são a base para o crescimento de fitoplâncton (algas quase invisíveis de tão pequenas) que alimenta o zôoplancton (larvas de peixe e minúsculos crustáceos) envolvendo toda uma teia alimentar na vida aquática, ou seja, “a base da vida” nos rios, estuários e ambientes recifais. 

Comunicam-se por sons, semelhantes a pequenos gritos, de baixa frequência, emitidos pelas vibrações da laringe (não possuem cordas vocais), com tons diferentes entre si, o que ajuda às mães identificarem os filhotes e vice-versa. 

Normalmente não vivem em bandos. Aproximam-se na época do acasalamento! A maturidade sexual acontece entre 3 e 5 anos de idade, sendo que as fêmeas engravidam entre 7 e 9 anos, podendo gerar um filhote a cada 2 a 3 anos, após 12 ou 13 meses de gestação. Os intervalos entre os partos dos bebês são de 3 a 4 anos. As mães passam a conviver somente com seu filhote, amamentando-o por quase 2 anos até se tornarem independentes.

A reprodução do peixe-boi da Amazônia está associada ao ciclo hidrológico da região. A cópula e o nascimento dos filhotes coincidem com a época de elevação do nível dos rios, pois o período de chuvas ocorre entre novembro e março. Quanto ao peixe-boi marinho, o pico de acasalamento e de nascimento dos filhotes, nos litorais nordestino e norte, é frequente nos meses de verão.

Descoberta interessante sobre o possível acasalamento das duas espécies, marinha e amazônica, foi feita pela pesquisadora da Universidade Federal do Pará, Flávia dos Santos Tavares, estudando características genéticas de animais na região da Ilha de Marajó. Este fenômeno é denominado hibridização. Ela alerta para o risco de um desequilíbrio genético nas populações das duas espécies no futuro.

Peixe-boi abatido: subsistência, uso industrial e fonte de riqueza

Antes da chegada dos europeus no Brasil, o abate de um peixe-boi pelas tribos indígenas alimentava muitas famílias, seja na região litorânea, seja na fluvial. Também usavam sua gordura e seus ossos para utensílios de caça e pesca.

A bióloga, Dra. Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, grande especialista no assunto, menciona fatos históricos sobre expedições realizadas nos séculos XVI a XVIII na Amazônia.

Por exemplo, o Frei Gaspar de Carvajal, que viajou do Equador até o estuário do Amazonas, em 1542, descreveu indígenas usando escudos feitos de couro de peixes-boi, tão potentes que nem flecha, nem arma de fogo poderiam perfurá-lo. 

Com quem será que os povos da floresta aprenderam a fazer tais escudos? Ora pois, com certeza sabiam que os estrangeiros eram uma grande ameaça.

Também cita Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, entre 1783 e 1792, feita por Alexandre Rodriguez Ferreira, um dos maiores naturalistas brasileiros, por ordem da Rainha D. Maria I, de Portugal.

Nesta obra consta que mais de 3.873 arrobas (58.095 quilos) de carne seca e salgada, além de 1.613 potes (22.260-48.390 quilos) de gordura e mixira (carne cozida conservada na própria gordura do animal) eram exportadas anualmente para Europa e para abastecer diversos povoados no Brasil.

Os tempos áureos do ciclo da borracha na Amazônia, entre 1879 e 1912, tornaram Manaus, Porto Velho e Belém, grandes capitais brasileiras, exportando a produção para a Europa, visando atender a demanda da Revolução Industrial.

Coincidentemente (ou não), com o declínio da borracha, o couro do peixe-boi passou a ser cobiçado para produção de peças usadas em maquinários para indústrias e em locomotivas. Entre 1935 e 1954, de 80 mil a 140 mil peixes-boi da Amazônia foram caçados. Lembremos que entre 1939 e 1945, aconteceu a II Guerra Mundial, a qual exigiu grande demanda de matéria prima. 

Desinteresse financeiro e o apoio da legislação ambiental

Felizmente, a queda do preço do couro do peixe-boi no mercado nacional e internacional, a ampla difusão da borracha sintética e a redução populacional da espécie na Bacia Amazônica, influenciaram o fim da caça em escala comercial.

Com a promulgação da Lei Federal nº 5.197 de 03.01.1967, sobre a proteção à fauna, os sirênios passaram a ser protegidos, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha. Posteriormente, esta lei foi alterada pela de nº 7.653 de 12.02.1988.

Outro grande apoio é a Lei Federal nº 9.605 de 12.02.1988, principalmente no tocante ao Capítulo V- Dos Crimes Contra o Meio Ambiente, na Seção I - Dos Crimes Contra a Fauna, que abrange não somente a caça como também protege a reprodução e seu habitat.

A Portaria Conjunta MMA-ICMBio nº 316/2009, atua no processo de elaboração da Lista Oficial da Fauna Ameaçada e na elaboração de planos de ação nacionais, buscando pactuar com diversas instituições, mecanismos de recuperação e proteção para as espécies ameaçadas nos seus ecossistemas.

A Portaria MMA Nº 148, de 07.06.2022 incluiu os sirênios na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção.

Em 1994, teve o início o Programa Nacional de Reintrodução dos Peixes-Bois-Marinho, com animais criados em cativeiro, soltos no litoral da Paraíba e Alagoas, aumentando as famílias nas áreas da Bahia ao Rio Grande do Norte. 

Em 2010 foi criado o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Sirênios (Trichechus inunguis e Trichechus manatus) – PAN Sirênios, pela Portaria nº 85, de 27.08.2010, que teve vigência até 2015. Na sequência, foi criado o PAN somente para o peixe-boi marinho, pela Portaria nº 249 de 04.04.2018, e o PAN Mamíferos Aquáticos Amazônicos, pela Portaria nº19 de 16.01.2019.

No Pará, o peixe-boi da Amazônia e o peixe-boi marinho foram reconhecidos como patrimônios culturais naturais pela lei estadual nº 11.171 de 2025, estimulando prioridade para conservação das espécies.

Na Bahia, há alguns anos, é realizado um evento cultural denominado “O Forró do Peixe-Boi”, em Jandaíra. Em 2025, reuniram-se 700 pessoas, “reforçando o elo entre cultura popular, educação ambiental e a conservação marinha”, segundo os organizadores representando o Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho e a Fundação Mamíferos Aquáticos, com patrocínio da Petrobras.

Desafios atuais

De acordo com o ICMBIO, mesmo protegido por lei, a população ribeirinha amazônica ainda costuma caçá-lo para subsistência e para o mercado ilegal. Há ainda várias denúncias, que estão investigadas pelos órgãos competentes, sobre uso de sua carne como isca para a pesca ilegal da piracatinga. 

No ambiente marinho, as principais ameaças à sobrevivência dos peixes-boi são: captura acidental em redes de emalhe ou de arrasto e bombas caseiras usadas para pesca. O atropelamento por embarcações de turismo, lazer e de pesca vem matando e ferindo gravemente os animais. 

Cabe destacar o quanto que os grandes períodos de estiagem na Amazônia e a degradação das zonas estuarina e costeira, principalmente dos manguezais vem afetando a sobrevivência dos animais que dependem deste importante ecossistema, como a base da teia alimentar marinha.

Podemos citar como principais agentes de degradação: a especulação imobiliária e turística; as fazendas de aquicultura e a salinicultura. Estimativas oficiais avaliam que cerca de 40% do que foi um dia uma extensão contínua de manguezais na região nordeste foi suprimida.

Quando as fêmeas de peixe-boi marinho não conseguem chegar ao interior do estuário, acabam parindo em mar aberto. Então, os bebês são levados pelas correntes marítimas e encalham nas praias, quando a maré baixa. Na região nordeste, 25% dos óbitos são consequência do encalhe de filhotes.

O Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal), criado pelo MMA (Decreto Federal nº 12.045, de 05.06.2024), objetiva a conservação, recuperação e uso sustentável da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos associados aos manguezais.

Conclusão

A legislação ambiental avançou significativamente na proteção do peixe-boi. Os projetos de criação em cativeiro e reintrodução no ambiente natural têm apresentado ótimos resultados para o futuro da espécie. Ações de educação ambiental têm ampliado a consciência de muitas crianças e jovens. Fontes alternativas de material sintético substituíram plenamente o couro dos animais. 

Porém, os períodos de estiagem, as queimadas e o desflorestamento da Amazônia e dos bosques de manguezais, estão assoreando os rios. Isto reduz os hábitats utilizados pelas fêmeas, não só de peixes-boi gestantes como também de botos, lontras e ariranhas, para parir os filhotes e amamentá-los. Os manguezais também são berçários para peixes como o mero, igualmente ameaçado de extinção. Enfim, tudo está relacionado ao todo! Há muito a fazer!


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Referências

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Fauna News. O peixe-boi da Amazônia: caça e uso através dos séculos. Entrevista aDra. Vera M. Ferreira da Silva - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPAO peixe-boi da Amazônia: caça e uso através dos séculos - Fauna News 29 de abril de 2022. Acessado em: 27.03.2026.

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ICMBIO. Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Sirênios. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 2011. Disponível em: MIOLO LIVRO SERENIOS.indd

Revista A Bordo. Projeto Viva o Peixe-Boi Marinho. Fundação Mamíferos Aquáticos. Edição 27. Março/2026. Disponível em: https://vivaopeixeboimarinho.org/system/PqFP2IvICIV5UmUhgwWkRIoHzI-CBWzV2Xw8gKKKB3ft0VMKQzQ5YT_yxgxpMnGQWwIPCY24hbnXsePU93-wqQ/files/Revista%2027%20-%20FINAL.pdf Acessado em 27.03.2026.

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IRIS FERNANDES POFFO

Bióloga com doutorado em Ciências Ambientais pela USP/SP. Pós doutorado em Psicologia pela PUC/SP. Terapeuta holística. Escritora.

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