A brutalidade contra o cão Orelha e o silêncio sexista

Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026


“O homem continuará a descer sempre, bem para baixo de todos os símios, na sua maldade de criatura civilizada, para estimular todas as virulências, desde as guerras até o prazer satânico de martirizar os animais em nome do humanitarismo cínico. [...] A humanidade pode progredir sem a fisiologia, porém, não poderá progredir sem a piedade” [1]. 

As reflexões de Maria Lacerda de Moura estão mais atuais do que nunca. Desde a Revolução Francesa, a promessa era a de “liberdade, fraternidade e igualdade”, segundo o paradigma humanista moderno. Por outro lado, o capitalismo e o patriarcado foram erguidos às custas de cativeiros para as pessoas desumanizadas e para os animais não humanos, dominados pelo uso da força, da coação e pela brutal desigualdade de classe, de gênero, de raça e de espécie. As pessoas desumanizadas foram animalizadas, já que os animais não humanos foram destituídos de direitos durante séculos. As promessas foram sendo desfiguradas e as violências contra os animais, as mulheres e pessoas não brancas/não europeias avolumaram-se ao longo da história. 

Orelha era um dos cães que vivia na Praia Brava, em Florianópolis, junto com a cadela Pretinha e o Caramelo. Eram cães comunitários, cuidados pela população local, inclusive com as casinhas, os cuidados com a alimentação e a água. Nas imagens compartilhadas nas redes sociais vemos cães alegres e fortes correndo na areia da praia. Muitas pessoas do local e turistas conheceram os cães e postaram fotos e vídeos com eles. Demorei muito tempo para escrever este caso, como tantas outras pessoas, preferi fazer uma pausa entre o choque com a notícia e as novidades do caso. 

O crime envolveu a tortura e resultou na eutanásia. O assassinato ocorreu entre os dias 04 e 05 de janeiro de 2026 na Praia Brava, bairro de Florianópolis, Santa Catarina. O animal foi encontrado agonizando e foi encaminhado para uma clínica veterinária. O laudo apontou lesão grave na cabeça possivelmente causada por um objeto contundente, como um pedaço de pau ou garrafa. No dia 25 de janeiro, o governador Jorginho Mello se pronunciou: “As provas já estão no processo e me embrulharam o estômago”.   

Nas notícias e nos vídeos que circularam, desde o início da divulgação do caso, havia seis jovens no local. Além das imagens do porteiro de um condomínio de luxo que teria sido coagido com arma pelo pai e pelo tio de um dos supostos criminosos. Em fevereiro, o caso foi, vergonhosamente, encerrado e somente um dos envolvidos foi identificado como assassino. No início da repercussão, foi divulgado que o crime envolveu pregos martelados na cabeça do cão e um pedaço de pau que perfurou os órgãos chegando quase à região do pescoço. Fica o questionamento: as provas que “embrulharam o estomago do governador” foram os vídeos ou foram o laudo e as fotos de veterinário que realizou a necrópsia? Ele não falou sobre o “embrulho no estômago” depois da identificação dos rapazes da elite catarinense. Com o tempo a verdade chega, mesmo que a justiça se cale diante do poderio financeiro.   

O que fica evidente são as mentiras e as mudanças de narrativa durante a investigação com a finalidade de proteger os filhos de famílias ricas de Santa Catarina. Todos os investigados são homens jovens e protegidos sobre o manto do dinheiro e do poder. Pouco comentado foi o empalamento, sobre o qual fez uma declaração a perita ambiental Chris Neri [2]. 

O que não se fala é sobre se houve estupro e zoofilia, mas, há um silenciamento machista sobre a violência sexual. Se houve uma empalação, houve estupro e houve zoofilia. A ligação entre a naturalização da violência contra as mulheres e os animais não humanos, os estupros, a pedofilia, a tortura e a anulação dos corpos vulnerabilizados pelo poder patriarcal, são evidencias apontadas pelas feministas que mostraram que essas práticas formam uma rede de conexões de corpos submetidos aos usos sádicos em benefício do poder dos homens brancos. 

O caso Epstein escancara até onde podem chegar os homens brancos e ricos. Há um pacto de silêncio entre os homens. Quantos Epsteins a sociedade vai permitir que devorem carne humana em banquetes macabros e em orgias com crianças raptadas? A impunidade facilita com que outros crimes sejam cometidos. O capitalismo e o patriarcado se alimentam de sangue inocente. Algumas redes sociais, tais como: Discord, Reddit, 4chan e Twitch, permitem que crimes como estupros e torturas sejam veiculados. Fala-se muito dos gatos torturados na China, mas, na verdade a rede é mundial. 

Em abril de 2024, eu publiquei um texto propondo a interseccionalidade do sexismo e do especismo para pensarmos sobre o caso dos gatos torturados ao vivo nas redes sociais [3]. O caso dos gatos de Caxias do Sul (RS) não teve a mesma repercussão do crime aqui abordado. A conexão entre as atrocidades nos leva a pensar que a relação entre os feminicídios no Brasil e a crescente onda de violência contra os animais não humanos não é um mero acaso. É um projeto macabro do patriarcado para se manter no poder. 

A diferença entre os três cães da Praia Brava e os seis rapazes envolvidos no processo judicial é enorme. Os cães conheciam o amor e os cuidados. Os jovens indiciados são, provavelmente, alimentados pelo ódio, pelo preconceito, pela barbárie e pela certeza da impunidade. Um vídeo recente, gravado por um drone em 2023, mostra Orelha e Pretinha brincando na praia. No dia 09 de fevereiro morreu a Pretinha, companheira fiel do cão torturado. A comoção é internacional, mesmo diante de crimes diários contra os animais não humanos. O que teria gerado tamanho impacto social: o requinte de crueldade deste crime? A certeza da impunidade para os jovens abastados? As barbáries cometidas pela elite branca e a impunidade de classe? A exaustão do povo com as injustiças classistas, machistas e especistas?

As masculinidades tóxicas começam através da educação familiar permissiva e, muitas vezes, propagadora do ódio e de preconceitos seculares enraizados. O machismo é o pilar do capitalismo que sustenta a pedofilia, o estupro, a zoofilia, os feminicídios e o genocídio de povos considerados inferiores. A “banalização do mal” foi um conceito analisado por Hanna Arendt em sua obra Eichmann em Jerusalém (1963). Ao acompanhar o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann, ela relata que ele foi um burocrata à serviço do sistema que executava ordens sem uma reflexão moral. A reflexão moral exige um pensamento crítico, a empatia e uma análise do contexto histórico. 

Muito se fala sobre as possíveis mudanças na legislação para os crimes de maus-tratos aos animais, mas a questão vai além. A educação precisa sair do modelo de preparação para o vestibular ou para o futuro. A educação precisa ser inclusiva e preparar para o presente, como já propunha Maria Lacerda de Moura e outros/as anarquistas do século XIX e XX. Hoje, necessitamos de uma Educação Ambiental e Animalista desde a primeira infância ou a juventude seguirá cegamente guiada pelas redes de ódio e de ignorância disseminadas na web. A reconexão com a Terra, com as outras espécies e com a diversidade humana é fundamental para uma educação que queira romper com a barbárie do mundo atual.  


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Referências bibliográficas


[1] MOURA, Maria Lacerda [1931]. Civilização, tronco de escravos. São Paulo: Entremares, 2020, p. 44-45.

[2] @chrisnerioficial. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/DUBzLLgEU66/. Acesso em 28 jan. 2026.

[3] LESSA, Patrícia. Justiça para os gatos de Caxias do Sul! Um caso de especismo e sexismo. JusAnimalis. 2 abr. 2024. Disponível em: https://jusanimalis.com.br/etica-animal/patricia-lessa-gatos-especismo-sexismo. Acesso em 02 fev. 2026.

PATRICIA LESSA

Escritora, educadora e atuante na promoção cultural. Alguns de seus livros autorais que abordam a questão dos animais não humanos são:  Amor & Libertação em Maria Lacerda de Moura, publicado pela editora Entremares (2020), Literatura infantil: Nise da Silveira (2023) e Maria Lacerda de Moura (2023), ambos fazem parte da coleção Lute como uma garota e foram publicados pela Appris; O Resgate do Touro Vermelho, pela editora Luas (2021); e os livros que organizou: Relações multiespécies em rede: feminismos, animalismos e veganismo pela editora Eduem (2017) e Relações interseccionais em rede: feminismos, animalismos e veganismos, pela editora Devires (2019). Demais dados podem ser encontrados em seu site: https://patricialessa.com.br/. Créditos da foto: Isa Angioletto.

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