Especismo e Colonialismo químico: Pela visão de saúde única do livro Amigo Animal
Nosso olhar sobre o mundo é marcado por um paradigma mecanicista e pela lente da racionalidade instrumental. A natureza nesse contexto não passa de um conjunto de recursos para o uso humano, e uma consequência disso é a objetificação e a comodificação de tudo, inclusive da biosfera senciente.
No meu texto “Dieta especista e mudança climática – por um ambientalismo abolicionista animal”, disponível neste portal, expus dados alarmantes que relacionam perda de biodiversidade à estabilidade climática. A perda e a degradação de habitats são as principais causas da erosão na biodiversidade, sendo o Caribe e a América Latina as regiões onde houve o maior declínio mundial das populações de vertebrados. O fato de o Brasil e outros países dessa região serem grandes produtores de commodities ligadas à pecuária certamente precisa ser levado em conta nesse contexto.
O cenário de destruição decorrente da dieta mainstream ocidental foi um dos pontos de debate do meu livro Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas [1], lançado há duas décadas. O livro fazia parte de um amplo projeto de educação ambiental, iniciado em 2000, cujo escopo era a relação entre nós e os outros animais. Foram três os principais eixos de discussão: animais em situação de rua; a dieta ocidental padrão; e os experimentos em animais. Nesta coluna vou me ater ao segundo eixo e propor a tese de que – no que tange a essa dieta – especismo rima com colonialismo.
Encontram-se muito florescentes, hoje, os debates acadêmicos nos quais o descolonialismo é o fio condutor de outros temas que envolvem racismo, identidades culturais, e justiça ambiental, por exemplo. No seio desse riquíssimo universo de discussão, vou explorar algumas intersecções entre o que discuti no Amigo Animal e questões abordadas pela Dra. Larissa Bombardi em seu excelente livro Agrotóxicos e colonialismo químico [2].
Citando o livro Primavera silenciosa, de Rachel Carson, Bombardi argumenta que “o Brasil e outros países do Sul global foram transformados em máquinas de produzir grãos, carne, cana-de-açúcar, celulose e outras commodities. O combustível de tais máquinas são as sementes transgênicas, os fertilizantes químicos, e os agrotóxicos. Transformam-se campos e florestas em monoculturas e hoje – apenas nos países do Mercosul – a soja ocupa uma área maior que a França, causando graves problemas sociais, e de saúde humana e ambiental.
O silêncio de Carson se tornou muito mais abrangente e avassalador, pois pouco se sabe sobre os efeitos cumulativos e sinergéticos dessas substâncias tóxicas. Esse processo destrutivo visava, em tese, o combate à fome no mundo.
Todavia, a fome e a desnutrição aumentaram globalmente. Essa agricultura capitalista tem submetido povos e seus territórios à miséria social e ecológica, em benefício de um processo de concentração da terra, renda, e poder nas mãos de empresas transnacionais, especuladores e seus representantes legislativos, e instâncias de poder político e econômico”.
Bombardi traz dados recentes impressionantes em seu livro. E ressalta que “as nações do Sul global são as que mais sofrem, sobretudo as mulheres, crianças, povos originários, camponeses, e trabalhadores rurais”.
Contudo, senti falta de um olhar abolicionista animal sobre essa perspectiva de colonialismo químico e cultural, pois praticamente tudo o que foi discutido pela autora foi abordado no Amigo Animal. Vamos a um resumo desses pontos.
Existem diferenças expressivas no que toca às dietas alimentares da espécie humana. Aquelas típicas dos países industrializados são muito ricas em carne e à medida que um país ‘subdesenvolvido’ ingressa no estágio de ‘desenvolvido’, seus habitantes ascendem pela cadeia trófica e consomem cada vez mais carne e outros itens de origem animal. Essas dietas requerem o uso em larga escala de diversos compostos comprovada ou potencialmente perigosos em animais de criação, como hormônios de crescimento, drogas antiparasitárias, antibióticos, etc, além de outros químicos usados na limpeza e desinfecção dos ambientes onde são criados. Há ainda a adição de conservantes, como os nitritos, que acabam em nossos pratos. Não menos importante é o massivo uso de agrotóxicos (como ressalta Bombardi).
Também frisei que essa dieta causa insegurança alimentar, não só por expulsar povos autóctones de suas terras, ou se apropriar de recursos que tiram alimento da boca desses povos, mas porque o que é destinado aos animais poderia alimentar seres humanos diretamente. Nenhuma pauta de consumo é moralmente aceitável se ela for intrinsecamente impossível de ser universalizada. E esse é o caso da dieta alimentar rica em proteína animal: investe-se dinheiro público para resolver problemas do capital privado; o lucro é concentrado, enquanto passivos ambientais gigantescos são pagos por toda a sociedade, inclusive pelas gerações futuras.
Tudo isso se encontra na esfera ética, no universo das opções políticas, sociais, econômicas, estéticas, etc. Seria mais barato prevenir, em vez de remediar. Poderíamos melhorar a saúde de milhares de pessoas, erradicar a fome, e poupar recursos preciosos. Mas a nossa tradição cultural não estimula a prevenção porque ela não é lucrativa.
Essa escolha ética e estética tem suas raízes na relação que temos com a técnica: tomamos o avanço técnico como se ele fosse o desenvolvimento tout court e, como consequência, diferenças são transformadas em hierarquias. Os povos considerados desenvolvidos são apenas aqueles que se ´des-envolveram´, ou seja, que romperam com seus modos tradicionais de lidar com o entorno e adotaram a técnica dominante. Esse processo, além de narcísico, baseia-se num pensamento unidimensional.
Nesse processo de substituição de ecossistemas extremamente ricos em biodiversidade por ambientes simples – como plantations e pastagens – estamos nos movendo do biodiverso às monoculturas, tanto de genes, quanto de valores e traços culturais. Essa estéril uniformidade que destrói as diversidades é o resultado, sobretudo, da hegemonia desse modelo técnico único, como nos ensinam Herbert Marcuse, Milton Santos, e Ignacio Ramonet. Isso corrobora a inseparabilidade entre os processos naturais, sociais, culturais, etc.
Assim é a dieta ocidental padrão: unidimensional e colonialista. Há duas tendências principais de domesticação de plantas: o grain model desenvolvido para a domesticação de cereais através da ‘agricultura’, e o garden model destinado a múltiplos propósitos através da ‘horticultura’. O processo de imperialismo histórico, porém, impôs o grain model, em detrimento dos gardens que são mantenedores da complexidade dos ecossistemas naturais, e principais componentes da agricultura indígena nos trópicos.
O modelo de grãos, aplicado em larga escala, só é vantajoso para os grandes empresários e exportadores que lucram com a produção de commodities para animais, além de ser histórica e ecologicamente incompatível com a diversidade dos trópicos. Seus efeitos sociais são também devastadores: por exemplo, o uso de plantas medicinais depende da conservação da biodiversidade e dos saberes tradicionais para ser bem-sucedido.
A exploração dos seres humanos, dos animais e da natureza anda de mãos dadas: ao alimentar animais com grãos, destroem-se ecossistemas como a Amazônia e o Cerrado, ilustrando o caráter glocal (global + local) das questões socioambientais. Devem esses animais desaparecer da Terra para que possamos comer um bifinho barato? Guepardos, onças, e pumas não podem trocar seu bifinho de carne por um de proteína de soja ou lentilha. Mães lobas-guarás não podem ensinar seus filhotes algo diferente de caçar porque, diferentemente de nós, eles não têm escolha.
Por outro lado, os animais explorados na pecuária sofrem todos os tipos de tortura, e finalmente a morte. Por exemplo, apoiada nos argumentos de Peter Singer e outros autores dediquei, no livro, especial atenção ao sofrimento infligido aos animais pela indústria de laticínios, a mais covarde e vil de toda a pecuária.
E vale sublinhar: o sofrimento animal inerente à pecuária industrial é uma forma de especismo ausente nos povos autóctones e caçadores-coletores, muitos dos quais até pediam perdão a eles, pois lidavam de forma direta com o seu sofrimento. Poderia citar outros tópicos presentes no Amigo Animal, como a exploração de animais em testes que legitimam químicos tóxicos e seus efeitos sinergéticos, mas tal discussão não caberia aqui.
Enfim, o contexto atinente à dieta debatido no Amigo animal, há vinte anos, é perfeitamente amalgamável ao do colonialismo químico de Bombardi. Só muda o ângulo de observação. Pode-se afirmar que o colonialismo químico e cultural forjou a dieta ocidental padrão especista, um dos mais expressivos aspectos da nossa cultura autofágica. E que racismo, especismo, e sexismo são mesmo facetas de uma única realidade tecida historicamente. O ambientalismo especista jamais deu conta dessa crise ética e moral, e nunca dará: a saúde em Gaia é única - One Health.
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Referências bibliográficas:
[1]: BRÜGGER, Paula. Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004.
[2]: BOMBARDI, Larissa M. Agrotóxicos e colonialismo químico. São Paulo: Elefante, 2023.