Boto cor-de-rosa: uma espécie carismática, acusada de crimes que não cometeu, está ameaçada de extinção
Este artigo objetiva abordar a importância do boto-cor-de-rosa, e demonstrar como crenças, superstições e a ganância estão contribuindo para este mamífero aquático constar da lista vermelha de animais ameaçados de extinção.
Importância ecológica
A maioria dos golfinhos vive nos mares, mas há aqueles que vivem somente nos rios como o golfinho-do-ganges (Rio Ganges na Índia), golfinho-do-indo (rio Indo no Paquistão, o baiji na China, o tucuxi e o boto vermelho ou boto cor-de-rosa na região norte do Brasil. Há ainda a toninha (ou franciscana), que habita estuários e zona costeira do Uruguai, Argentina e sudeste do Brasil.
Com exceção da toninha, classificada como vulnerável, os demais estão na lista vermelha das espécies ameaçadas de extinção, pela União Internacional de Conservação da Natureza – IUCN (em inglês), sendo a destruição do seu habitat e o aprisionamento em redes de pesca predatória (e o conflito com pescadores), os principais fatores para o declínio de sua população (IUCN, 2024).
O boto que habita as águas das bacias dos rios Amazonas e Orinoco, incluindo os vizinhos Peru, Colômbia, Equador, Venezuela e Bolívia, é considerado pelos cientistas, o maior golfinho de água doce do mundo (o macho adulto mede 2,5 m. e pesa cerca de 200 kg) (Martin e Da Silva, 2006 apud Batista, 2022).
Ocupam o topo da cadeia ecológica, alimentando-se de peixes (estima-se 40 espécies diferentes), caranguejos e pequenas tartarugas, assim, possuem função importante no controle biológico (Martin e Da Silva, 2006 op. citi, e Silva, 2008 apud Batista, 2022). Por outro lado, são predados por jacarés e onças.
De acordo com MPA (2023), “os botos têm um papel crucial na avaliação da saúde dos ecossistemas de água doce, como verdadeiros indicadores ambientais (...) e, ao se movimentarem ao longo dos rios e várzeas, ajudam na dispersão de sementes de plantas aquáticas, contribuindo para polinização e reprodução dessas espécies vegetais.
A interação de turistas com os botos na natureza, é considerada um dos nove passeios imperdíveis em Manaus, AM (Guia da Semana, 2019). Novo Airão (180 km de Manaus), tornou-se um polo turístico, conhecido como “o flutuante dos botos”, onde as pessoas podem alimentá-los e banhar-se no rio (Freire, 2012).
Mas, a maioria dos ribeirinhos não tem uma relação amistosa com estes animais, cultivando uma imagem negativa, por influência das lendas a seu respeito.
O poder do mito encobrindo a violência sexual contra adolescentes
Segundo Hülsendeger (2016), corre uma lenda pela região amazônica, que nas noites das festas juninas, quando são celebrados Santo Antônio, São João e São Pedro, “um boto rosado aparece sob a forma de um belo rapaz, comportando-se como um galante cavalheiro, que conquista e encanta jovens bonitas.” Em algumas versões, depois de conquistar as jovens, as leva para o fundo do rio e desaparecem, em outras as engravida para depois abandoná-las.”
De Castro e Ribeiro (2022) mencionam que este mito, sobre uma entidade que habita os rios da Amazônia, conhecido como um grande sedutor, “tem muita força dentre as populações ribeirinhas e indígenas.” Contam que, no início da noite (não apenas das festas juninas), deixa sua aparência de boto, para transformar-se em “um rapaz alto, forte e bonito, vestido de branco, usando chapéu. (...) costumam aparecer nas casas onde vivem mulheres jovens e bonitas, aproveitando-se da ausência dos homens, seduzindo as moças, e que nenhuma delas consegue resistir ao seu encanto.”
Ribeirinhos, segundo Rocha, 2021 (apud De Castro e Ribeiro, 2022) são “uma junção dos colonos, índios, e imigrantes, que conseguiram resistir à transformação histórico-econômica, conseguindo manter os eixos principais das culturas dos seus antepassados indígenas.”
Fato é que, “mesmo sem sofrer qualquer dano relacionado ao boto-vermelho, a ideia desse mamífero ser um animal “malino” ganha espaço no meio cultural e vai sendo transmitido entre as gerações, ocasionando uma aversão” (Rodrigues, 2008 e Da Silva, Shepard, Carmo, 2017 apud Batista,2022).
Torres (2009 apud DE CASTRO, D.G., e RIBEIRO, 2022) menciona que a lenda do boto cor-de-rosa era usada, nos séculos passados, para “encobrir a luxúria e lasciva do clero, a libertinagem e abusos sexuais dos colonos e o incesto praticado por pais biológicos com suas filhas na tenra idade”. Henrique (2009 apud DE CASTRO, D.G., e RIBEIRO op. citi) descreve que essa tradição oral “vem sendo utilizada de diferentes maneiras, para encobrir uma relação extraconjugal, uma gravidez fora do casamento, ou até mesmo crimes como abuso sexual e estupro.”
Rodrigues (2015) entrevistou ribeirinhos de comunidades amazônicas, e a maioria expressou sentimentos negativos referentes aos botos-vermelhos, sendo o medo especialmente presente entre as meninas. Dentre os relatos recorrentes, quando uma moça engravida e não se tem conhecimento da paternidade, o “papel de pai” é atribuído aos botos-vermelhos. E ressalta:
(...) “Ademais, a lenda em que esse mamífero encantado “malina” das moças menstruadas, levando-os para a cidade encantada dos botos, afeta diretamente na rotina de jovens moças ribeirinhas, que deixam de utilizar embarcações para seu deslocamento, deixando de comparecer à escola ou sair de casa para não ter aproximação com o animal (Rodrigues, 2015).”
Coincidência ou não, os estados da região norte do Brasil, apresentam seis dos sete maiores índices do país sobre ocorrências de violência sexual a menores. Dados das Secretarias Estaduais de Defesa Social e da Segurança Pública, em 2018, registraram 35 casos de estupros a cada 100 mil habitantes, nas populações ribeirinhas, sendo 63,8% das vítimas menores de 14 anos, e 26,8% com até 9 anos (De Castro e Ribeiro, 2022).
Poderes afrodisíacos, comércio ilegal e isca de bagre
Tucuxi é o menor dos golfinhos (1,52 m de comprimento e cerca de 50 kg) e a única espécie a habitar ambiente dulcícola, é endêmico da Amazônia. A percepção socioambiental dos pescadores difere no tratamento dos botos vermelhos e desses golfinhos, quando capturados em redes de pesca. Da Silva, Shepard e Carmo (2017) citam que, quando isto ocorre com o tucuxi, eles são liberados sem sofrer maus tratos, diferentemente dos botos que são mortos a pauladas e sofrem mutilações.
A mutilação ocorre devido à outra crença, aos poderes afrodisíacos da sua genitália, usada para produção de amuletos, óleos, perfumes e poções. De Souza e Da Silva (2019) nos contam que estas mercadorias são vendidas nos mercados tradicionais de Manaus e de Belém, entre outros, junto às plantas e ervas medicinais, sendo as poções conhecidas como: “agarradinho”, “perfume da bota” e “dama da noite”. Sabe-se que também comercializam partes do tucuxi.
Nem todos ficam presos nas redes por acaso. O interesse pela caça do boto se agravou quando a carne deste mamífero passou a ser usada como isca para a pesca de um tipo de bagre, a piracatinga (Batista, 2022; Iriarte e Marmontel, 2013; De Souza e Da Silva, 2019, entre outros). Anteriormente, usavam carne de jacaré, e isso causou grande desequilíbrio ecológico na bacia amazônica, com aumento da população de piranhas e outros peixes carnívoros (Batista, 2007, apud De Souza e Da Silva, op. citi).
Para os ribeirinhos, este bagre é conhecido por “urubu-do-rio” ou “urubu d’água” por se alimentar de animais mortos. Nos mercados de peixe, supermercados e restaurantes é vendido e consumido com o pseudônimo de “filé de douradinha”, em Manaus e em outras capitais brasileiras (De Souza e Da Silva, 2019). Segundo Batista (2022), grande parte deste pescado “não é desembarcado em Manaus, é exportada diretamente para a Colômbia, sem controle”.
Agrava-se a situação pelo fato destes peixes, que vivem nos leitos dos rios, concentrarem elevados níveis de mercúrio, provenientes das atividades de garimpo, não sendo seu consumo recomendado pelos agentes de saúde.
Assim alerta a matéria publicada pelo G1, em 31.07.2014, com o seguinte título: “Piracatinga pode até matar (...). Alto índice de mercúrio no peixe pode levar até a morte, segundo especialistas (...). E, a matéria publicada em OESTADONET, em 30.05.2023, intitulada: “Peixes consumidos em seis cidades paraenses tem alto índice de contaminação por mercúrio, aponta pesquisa.”
Da Silva e Martin (2017 apud Batista, 2022) citaram que, “embora o governo brasileiro tenha proibido a pesca comercial deste bagre em 2015, nada mudou. Em julho de 2023, a portaria conjunta dos Ministérios da Pesca e Aquicultura, do Meio Ambiente e Mudança do Clima Nº 04/2023 “proíbe a pesca, armazenagem e comercialização da piracatinga, em todo o território nacional, visando proteger o boto cor-de-rosa, que está em risco de extinção” (MPA, 2023).
Além do que foi descrito, sem água, os botos não sobrevivem. O desequilíbrio ecológico da Amazônia ocorre na floresta desflorestada, e propaga-se para os rios que secam, não apenas por culpa do fenômeno El Niño, mas, também por desvios de suas águas para agropecuária, frigoríficos e garimpo.
Palavras finais
Para ressignificar a imagem do abominável boto cor-de-rosa, principalmente entre as jovens, é indispensável investir na conscientização socioambiental, associada com educação de saúde e bem-estar social. E, para salvar os botos e demais animais ameaçados da extinção? Uma nova “arca de Noé comandada por Jane Goodall tripulada apenas por quem realmente ama os animais?
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Referências consultadas
BATISTA, L. H. da SILVA. Saberes e hábitos tradicionais na preservação dos mamíferos aquáticos da Amazônia. Parintins/AM 2022. Revista Brasileira de Educação Ambiental. Disponível em: Saberes e hábitos tradicionais na preservação dos mamíferos aquáticos da Amazônia.pdf (uea.edu.br). Acessado em 09.02.2024.
DE CASTRO, D.G., e RIBEIRO, J.M. Do imaginário à exploração: a relação do boto-cor-de-rosa com a exploração sexual de crianças ribeirinhas. Revista de Iniciação Científica e Extensão da Faculdade de Direito de Franca. V.7. n.1 (2022). Publicado em 2023-11-07. Disponível em: Revista de Iniciação Científica e Extensão da Faculdade de Direito de Franca. Acessado em 09.02.2024.
De SOUZA, A.C.B. e Da SILVA, A.P.B. Um impacto ambiental iminente: a extinção dos botos na amazônia. VI Congresso Nacional de Educação – CONEDU. Disponível em: *PROPOSTA_EV127_MD4_ID6811_30092019114545.pdf (editorarealize.com.br)
FREIRE, R. Flutuante dos Botos em Novo Airão: o programa mais barato da Amazônia - Viaje na Viagem publicado em 2012, atualizado em 2024.
G1. Piracatinga pode até matar, alertam especialistas; tratamento veta leite. G1 - Piracatinga pode até matar, alertam especialistas; tratamento veta leite - notícias em Especial Publicitário – Hapvida (globo.com) 31.07.2014. Acessado em 14.02.2024.
GUIA DA SEMANA. 9 passeios imperdíveis em Manaus, no Amazonas. 24.06.2019. Disponível em: (9 passeios imperdíveis em Manaus, no Amazonas (guiadasemana.com.br) Acessado em 12.02.2024.
HÜLSENDEGER , M. Ficção e história: uma análise da obra "a resistível ascensão do boto tucuxi.” p. 98 in Linguagens: múltiplos olhares, múltiplos sentidos / Flávia Zanatta et al. (Orgs.) - Lajeado: Ed. da Univates, 2016. volume 3. 1ª Edição. (Linguagens; 3) 260 p. ISBN 978-85-8167-178-9. Disponível em: Linguagens-Multiplos-Olhares-Multiplos-Sentidos-Volume-3.pdf (researchgate.net)
IUCN. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. Disponível em: IUCN Red List of Threatened Species. Acessada em 12.02.2024.99.
OESTADONET. Peixes consumidos em seis cidades paraenses tem alto índice de contaminação por mercúrio, aponta pesquisa. Publicado em 30.05.2023, acessado em 16.02.2024. Disponível em: Peixes consumidos em seis cidades paraenses têm alto índice de contaminação por mercúrio, aponta pesquisa | Portal OESTADONET
MPA. Pesca da piracatinga proibida em todo o território nacional. Proibição expiraria em julho, mas Governo Federal a prorrogou para evitar a extinção do boto cor-de-rosa. Publicado em 03/07/2023 15h14 Atualizado em 05/07/2023 17h57. Disponível em: Pesca da piracatinga proibida em todo o território nacional — Ministério da Pesca e Aquicultura (www.gov.br)
RODRIGUES, A. L. F. Conhecimento etnozoológico de estudantes de escolas públicas sobre os mamíferos aquáticos que ocorrem na Amazônia. 2015. 166 f. Tese (Doutorado em Teoria e Pesquisa do Comportamento) - Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento, Universidade Federal do Pará, Belém, 2015. Disponível em: http://repositorio.ufpa.br/jspui/handle/2011/10467. Acesso em: 10.02.2024.