Canções ecológicas e animalistas na MPB: de Erasmo Carlos a Chico César – Parte 2

Erasmo Carlos e o Projeto Salva Terra

No início dos anos 70, década em que muitas vozes dissidentes foram silenciadas pela intolerância política, a busca da consciência ambiental ainda permanecia como anseio popular emergente, que replicava em setores representativos do país, como nas universidades, nos órgãos de imprensa e na classe artística de um modo geral. Apesar do alarme ecológico que fez soar a Conferência de Estocolmo, o Brasil, paradoxalmente, ainda assistia a desmandos contra a natureza, dentre os quais a perda da cobertura vegetal representada pela Mata Atlântica litorânea, a rodovia Transamazônica a entrecortar a maior floresta do mundo e a construção de usinas nucleares em Angra dos Reis, sem que houvesse qualquer mecanismo eficaz de licenciamento ambiental. A poluição atmosférica e a contaminação das águas, pela quase inexistência de leis ambientais, quase não eram reprimidas. 

No tocante à fauna silvestre, o desmatamento para fins diversos e a ação de caçadores profissionais colocaram em perigo espécimes silvestres como jacaré-do-papo-amarelo, arara-azul, mico-leão-dourado, tamanduá-bandeira e peixe-boi, dentre outras tantas incluídas nas listas do Ibama. Algo precisava ser feito, o quanto antes, para salvar o Brasil de um desastre ecológico sem precedentes. As sociedades protetoras, na época, clamavam solitárias pelo reconhecimento dos direitos animais. Mas, de modo surpreendente, quem mais se distinguiu nessa época conturbada da história política brasileira, para assumir na MPB uma postura engajada em favor da causa ambiental, foi o maior ídolo da Jovem Guarda e que, ao longo da década de 70, revelou todo seu potencial como cantor e compositor, cuja carreira solo fala por si:  Erasmo Carlos. 

Não seria demasiado dizer que, a exemplo do que se vê nas canções dos Beatles assinadas sempre por Lennon e McCartney, tudo leva a crer que a parceria Roberto e Erasmo Carlos decorreu de exigência contratual das gravadoras. Qualquer fã do famoso Quarteto de Liverpool sabe perfeitamente distinguir quais são as músicas de John e quais as de Paul, embora nos discos a autoria é sempre atribuída aos dois. Com Roberto e Erasmo ocorreu a mesma coisa, inexistindo entre os pesquisadores brasileiros um consenso acerca da verdadeira autoria de cada canção, ou seja, quem musicou ou escreveu o que. Tudo indica que um compunha e o outro assinava, salvo no que se refere às músicas reconhecidamente elaboradas a quatro mãos, de modo que a pesquisa autoral precisa seguir algumas pistas.          

Roberto é mais cantor, Erasmo mais compositor. Roberto é introspectivo, Erasmo é extrovertido. Roberto tem feição lírica, Erasmo é mais de ação. Roberto é mestre na interpretação, Erasmo mais músico. Roberto é intuitivo, Erasmo mais consciente. Roberto é do amor romântico, Erasmo do amor arrebatado. Ambos, entretanto, tendem para a busca da paz e do amor. Mas cabe aqui uma indagação crucial: em termos de preocupação ecológica, qual deles se distingue?  O conjunto da obra, pelo estilo de cada um, permite que se responda essa indagação sem pestanejar. Fica claro que a letra da canção acima transcrita (O Progresso) é de Erasmo Carlos, que na época da composição já desenvolvia carreira solo e avançava seu repertório também para temas ambientais.

Em 1974 Erasmo Carlos lançou o LP “1990 – Projeto Salva Terra”, no qual revela sua postura pacifista diante das perspectivas pouco animadoras que o futuro parecia reservar aos homens. A capa de Aldo Luiz traz como ilustração o rosto de Erasmo entre nuvens e um planeta em chamas. Trata-se de um disco extraordinário em que a sensibilidade do artista se manifesta em canções influenciadas pela filosofia existencialista. “Em 1990 a crise era demais / As pessoas enlatadas não lembravam mais de paz”, diz a faixa título. Na canção A Experiência sua proposta de comunhão com a pessoa amada simboliza a construção de um mundo novo: “Deixa que sua energia se misture com a minha / Creia que somos os primeiros seres do planeta”.  E na belíssima por Cima dos Aviões o compositor voa em direção ao sonho real que busca nos versos: “Ei você, que me vê / Esse tempo sabe lá agora vem de vez / Seja lá o que Deus quiser / Já que o resto só depende de você”.     

A principal música ecológica de Erasmo Carlos, contudo, não está no Projeto Salva Terra. Ela faz parte do LP Pelas Esquinas de Ipanema (1978) e se chama Panorama Ecológico.  Sua letra simultaneamente dura e poética e a ironia que o refrão faz em relação ao ser humano revelam um triste estado de coisas, tornando-a o que se pode chamar de a mais importante canção ambientalista lançada no país, pela mensagem e denúncia que contém. Esta obra-prima musical (assinada também por Roberto Carlos) permanece atualíssima no século XXI e fala por si:

Lá vem a temporada de flores

Trazendo begônias aflitas

Petúnias cansadas

Rosas malditas

Prímulas despetaladas

Margaridas sem miolo

Sempre-vivas quase mortas

E cravinas tortas

Odoratas com defeitos

E homens perfeitos

Lá vem a temporada de pássaros

Trazendo águias rasteiras

Graúnas malvadas

Pombas guerreiras

Canários pelados

Andorinhas de rapina

Sanhaços morgados

E pardais viciados

Curiós desafinados

E homens imaculados 

Lá vem a temporada de peixes

Trazendo garoupas suadas

Piranhas dormentes

Sardinhas inchadas

Trutas desiludidas

Tainhas abrutalhadas

Baleias entupidas

E lagostas afogadas

Barracudas deprimentes

E homens inteligentes.

Não tardou para que Roberto Carlos, em seu LP de 1981, lançasse como faixa principal a canção As Baleias, em parceria com Erasmo Carlos, cuja mensagem denunciava o massacre comercial dos cetáceos nos oceanos. O disco vendeu mais de 2 milhões de cópias, fazendo com que a sociedade despertasse para o problema que ainda acontecia também no Brasil, mais exatamente na praia do Costinha, na Paraíba.  Em resposta à campanha que foi deflagrada em defesa dos animais, alavancada pela popularidade da referida canção, a Assembleia Legislativa aprovou a Lei dos Cetáceos, em 1987, colocando fim à caça das baleias nas águas territoriais brasileiras. Eis alguns trechos da canção:

Seus netos não te perguntar em poucos anos 

Pelas baleias que cruzavam oceanos

Que eles viram em velhos livros ou nos filmes

dos arquivos dos programas de televisão 

O gosto amargo do silêncio em sua boca

Vai te levar de volta ao mar e à fúria louca

De uma cauda exposta aos ventos

Em seus últimos momentos

Relembrada num troféu em forma de arpão 

É preciso registar, por fim, que em fevereiro de 2023 a memória de Erasmo Carlos foi homenageada com o Prêmio United Earth Amazônia, pelo conjunto de sua obra que demonstra preocupação com a ecologia, como se vê nas canções O progresso, Panorama Ecológico e As Baleias. Nessa mesma ocasião Roberto Carlos, que se fez presente à solenidade e, também, recebeu o prêmio, cantou uma música nova intitulada Amazônia (“Quem desmata, mata / Não sabe o que faz”).  

Canções pontuais de artistas consagrados


Chico Buarque de Holanda é um artista multifacetado que transitou magistralmente por gêneros musicais diversificados, com ênfase para o samba e a bossa nova. Um artista completo. Depois de um promissor início de carreira, ao vencer o Festival da MPB de 1966, lançou discos antológicos e estabeleceu festejadas parcerias, nas quais se distinguiu pela sutil abordagem das questões político-sociais que afligiam o país e, acima de tudo, por sua singular capacidade de radiografar a alma feminina, produzindo canções atemporais e de extraordinária beleza. Ele também musicou e redigiu peças de teatro, compôs trilhas sonoras para o cinema, escreveu romances premiados pela crítica especializada e se consagrou na literatura, tanto que em 2019 recebeu o Prêmio Camões.   

Não há como deixar de dizer que, ao longo de sua trajetória musical, Chico Buarque compôs para o filme A Noiva da Cidade (1978, direção de Alex Viany), a canção Passaredo, em que dialoga com aves brasileiras das mais diversas – pintassilgo, melro, uirapuru, engole-vento, saíra, inhambu, patativa, tuim, rouxinol, coleiro, trigueiro, colibri, macuco, utiariti – alertando-as da ameaçadora presença humana: “Foge asa-branca / Vai, patativa / Xô , rouxinol sem fim / Some, coleiro / Anda, trigueiro / Te esconde, colibri / Voa, macuco / Voa, Viúva / Utiartiti / Bico calado / Toma cuidado / Que o homem vem aí / O homem vem aí” . É interessante notar o viés ecológico dessa música, que remonta à época em que os pássaros silvestres já sofriam constantes perseguições e capturas para fins de comercialização interna ou tráfico internacional. 

Em 1981, também durante festival de MPB, foi a vez de Guilherme Arantes conquistar a plateia com uma apresentação musical épica. A canção Planeta Água, embora tenha ficado em segundo lugar na competição, foi ovacionada pelo público e se tornou símbolo da defesa do meio ambiente. Sua letra, que suscita o despertar da consciência ambiental, exalta as águas do planeta e celebra mares, rios, lagos, fontes, ribeirões, igarapés e cascatas, mostrando a importância de protegê-las dos desmandos humanos. Foi considerada um hino ecológico que se fez ouvir no mesmo ano da implementação da Política Nacional do Meio Ambiente, cuja lei deu início ao Direito Ambiental no país.  

Se de um lado Guilherme Arantes celebrou os recursos hídricos, enfatizando a importância da preservação das águas para a sobrevivência dos seres vivos, a flora em seu processo de fotossíntese foi cantada por Caetano Veloso em uma das mais belas composições da MPB. Trata-se de Luz do Sol, feita originalmente para servir de trilha sonora ao filme Índia, A Filha do Sol (1982, direção Fábio Barreto). Poesia e natureza se fundem e entram em comunhão na canção de Caetano:

 Luz do sol que a folha traga e traduz  

 Em verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz 

 Céu azul que vem até onde os pés tocam a terra 

 E a terra inspira e exala seus azuis 

 Reza, reza o rio, córrego pro rio e o rio pro mar 

 Reza a correnteza, roça a beira, doura a areia 

 Marcha o homem sobre o chão, leva no coração uma ferida acesa 

 Dono do sim e do não diante da visão da infinita beleza

 Finda por ferir com a mão essa delicadeza, a coisa mais querida 

 A glória, da vida.


Bem mais à frente, já em 2002, é a vez de Toquinho dar uma valiosa contribuição para a causa ambiental, ao compor com Elifas Andreato a canção de abertura do Projeto Guri transcorrido naquele ano. A música Herdeiros do Futuro, que teve o acompanhamento de Orquestra e Coro das próprias crianças do projeto social, traz um conteúdo ecológico voltado à importância da preservação ambiental e proteção da natureza, para que nada se perca: “Será que no futuro haverá flores? / Será que os peixes vão estar no mar? / E os passarinhos vão poder voar? / Será que a terra vai seguir nos dando / o fruto, a folha, o caule e a raiz? / Vamos ter que cuidar bem desse país”. 

Surge agora uma pergunta que não quer calar: e no tocante aos animais domésticos, houve a mesma preocupação? Não se pode esquecer daquele verso bucólico de Casa no Campo, quando Zé Rodrix escreveu “Eu quero carneiros e cabras / Pastando solenes em meu jardim”. Especificamente a um dos mais queridos animais de companhia, que é o cão, resta indagar se existe algo digno de nota na MPB. Sabe-se que na primeira estrofe de O Portão Roberto Carlos cantou “Eu cheguei em frente ao portão / Meu cachorro me sorriu latindo”. Mas o fato é que, afora esta menção, existe pouca coisa referente ao animal ele próprio, sem metáforas ou alegorias. 

Cabe dizer, a propósito, que dois artistas consagrados nos anos 70 referem-se a cães no título de suas músicas, Raul Seixas (Cachorro Urubu) e Belchior (Populus). Sucede que nestas primorosas letras a menção aos animais é apenas em sentido figurado, representando ou um índio da tribo Sioux ou o povo oprimido, respectivamente. Mas se existe alguém que, de fato, falou do cão como um ser sensível e amoroso, esse alguém é Rita Lee da época de Os Mutantes (1972), quando compôs, em parceria com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, a canção Vida de Cachorro:  


Vamos embora, companheiro, vamos

Eles estão por fora do que eu sinto por você

Me dê sua pata peluda, vamos passear sentindo o cheiro da rua

Me lamba o rosto, meu querido, lamba

E diga que também você me ama

Eu quero ver seu rabo abanando

Vamos ficar sem coleira

Vamos ter cinco lindos cachorrinhos

Até que a morte nos separe, meu amor

LAERTE LEVAI

Jornalista ambiental (DRT nº 96682/SP) e associado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (matrícula nº 23.466). Atuou por mais de três décadas no Ministério Público do Estado de São Paulo, como Promotor de Justiça em São José dos Campos e, depois, no Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (GAEMA Paraíba do Sul), até se aposentar. É pesquisador do Núcleo Ética e Direito Animal, do Diversitas (FFLCH/USP) e do Núcleo Interdisciplinar de Ensino, Pesquisa e Extensão em Direitos dos Animais, Meio Ambiente e Pós-humanismo (UFBA).

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