A importância de questionar o especismo
É surpreendente e preocupante o quão reduzida é hoje a discussão sobre o especismo, e como essa discussão é substituída por outras, o que acaba por gerar efeitos muitos negativos. Neste artigo será argumentado que esse é um erro grave. Veremos algumas razões pelas quais a discussão sobre o especismo deveria ser central (especialmente entre pessoas que defendem os animais). Veremos também algumas maneiras pelas quais o especismo pode ser questionado.
O especismo é a discriminação de quem não pertence a uma certa espécie ou grupo de espécies. A grande maioria dos seres humanos é especista, e não se questionam sobre isso. De fato, há diferentes tipos de especismo. O mais comum é o chamado especismo antropocêntrico, que discrimina o conjunto dos animais não humanos. Mas, além desse especismo antropocêntrico, há também outros. Muitos animais não humanos são discriminados em comparação com animais de outras espécies por não terem um porte grande, por pertencer a espécies numerosas, por não ter uma aparência que os seres humanos achem estética, por serem tipicamente utilizados como comida e por outros muitos motivos. Todas estas formas de discriminação são também tipos de especismo.
A cifra total desses animais é em muitas ordens de magnitude maior do que a dos seres humanos que existem. Isso faz com que o especismo seja a discriminação (ou tipo de discriminação) que mais vítimas tem. E as vítimas do especismo podem sofrer de maneira muito significativa, devido a este. Por isso tudo, deveria ser muito mais discutido do que é.
Isso é especialmente problemático devido a que, incrivelmente, o especismo também não é muito discutido mesmo entre as pessoas que defendem os animais. Essas pessoas empregam conceitos diferentes ao desenhar as suas mensagens para o público ao que se dirigem, e mesmo também ao formular os seus próprios esquemas mentais sobre como acham que é a realidade dos animais.
Consequentemente, essas pessoas fazem, por exemplo, apelos à simpatia pelos animais, ou falam da crueldade ou de quão desnecessária é a exploração animal, ou utilizam outras ideias semelhantes que não incluem a ideia de o que se faz contra os animais faça parte de um sistema comum de atitudes e estruturas especistas. Essas ideias podem ajudar a entender que há algo de errado nas nossas atitudes em relação aos animais, mas não o suficiente para enxergar até que ponto isso é importante e deveria levar a uma mudança em nossas prioridades.
Por que é problemático não questionar o especismo?
Há várias razões pelas quais o especismo realmente deveria ser questionado em profundidade, as quais veremos a seguir.
Falta de justificativa. A primeira razão é muito básica. O especismo, e não só as suas expressões mais visíveis, carece de justificativa. Por isso, os padrões generalizados de discriminação especista deveriam ser rejeitados.
O especismo explica a exploração animal. O especismo é uma estrutura sistemática. Estudar essa estrutura é necessário para compreender adequadamente as causas pelas quais muitos animais sofrem e morrem hoje. Nem todos os danos que os seres humanos causam os animais são daqueles tipos mais extremos: há muitas formas distintas de exploração animal. Por isso, o questionamento do especismo ajuda a rejeitar não só essas formas extremas de dano, mas todas as demais causadas pelos seres humanos aos animais de outras espécies.
Ajuda a animais em situação de necessidade. O especismo não tem uma só consequência, mas muitas. Para além de ser a base da exploração animal, que tem a ver com aquilo que fazemos contra os animais não humanos para nos beneficiar, os seres humanos também podem causar os animais danos indiretos por indiferença. Isto acontece, por exemplo, quando danos são causados aos animais selvagens pelo cultivo de comida, mesmo que essa comida seja vegana.
Aliás, há muitas situações em que os animais sofrem de maneira muito terrível por razões naturais (fome, enfermidade, condições climáticas, conflitos, acidentes, etc.) sem receber nenhuma ajuda, ainda que isso seria possível. Se fossem seres humanos seriam ajudados. Muitas pessoas, também entre as que defendem os animais, não estão cientes disso.
Também há muitas pessoas que, mesmo sendo veganas, fazem voluntariado ou ações de ativismo para ajudar seres humanos e não fazem o mesmo para ajudar animais não humanos. Essas são, todas elas, formas especistas de atuar. Por isso é que é muito importante questionar o especismo, e não olhar apenas para as formas mais visíveis de exploração animal.
Uma ética mais adequada para todos os seres sencientes. O especismo fornece uma base para estender a consideração moral a todos os seres sencientes. Essa é a base de uma ética mais correta, e que pode nos ajudar a enfrentar novos desafios no futuro, evitando novos riscos de sofrimento massivo.
É assim muito importante que quem deseja defender os animais não humanos conheça e leve muito a sério os argumentos contra o especismo. É muito grave que a situação atual não seja assim. Por que isso não acontece? Há, sem dúvida, distintas razões para isso, mas uma muito importante é que a maioria das pessoas é especista, inclusive pessoas que defendem os animais. Isso ocorre, pois muitas pessoas acham que os animais devem ser respeitados, mas não como o são os seres humanos. Isso acontece também entre pessoas veganas, claro, de maneira semelhante a como alguém pode discriminar outros seres humanos, mesmo sendo contra seu assassinato, por exemplo.
Como é que se pode questionar o especismo?
Há maneiras muito diferentes pelas quais o especismo pode ser questionado. Isso pode ser feito de qualquer modo que leve alguém a considerar os interesses dos animais de uma maneira em que não havia feito antes, e especialmente, a entender que esses interesses deveriam ser considerados de modo igual aos dos seres humanos. Isso pode ser feito muitas vezes sem utilizar argumentos, por exemplo, mediante narrativas ou materiais audiovisuais. Mas é necessário também que exista uma mensagem, mesmo que esta não seja empregada todas as vezes em que o especismo é questionado, com os argumentos pelos quais ele é incorreto. Isso ocorre porque que em muitas situações essa será a única maneira pela qual o especismo pode ser questionado. Acontece assim em contextos em que se debate sobre as razões para agir de uma maneira ou outra.
Existem vários argumentos muito sólidos para rejeitar o especismo, particularmente a sua forma mais comum, o antropocentrismo. Os seguintes são alguns dos que têm sido mais empregados para isso:
Falta de relevância. A espécie de um indivíduo não tem nenhuma relação com aquilo que importa para que seja considerado como alguém. Também não é relevante para isso o quão inteligente alguém seja, ou as relações que esse indivíduo tem com outros indivíduos. Ser alguém consiste em levar em consideração se podemos prejudicar ou beneficiar esse alguém quando agimos de uma maneira ou outra. E para isso, é suficiente observar se esse ser é capaz de sentir e sofrer.
Neste sentido, torna-se relevante a senciência, que é a capacidade de ter experiências que podem ser positivas ou negativas. É isso é o que importa moralmente. Por isso, é uma forma de discriminação não dar a mesma consideração a seres que podem sofrer igualmente diante de uma certa situação.
Falta de imparcialidade. Quando pensamos imparcialmente sobre o especismo – sem interferências de preconceitos ou interesses pessoais – vemos que não há justificativa moralmente relevante para favorecer membros de uma espécie em detrimento de outra. A reflexão imparcial exige a rejeição da discriminação injustificada. E o trato e consideração desfavorável dos animais que não pertencem a uma certa espécie é injustificável. Isso pode nos levar a ver que as nossas atitudes em relação os animais são especistas e devemos rejeitá-las. As ideias subjacentes a esse argumento são, portanto, duas:
(1) para que uma decisão sobre uma questão de justiça seja adequada, ela deve ser tomada de forma imparcial;
(2) ao refletir sobre o especismo sob ponto de vista imparcial, chegar-se-á à conclusão de é errado conceder uma consideração desigual a interesses de indivíduos de espécies diferentes apenas por este motivo.
Superposição de espécies. As posições especistas são habitualmente defendidas sob o argumento de que somente os seres humanos preenchem certas condições especiais, como possuir uma inteligência muito complexa. Mas nem todos os seres humanos atendem a essas condições. Por exemplo, minhas habilidades cognitivas quando eu era bebê eram inferiores às de muitos animais, e se em algum momento da vida adulta eu sofresse danos cerebrais - por exemplo, devido a um acidente - essa situação poderia se repetir. No entanto, todo mundo (ou pelo menos a grande maioria de nós) entende que o respeito total deve ser dado a todos os seres humanos. Isso deixa claro que tais condições devem ser irrelevantes quando se trata de dar total respeito a alguém. Portanto, elas não podem ser válidas para justificar a ausência de respeito aos animais.
Esses não são os únicos argumentos contra o especismo. Mas são suficientes para concluir que devemos rejeitá-lo. Isto, além das consequências tão graves trazidas pelo especismo no mundo real, resulta em imenso sofrimento e outros danos para bilhões de animais. Sendo isso assim, parece que já é o momento de mudar a situação atual e começar a levar a sério o seu questionamento no ativismo pela defesa dos animais.