Entrevista com Luciana Imaculada de Paula
15 de setembro de 2026
“Quando uma sociedade começa a reconhecer que a dor de outro ser importa por si mesma, começa também a ampliar os limites de sua própria ideia de Justiça.”
Promotora de Justiça na Coordenadoria Estadual de Defesa dos Animais-CEDA, do Ministério Público de Minas Gerais, Luciana Imaculada de Paula realiza desde 2011 um minucioso trabalho jurídico voltado à defesa animal que alcança mais de uma centena de municípios do território mineiro. Sua atuação é considerada exemplar pelo fato de cumprir rigorosamente o dever de proteção estabelecido na Constituição Federal, não apenas pela função ecossistêmica da fauna, mas por reconhecer que os animais são seres sencientes e detentores de direitos básicos. Partindo deste princípio, sua Coordenadoria vem ampliando o próprio âmbito de atuação para conscientizar as pessoas e, assim, enfrentar as múltiplas formas de violência cometidas contra os animais.
O Jus Animalis apresenta aos leitores esta que é uma das maiores animalistas do país, haja vista sua empatia para com os bichos, a atribuição temática que desenvolve no MPMG e sua especialização acadêmica na área do meio ambiente e do bem-estar animal. Mestre em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Ouro Preto e doutora em Ciência Animal pela Escola de Veterinária da UFMG, Luciana Imaculada de Paula tem se aprimorado cada vez mais para melhor exercer seu trabalho no Ministério Público de seu estado e colocar em prática o Direito Animal. Nesta entrevista ela fala da atuação como promotora de Justiça, da estrutura da CEDA, dos projetos desenvolvidos e das estratégias adotadas em favor da efetividade do Direito Animal.
Ela também conta um pouco de sua trajetória de vida e como se tornou coordenadora do mais importante núcleo regional de proteção animal do país, haja vista que, em se tratando de tutela jurídica dos animais, o Ministério Público de Minas Gerais passou a ser o mais avançado em todo o território brasileiro. Temas como controle populacional de cães e gatos, combate à caça de espécies silvestres, substituição de charretes turísticas por veículos motorizados, ecologia de estradas, educação animalista, dentre outros igualmente importantes, fazem parte das ações da CEDA. O Jus Animalis agradece imensamente à Luciana Imaculada de Paula por ser a protagonista de um avanço institucional que poderia inspirar o Ministério Público em todo o Brasil. Que assim seja!
Jus Animalis – O idealismo e o empenho pela causa da justiça, ao longo de sua carreira no Ministério Público, são notórios. Só o fato de estar trabalhando para resguardar os direitos dos animais já indica uma singular vocação. De onde veio tamanha sensibilidade pelo meio ambiente e em favor da vida animal? Acaso ela influenciou na escolha de sua profissão? Conte um pouco de sua trajetória de vida e o ingresso no MPMG.
Luciana Imaculada de Paula - Nasci em Alpinópolis, no interior de Minas Gerais, onde passei minha infância. A leitura sempre esteve muito presente na minha vida e, talvez por isso, o Direito tenha surgido cedo como uma possibilidade. Cursei Direito em Passos, conciliando a faculdade com o trabalho e, mais tarde, com o estágio na Promotoria de Justiça de Alpinópolis. Foi nesse período que comecei a compreender que a vida jurídica ultrapassa o domínio da lei e da doutrina e encontra seu sentido na realização dos princípios e valores que fundamentam a ordem jurídica, entre eles a proteção da dignidade dos mais vulneráveis. Concluída a graduação em Direito, mudei-me para Belo Horizonte com o propósito de me preparar para o concurso do Ministério Público. Ingressei primeiro na Advocacia-Geral da União, como Procuradora Federal, e, após, no Ministério Público de Minas Gerais.
A minha aproximação mais profunda com a causa animal ocorreu já durante o meu exercício profissional. Quando atuava como Coordenadora Regional na antiga Promotoria do Rio São Francisco em Divinópolis, participei de fiscalizações em abatedouros e fiquei muito sensibilizada com as condições a que eram submetidos os animais. Aquilo produziu em mim uma mudança importante: pela primeira vez, percebi de forma muito concreta como nossas escolhas alimentares podem resultar em sofrimento para os outros animais. Naquela mesma ocasião tomei a decisão de me tornar vegetariana.
Em seguida, encontrei na pequena biblioteca do gabinete um livro da professora Edna Cardozo Dias, pioneira do Direito Animal em Minas Gerais. A leitura ampliou ainda mais aquela percepção e me levou a estudar o tema com profundidade e a passar, de modo mais sistemático, a perceber oportunidades de defender os animais na minha lida como Promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente. O meu encontro com o Direito Animal ocorreu, portanto, no exercício das funções do Ministério Público, e, desde então, ele passou a fazer parte da minha vida.
Jus Animalis – Seu percurso acadêmico transita entre o universo jurídico e o conhecimento técnico especializado, algo admirável quando se atua em áreas multidisciplinares como a ambiental ou a animalista. Fale a respeito dos cursos de pós-graduação que escolheu fazer e de que maneira eles têm ajudado a ampliar seu campo de visão no exercício das funções de Promotora de Justiça.
Luciana Imaculada de Paula - Minha formação jurídica sempre me mostrou a importância do Direito como instrumento de transformação social, mas a experiência profissional também me ensinou seus limites. A complexidade das questões ambientais, especialmente das relacionadas à proteção animal, exige uma abordagem interdisciplinar, capaz de reunir diferentes áreas do conhecimento.
O mestrado em Engenharia Ambiental, concluído na Universidade Federal de Ouro Preto, ampliou muito minha compreensão sobre a complexidade e a interdependência dos sistemas ambientais e sobre a necessidade de considerar as múltiplas relações que os constituem. Posteriormente, já atuando diretamente na proteção animal, percebi a necessidade de aprofundar minha compreensão e de incorporar instrumentos científicos capazes de qualificá-la. Foi essa inquietação que me conduziu ao doutorado em Ciência Animal, na Escola de Veterinária da UFMG.
Essa aproximação entre áreas mudou profundamente minha forma de trabalhar, pois se o Direito define os interesses e valores juridicamente protegidos, o conhecimento científico ajuda a compreender as dinâmicas que envolvem os seres alcançados por essa proteção. Em matéria de proteção animal, a interdisciplinaridade é, muitas vezes, condição para uma decisão jurídica tecnicamente qualificada e adequadamente fundamentada.
Jus Animalis – No campo da tutela jurídica dos animais, o modelo de atuação adotado pelo Ministério Público de Minas Gerais é, sem dúvida, o mais avançado do país. Quando e como surgiu a ideia da criação do Grupo Especial de Defesa da Fauna e o que o fez se transformar na Coordenadoria Estadual de Defesa dos Animais (CEDA)? Como funciona a CEDA, que estrutura possui e qual sua abrangência territorial?
Luciana Imaculada de Paula - A experiência mineira nasceu da percepção de uma dificuldade bastante concreta. A defesa do meio ambiente é uma área extremamente abrangente e os conflitos que nela se inserem muitas vezes ultrapassam os limites territoriais das comarcas e exigem conhecimentos especializados. Essa realidade levou o Ministério Público de Minas Gerais a investir progressivamente em modelos de atuação regional e especializada.
Essa orientação dialoga com a reflexão do Ministro Herman Benjamin sobre os limites de uma atuação ambiental excessivamente generalista e isolada. Como caminho de aperfeiçoamento, ele propôs a criação de Promotorias de Justiça Regionais por ecossistemas ou bacias hidrográficas e, para temas mais específicos, aquilo que denominou “especialização na especialização”. Em Minas Gerais, essa concepção encontrou expressão já em 2001, com a criação da Promotoria de Justiça do Rio São Francisco, modelo posteriormente expandido para as demais bacias hidrográficas do Estado.
Foi nesse percurso que também se evidenciou a necessidade de uma atuação própria em defesa dos animais, matéria que reúne especificidades jurídicas, biológicas e médico-veterinárias e demanda conhecimento técnico especializado. A interlocução com a sociedade civil organizada também contribuiu para revelar a necessidade de uma estrutura institucional mais dedicada a esse campo.
Em 2011, foi criado o Grupo Especial de Defesa da Fauna – GEDEF, que era ainda uma estrutura formada por membros e servidores que acumulavam essa atuação com suas funções originárias. A experiência demonstrou sua utilidade e, em 2017, o grupo foi transformado em uma Coordenadoria, com estrutura própria, coordenação em dedicação exclusiva e apoio técnico e jurídico especializado.
Em novembro de 2021, passou a ser denominada Coordenadoria Estadual de Defesa dos Animais – CEDA, mudança que refletiu uma evolução conceitual. A noção de “fauna” evidencia a dimensão coletiva e ecológica dos animais, enquanto a expressão “defesa dos animais” incorpora também o indivíduo senciente e sua proteção contra a crueldade. A alteração acompanhou, assim, uma transformação mais ampla em curso na ciência, no Direito e na própria sociedade.
Hoje, a CEDA integra o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente do MPMG e atua em todo o território mineiro como órgão de apoio às Promotorias de Justiça, preservada a independência funcional dos órgãos de execução. A sua função é oferecer suporte especializado: produzir roteiros e modelos de atuação, promover capacitações, articular parcerias, viabilizar perícias e aproximar conhecimentos jurídicos, médico-veterinários e biológicos das demandas concretas.
Jus Animalis – A CEDA idealizou, no Ministério Público mineiro, um projeto denominado PRODEVIDA, que é o Programa Regional em Defesa da Vida Animal. Sabemos que para auxiliar os animais em situação de risco ou vulnerabilidade, muitas vezes as melhores estratégias são regionais. Como esse programa enfrenta o problema da superpopulação de cães e gatos em áreas urbanas e de que modo os municípios participam?
Luciana Imaculada de Paula - O PRODEVIDA foi estruturado a partir da percepção das dificuldades dos municípios em transformar as diretrizes de manejo populacional de cães e gatos em políticas públicas permanentes. Por se tratar de um problema multifatorial, sua abordagem exige ações contínuas, integradas e tecnicamente fundamentadas, cuja implementação depende de recursos, capacitação técnica e articulação com a sociedade.
Nesse contexto, o PRODEVIDA busca apoiar os municípios na implementação das medidas já previstas na legislação federal e estadual, como controle reprodutivo, identificação e registro, educação para a tutela responsável, prevenção do abandono e fiscalização da reprodução e da comercialização, favorecendo sua consolidação como políticas públicas permanentes, sob a perspectiva da Saúde Única.
A adesão é voluntária e formalizada por Termo de Compromisso Positivo – TCP, instrumento com natureza de termo de ajustamento de conduta pelo qual o município assume as medidas necessárias à estruturação da política pública. A solução consensual também permite encerrar procedimentos investigatórios e, quando cabível, ações civis públicas relacionadas ao tema.
Aos municípios aderentes é oferecida capacitação gratuita, em parceria com o Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo – IMVC, além do apoio da CEDA na busca de recursos perante o Fundo Especial do Ministério Público do Estado de Minas Gerais – FUNEMP e a Plataforma Semente. A atuação regional, por meio de consórcios e outros arranjos intermunicipais, permite compartilhar estruturas e reduzir custos, tendo viabilizado 23 castramóveis para uso compartilhado entre os municípios. Em articulação com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – SEMAD, o programa passou também a apoiar a identificação e o registro dos animais por meio da distribuição de microchips aos municípios.
Até setembro de 2026, 394 municípios mineiros já haviam aderido ao programa, consolidando uma rede crescente de políticas públicas permanentes voltadas ao bem-estar animal e à Saúde Única.
Os compromissos assumidos pelos municípios também permitem dimensionar o alcance do programa. Em junho de 2026, os acordos celebrados previam potencialmente 238.832 castrações de cães e gatos por ano. Além disso, mais de 200 desses municípios conseguiram implementar legislação própria sobre manejo populacional ou proteção animal, contribuindo para a formação de microssistemas locais de proteção animal e para a institucionalização dessas políticas para além de gestões específicas.
Jus Animalis – Assunto recente que repercutiu no país foi a iniciativa da CEDA para a substituição das charretes turísticas movidas a tração animal, na cidade histórica de Tiradentes, por veículos motorizados. Sinta-se à vontade para comentar essa conquista extraordinária que desafia uma tradição cultural secular – e, ao mesmo tempo, cruel –, em defesa dos equídeos, mostrando como o MPMG conseguiu vencer as resistências.
Luciana Imaculada de Paula - Os equídeos acompanham a história de Tiradentes desde o período colonial, quando eram explorados nas mais diversas atividades econômicas. Hoje, essa exploração persiste sobretudo no turismo, por meio das charretes, que se tornaram fonte de renda para muitas famílias, mas mantêm os animais submetidos ao trabalho de tração, com impactos relevantes sobre seu bem-estar.
O desafio era construir uma transição que protegesse efetivamente os animais e, ao mesmo tempo, considerasse a realidade econômica das famílias que dependiam da atividade e o lugar que as charretes haviam ocupado, ao longo do tempo, na paisagem cultural e turística de Tiradentes.
O caminho foi construído pelo diálogo no próprio âmbito da ação civil pública ajuizada pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (FNDPA), que se tornou espaço para a construção consensual da transição, articulada pelo MPMG, por meio da CEDA e da Promotoria de Justiça de São João del-Rei, com o Município, a Associação dos Charreteiros, o Instituto Arbo e o próprio Fórum.
A transição começou com o desenvolvimento de um protótipo de charrete elétrica, que permitiu testar a solução, ouvir os trabalhadores, realizar ajustes e demonstrar sua viabilidade técnica e econômica. A partir do êxito dessa experiência, foram viabilizadas as dez primeiras charretes elétricas e iniciada a retirada dos cavalos da atividade de tração, com sua destinação a adotantes selecionados. Em setembro de 2026, 19 cavalos já haviam sido adotados, com acompanhamento posterior. Tanto o protótipo quanto essa primeira etapa da substituição e da adoção foram custeados com recursos de medidas compensatórias destinados pelo MPMG por meio da Plataforma Semente.
Há, ainda, uma dimensão pedagógica que considero muito relevante. Quando a exploração de um animal se incorpora à paisagem cotidiana, corremos o risco de deixar de percebê-la. A substituição da força animal pela tecnologia ajuda a restituir a visibilidade da condição do cavalo como ser senciente. E demonstra que tradição e evolução podem caminhar juntas: é possível preservar a identidade turística, o trabalho e a memória de uma cidade e, ao mesmo tempo, elevar o padrão ético de nossa relação com os animais.
Prosseguimos nos esforços para viabilizar a substituição das demais charretes e a adoção responsável dos respectivos cavalos. Já estão assegurados recursos para outras dez unidades elétricas, que permitirão avançar em uma nova etapa da transição, com a retirada de mais vinte animais da atividade de tração.
Jus Animalis – E no tocante à fauna nativa, que principais ações pode distinguir no trabalho da CEDA em relação à caça e suas conexões com o crime organizado? Quando os bichos vítimas de crime são apreendidos ou sobrevivem, há dificuldades para conseguir destinação, acolhida, tratamento e reabilitação, até que eles possam ser reintroduzidos na natureza? E os galos apreendidos em rinhas, para onde vão?
Luciana Imaculada de Paula - Na proteção da fauna silvestre, uma mudança de perspectiva fundamental é deixar de enxergar o tráfico apenas a partir do animal encontrado em uma gaiola. A posse irregular ou o transporte podem ser apenas o primeiro elo de uma estrutura que envolve captadores, transportadores, intermediários, receptadores, comércio clandestino, fluxos financeiros e delitos associados.
É essa compreensão que orienta o Projeto Libertas, desenvolvido pela Abrampa em parceria com a Freeland Brasil e coordenado pelo MPMG, por meio da CEDA. A iniciativa busca ampliar o olhar investigativo sobre o tráfico, identificando rotas, conexões, agentes e delitos associados, e fortalecer a atuação em rede. Dessa articulação resultaram, entre outras ações, o Manual de Combate ao Tráfico de Animais da Fauna Silvestre Brasileira, publicado em parceria com o CNMP, e a Operação Libertas, deflagrada em 2025, que mobilizou Ministérios Públicos, forças policiais e órgãos de fiscalização de onze estados, alcançou 84 alvos e resgatou 755 animais.
Há, entretanto, uma segunda dificuldade tão importante quanto reprimir o tráfico: o destino do animal apreendido. O art. 25 da Lei de Crimes Ambientais e a orientação firmada pelo STF na ADPF 640 reforçam que a apreensão do animal vítima de crime ambiental deve significar proteção efetiva.
Por essa razão, a CEDA tem fomentado, junto ao Instituto Estadual de Florestas, a ampliação da rede de centros de triagem e reabilitação em diferentes localidades de Minas Gerais, entre elas, Divinópolis, Patos de Minas, Paracatu, Uberlândia, Governador Valadares e Lavras.
Essas estruturas permitem que a apreensão seja o início de uma trajetória efetiva de proteção: avaliação, tratamento e reabilitação e, para os animais silvestres, sempre que tecnicamente possível, o retorno à natureza. Afinal, protegê-los não significa apenas assegurar sua sobrevivência, mas permitir que recuperem a liberdade, expressem os comportamentos próprios de sua espécie e possam, finalmente, viver uma vida que valha a pena ser vivida.
O mesmo desafio se apresenta em relação às centenas de galos apreendidos anualmente em Minas Gerais pela prática de rinha. A parceria com o Centro Universitário de Formiga – UNIFOR-MG permitiu desenvolver uma metodologia de ressocialização desses animais, com avaliação de saúde e comportamento, cuidados veterinários, reintrodução gradual à convivência com outros indivíduos da espécie e posterior destinação responsável. Essa experiência também deu origem ao Guia “Políticas de conduta no procedimento de ressocialização de galos explorados em rinha”, publicado pelo MPMG em 2023, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Jus Animalis – Outra situação dramática para a vida animal diz respeito aos atropelamentos, que acarretam grandes índices de mortandade. Considerando que o estado de Minas Gerais é pioneiro nos estudos acadêmicos de Ecologia de Estradas, o que se pode fazer para exigir medidas mitigatórias de atropelamento de fauna em um estado tão amplo? De que modo a CEDA tem lidado com esse gigantesco problema?
Luciana Imaculada de Paula - Minas Gerais tem a maior malha rodoviária do Brasil e abriga uma fauna de extraordinária diversidade, combinação que torna os atropelamentos de animais silvestres um problema de grande escala no Estado.
O BioInfra é um diagnóstico técnico voltado à identificação de trechos críticos de atropelamento e das medidas de mitigação existentes nas rodovias mineiras. A partir dessas informações, o Ministério Público pode definir prioridades de atuação e cobrar dos responsáveis pela via a adoção das medidas adequadas a cada trecho.
Um caso emblemático envolve as rodovias MG-010 e MG-424, onde perícia do MPMG identificou elevada concentração de atropelamentos e ausência de medidas estruturadas de mitigação. Diante disso, foi ajuizada ação civil pública, e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve a determinação para que o Estado e o órgão rodoviário adotassem medidas de monitoramento, prevenção, resgate e atendimento aos animais, mostrando como dados técnicos podem orientar prioridades e fundamentar a exigência de políticas estruturais nos trechos de maior risco.
Jus Animalis – O blog Defesa, mantido pela CEDA, relaciona leis municipais de proteção animal, artigos especializados, vídeos com seminários realizados e publicações técnicas e pedagógicas, ajudando a ampliar e difundir o conhecimento obtido. E no tema da educação, que é a base para as mudanças sonhadas, fale um pouco sobre o papel de Samylla Mól e Aleluia Heringer na construção do ideal de um mundo melhor para todos.
Luciana Imaculada de Paula - Sempre considerei importante que o conhecimento produzido pela CEDA não permanecesse restrito ao ambiente institucional. E o blog busca cumprir esse papel: fazer esse conhecimento circular, aproximá-lo da sociedade e de quem atua na área e permitir que experiências e soluções possam ser conhecidas, compartilhadas e multiplicadas.
Nesse percurso, tenho também a honra de contar com a contribuição de duas mulheres extraordinárias, Samylla Mól e Aleluia Heringer, minhas amigas queridas. Embora com trajetórias próprias, ambas compartilham uma convicção que considero central: a transformação da relação entre seres humanos e animais passa pela educação, pela formação da sensibilidade e pela capacidade de questionar práticas culturalmente naturalizadas. O trabalho das duas amplia o alcance dessa reflexão e ajuda a construir, desde cedo, uma relação mais ética e respeitosa com os demais animais.
Jus Animalis – Pelo empenho à frente da CEDA, a Câmara Municipal de Belo Horizonte lhe concedeu o Grande Colar de Mérito Legislativo em reconhecimento à importância social de sua atuação funcional. O trabalho que desenvolve no MPMG também rendeu pauta no projeto Diálogos Ambientais, no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Como o reconhecimento público e o apoio de órgãos superiores repercutem em sua carreira? O que mudou em Minas Gerais depois do surgimento da CEDA?
Luciana Imaculada de Paula - Recebo essas distinções com profundo sentimento de honra e gratidão. Vejo nelas um significado que ultrapassa a dimensão pessoal, porque revelam que a proteção animal vem conquistando espaço e legitimidade dentro das instituições.
O Grande Colar de Mérito Legislativo e a oportunidade de apresentar experiências da CEDA no Conselho Nacional do Ministério Público representam também a valorização de uma área que, durante muito tempo, precisou afirmar sua relevância. Em minha trajetória, isso se traduz em maior responsabilidade, amplia os espaços de diálogo e fortalece o compromisso de seguir qualificando esse trabalho.
Essa visibilidade ganha especial significado porque a defesa dos animais ainda ocupa um espaço relativamente recente entre as áreas de atuação institucional. O Ministério Público exerce numerosas atribuições constitucionais, todas relevantes e frequentemente concorrentes na disputa por atenção e recursos. Nesse contexto, a criação da CEDA deu à proteção animal uma estrutura permanente de apoio especializado em todo o Estado, ampliando o suporte técnico e jurídico às Promotorias de Justiça e favorecendo a continuidade e a maior uniformidade da atuação.
Jus Animalis – Como enxerga o futuro do Direito Animal no Brasil, numa época de avanço da advocacia animalista, surgimento de ações e decisões inéditas, aprimoramento legislativo e maior conscientização social? Acredita que se o Ministério Público adotasse nos estados iniciativas como a CEDA, o país poderia evoluir na relação homem-animal? O Jus Animalis agradece sua participação na certeza de que seu papel nessa luta tem sido fundamental à causa da justiça e, acima de tudo, inspirador.
Luciana Imaculada de Paula - Vejo o futuro do Direito Animal com esperança. Nas últimas décadas, avançamos na ciência, na legislação, na jurisprudência e na própria consciência social. Hoje discutimos senciência, dignidade animal, famílias multiespécies, deveres estatais de proteção e políticas públicas que, há relativamente pouco tempo, sequer integravam de forma consistente o debate jurídico.
Há também uma mudança importante na sociedade. Questões que durante muito tempo permaneceram à margem do debate moral e jurídico ganharam centralidade: por que protegemos algumas espécies e naturalizamos a exploração de outras? Até onde a tradição pode justificar uma prática que causa sofrimento? A dor de um animal importa por si mesma? Essas perguntas ampliam as fronteiras da consideração moral e desafiam o Direito a rever categorias construídas a partir de uma perspectiva predominantemente antropocêntrica.
Sabemos, contudo, que esse processo não é linear. A história dos direitos mostra que conquistas jurídicas precisam ser continuamente afirmadas e protegidas. Considero a Emenda Constitucional nº 96 um exemplo de como avanços na proteção animal podem conviver com movimentos em sentido contrário. Por isso, ampliar direitos também exige vigilância para preservar o que já foi conquistado. E talvez um dos maiores desafios daqui em diante seja alargar o nosso círculo de consideração moral, para que a proteção alcance também os animais que ainda permanecem invisibilizados justamente porque sua exploração foi historicamente naturalizada.
Também precisamos fazer com que esses avanços jurídicos produzam efeitos concretos na vida dos animais. Isso significa dar efetividade aos princípios, às normas e às decisões judiciais por meio de fiscalização, políticas públicas, orçamento, estruturas adequadas e profissionais capacitados. É justamente nesse plano da efetividade que considero importante a criação de estruturas especializadas nos Ministérios Públicos, pois a experiência da CEDA mostra que a especialização amplia a capacidade institucional de compreender problemas complexos e construir respostas mais técnicas, uniformes e resolutivas.
Sei que ainda há muito a construir, mas também percebo que já percorremos um caminho importante. E, quando uma sociedade começa a reconhecer que a dor de outro ser importa por si mesma, começa também a ampliar os limites de sua própria ideia de Justiça.
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