A tristeza do jegue: desprezo sem preço!

A vida dos jumentos no Brasil está gravemente ameaçada! Estima-se que em 1967 havia 2.7 milhões de animais e 700 mil em 1981. Entre 2015 e 2019 foram abatidos 91.645 animais (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento por Fonseca, 2021 e McManus et al. 2023). Ameaçada por quem? Por quê?

Burro, jumento, jegue ou asno são diferentes nomes para a espécie Equus asinus, que surgiu no norte da África, Bacia do Rio Nilo, na forma selvagem. Não confundir com a mula, cruzamento de égua com jumento, um ser estéril.

Segundo McManus et. al (op. citi) eles foram domesticados inicialmente no Egito (estima-se a cerca de 7.000 anos), onde encontraram gravuras datadas de 3.100 a.C. Por serem dóceis e obedientes, passaram a ser usados na agricultura e no transporte de pessoas (incluindo Maria de Nazaré e Jesus Cristo) e de carga, sendo levados para várias regiões da África, Ásia, Europa e América. 

Chegaram ao Brasil pelas naus portuguesas, em meados de 1500. Posteriormente, aqui surgiram três raças. Essencialmente importante para o desenvolvimento do Brasil, desde a época da colônia até este século 21, sendo considerados parte da família de muitos nordestinos, como diz a canção:

“(...) Animal sagrado, jumento, meu irmão, eu reconheço teu valor, tu és um patriota, tu és um grande brasileiro! Eu "tô" aqui jumento, pra reconhecer o teu valor, meu irmão” – Apologia ao Jumento, canção de Luiz Gonzaga e José Clementino, de 1976.

Jumentos não são descartáveis

O tempo passou, a modernidade chegou, e as funções dos jumentos foram substituídas pelos maquinários agrícolas, pelos carros, pelas caminhonetes e motos. Sem serventia, passaram a ser tratados como objetos “descartáveis”. 

Desprezados e abandonados à própria sorte, nas áreas rurais e nas beiras das estradas, tornaram-se vítimas de atropelamentos e/ou causadores de acidentes, sendo capturados e abatidos (McManus et al., 2003, Mundo Ecologia, 2019 e Fonseca, 2021). Abandonar animais não é considerado um crime ambiental?

Basicamente só as famílias mais pobres, residentes nas áreas mais distantes, no semiárido, continuaram dependendo do seu imprescindível auxílio, e respeitando seu ciclo de vida. As fêmeas se reproduzem a partir dos três anos de idade, e o período de gestação é de aproximadamente 12 meses, nascendo somente um filhote. Quem convive com os jegues sabem que são andarilhos e, quando ficam presos, confinados, tendem a desenvolver depressão e morrer de doenças ou inanição (Mundo Ecologia, 2019).

Mas, a maior ameaça à vida deles vem da antropocêntrica ganância humana.

Registros divulgados por vários autores informam que desde meados do Século XX até a década de 2020, milhares de jegues foram levados para abatedouros, legais ou clandestinos, visando a exportação de carne (de forma legal ou não) para consumo humano, preparo de ração animal, e de couro. 

O mercado consumidor está em países como: Itália, Portugal, Rússia, Vietnã e Japão. Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento mostraram que o abate aumentou mais de 8.000% entre 2015 e 2019. A partir de 2016, o Brasil passou a exportar couro diretamente para a China (McManus op.citi). 

Reportagens registraram que, em algumas cidades da Bahia, antes do abate, em áreas arrendadas por empresários chineses, os animais eram confinados em recintos sem água e alimentação. Denúncias à polícia foram feitas por pessoas indignadas com tal situação, gerando protestos. A justiça federal interveio, animais foram resgatados, mas a matança continuou em outros locais. 

Por que há tanto interesse dos chineses no nosso jegue? 

O couro é empregado na fabricação de uma gelatina, o E jiao (Colla corii asini), utilizada na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), com diversas finalidades tais como: nutre o sangue de pacientes com anemia, câncer (sob tratamento de quimioterapia) e mulheres com hemorragias menstruais, diminui a insônia e a impotência sexual (E Jiao 阿膠 – cura-te a ti mesmo (curateatimesmo.com.br).

A MTC se originou há cinco mil anos, por Huáng Dì, o Imperador Amarelo. Visa tratar os pacientes por intermédio da acupuntura, da massagem Tui Ná e da fitoterapia (a base de ervas e substâncias de origem animal), entre outras técnicas, para harmonizar, nutrir e equilibrar a energia do paciente.

Em 1990, quando o E jiao foi registrado oficialmente, “a China abrigava a maior população de burros do mundo”. Tendo seu estoque drasticamente reduzido, a indústria chinesa investiu na criação natural de jumentos e em programas de fertilização artificial, mas, não trouxeram o resultado esperado (Johnston, 2023).  Então, saíram buscando “matéria prima” na África, América do Sul e Austrália, financiando os abatedouros e a exportação.

A partir de 2011, a procura pelos consumidores de E Jiao cresceu muito. Uma série produzida para televisão chinesa, “Imperatrizes no Palácio, a lenda de Zhen Huan”, ambientada em 1722, mostrava a imperatriz e as concubinas consumindo-o diariamente, “para se manterem bonitas e saudáveis” (Johnston, 2023; Gill e Stephens, 2024).

Reportagens mostraram que moradores de áreas rurais, no nordeste do Brasil e em países africanos, foram motivados a capturar animais em vida livre, e até furtá-los de famílias pobres, para vender aos abatedouros. Em algumas cidades da Bahia, a polícia descobriu que os jegues eram vendidos aos abatedouros entre 30 e 150 reais (Machado, 2019). Em 2013, as vendas de E jiao, atingiram 19,6 bilhões de yuans (1 yuan = R$ 0,69) e, em 2020, 53,5 bilhões de yuans, sendo o quilo vendido por US$ 780 (Johnston, 2023).

Em fevereiro de 2024, a proibição do abate no Brasil foi decidida pela Corte Especial do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. Mesmo assim, a Frinordeste, em Amargosa (BA), abateu 14 mil jegues (Gill e Stephens, 2024).

Mas, estariam estas instalações seguindo as leis trabalhistas, de saúde pública e ambientais? Estariam, estes empresários, sendo guiados pela visão egocêntrica de Maquiavel, de 1532: “os fins justificam os meios”? O apelo mais forte é o ganho monetário dos ricos, porém pobres de espírito, a partir de um animal não humano, barato economicamente, de inestimável valor existencial, para produzir um medicamento caro, para animais humanos. 

Boas Práticas Compassivas e Solidárias

Em vários países, incluindo no Brasil, pessoas solidárias e compassivas com os jumentos e com famílias pobres, que deles dependem totalmente, estão se mobilizando, exigindo intervenções legais, punição aos responsáveis e políticas públicas sustentáveis, como norteiam Goodrum et al (2022)

Compaixão não é um sentimento de piedade para quem sofre. Ela nos leva à renúncia de dominar, de matar qualquer ser vivo. Recusa toda violência contra a natureza, e visa construir a comunhão a partir dos que mais sofrem (Boff, 1999). Para tanto, temos que transmutar o egocentrismo e a visão utilitária dos animais.

Fonseca (2021) alerta: “é fundamental mudar a abordagem em relação ao manejo de jumentos no Brasil, apelar para a necessidade de identificar maneiras éticas e sustentáveis de incorporá-los em uma cadeia produtiva no século 21”.

"O que gostaríamos de ver é as empresas de E jiao pararem de importar peles de jumento e investirem em alternativas sustentáveis - como a agricultura celular (produzindo colágeno em laboratórios). Já existem maneiras seguras e eficazes de fazer isso” menciona Faith da Donkey Sanctuary, uma organização não governamental inglesa, que atuam a favor desses animais desde 2017. 

Em 18.02.2024, a União Africana aprovou uma proposta de proibição sem prazo definido do abate e a comercialização das peles dos animais em toda a África, mas nem todos os países concordaram, e seguiram suas políticas. Segundo a BBC: “em breve poderá haver um ponto de virada, com os governos dos Estados africanos e do Brasil, discutindo a proibição do abate e a exportação de jumentos em resposta à diminuição das populações.

No Brasil, a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos e a Promotorias de Meio Ambiente, juntamente com várias ONGs e universidades têm atuado em conjunto compondo a Força Tarefa Nacional pelos Jumentos, desde 2015. 

Entre as alternativas sustentáveis encontradas no Brasil está a produção do leite da jumenta em escala comercial (Farias, 2023). Na Alemanha, França e Itália, este leite (em pó) tem sido usado para complementar a nutrição de bebês prematuros, por possuir alto teor de lactose, baixo teor de gordura e reduzir a liberação do hormônio do estresse. Há empresas que vem desenvolvendo a produção de sorvetes com sucesso, mas para queijos não se mostrou viável. 

Medieros (2018), com bons resultados, defende a Terapia Assistida por Animais, o uso de jumentos como coterapeutas junto às crianças, adolescentes e adultos por exemplo, com Transtorno do Espectro Autista.

Entrevistamos dois profissionais da Medicina Tradicional Chinesa em São Paulo, em março de 2024. O médico Dr. Y., originário de Taiwan, e a terapeuta Fernanda Toscano, fundadora de Raízes da Cura - Centro de Pesquisa em Fitoterapia Chinesa. Ambos afirmaram que não há necessidade de sacrificar os jumentos.

Fernanda prepara E Jiao a partir da gelatina (tutano) de bois e suínos, utilizando nas fórmulas, “ervas associadas com poder de nutrição intensa, obtendo a propriedade de regeneração da medula, sem sofrimento aos jumentos, para tratar de mães que apresentam quadros de anemia pós-parto e bebês com dificuldade de ganhar peso.

O taoísmo, nascido na China antiga, é uma tradição filosófica que valoriza a harmonia com a natureza e a busca pela simplicidade. Ensina Lao Tsé que, nesta vida, nos cabe conquistar apenas três tesouros: a simplicidade, a humildade e a afetividade (compaixão), virtudes que o dinheiro não compra.  

Conclusão 

Nada justifica a crueldade com os jumentos! Eles merecem respeito por todo seu sacrifício à humanidade. Neste século 21, há recursos científicos e tecnológicos suficientes para produzir E jiao, e outros medicamentos, sem o sacrifício de animais. Precisamos de políticas públicas que os defendam, de profissionais mais bem capacitados para fiscalizar, e de preferência, com autoridade para fechar os abatedouros. Urge investimentos em pesquisas e ações que os protejam e os beneficiem, e trabalhos de educação socioambiental, gerando emprego e fonte de renda às populações carentes.

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Referências bibliográficas

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GILL, V. e STEPHENS, K. Os milhões de jumentos mortos todos os anos para produzir remédio tradicional. Para BBC News. 21.02.2024. Disponível em Ejiao: o remédio tradicional chinês que mata milhões de jumentos todos os anos - BBC News Brasil Acessado em março de 2024 

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IRIS FERNANDES POFFO

Bióloga com doutorado em Ciências Ambientais pela USP/SP. Pós doutorado em Psicologia pela PUC/SP. Terapeuta holística. Escritora.

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