Dietas e ideologias que esculpem a biosfera de forma cruel e letal
04 de maio de 2026
Pode soar estranho para muitos, mas comer carne – e outros produtos de origem animal – não é uma necessidade inerente à espécie Homo sapiens. No que tange às sociedades industriais, trata-se apenas de um hábito cultural extremamente arraigado que podemos chamar de carnismo. Segundo a psicóloga Melanie Joy (2010), que cunhou o termo, o carnismo é sinteticamente um sistema de crenças que objetifica os animais e naturaliza o consumo de carnes e itens derivados de determinados animais, como bovinos, suínos e aves, mas também coelhos, répteis, e várias espécies aquáticas [1].
Para os povos nômades e caçadores-coletores pode ser difícil excluir potenciais fontes alimentares. Entretanto, nas regiões urbanas e industrializadas do planeta, temos hoje à nossa disposição uma ampla variedade de fontes de proteína vegetal e um sólido conhecimento científico que nos garantem uma alimentação balanceada e saudável. A dieta carnista, nesse contexto, é anacrônica e moralmente condenável, já que estamos falando da exploração e morte de seres sencientes unicamente para atender ao paladar humano.
Essa é uma ótima notícia para a questão ambiental, porque a cadeia produtiva agropecuária consome recursos naturais renováveis e não renováveis [2] em quantidades absurdas, degrada os solos, e polui os rios e o ar. São também gerados outros passivos ambientais extremamente perigosos, como a criação e a disseminação de resistência bacteriana [3] (Enshaie et al., 2025), uma ameaça à saúde global. Esse setor produtivo é também o principal vetor de desmatamentos e incêndios florestais que causam perda de biodiversidade e desfaunação, isto é, a perda acelerada e a eventual dizimação de animais silvestres.
Esse processo de desfaunação é tão agressivo que atualmente a biomassa de mamíferos terrestres é constituída sobretudo por humanos e seus animais de criação, restando apenas cerca de 4% em estado selvagem. No caso das aves, outro grupo estudado, o cenário é menos dramático, mas menos de um terço encontra-se em estado selvagem (Bar-on et al., 2018). Esses dados são corroborados por uma pesquisa de Mureau et.al (2025) que mostra que no último milênio a influência humana promoveu aumentos sem precedentes no tamanho corporal das espécies domésticas, enquanto as selvagens exibiram uma tendência de diminuição. Ou seja, a dieta carnista-especista transfigurou a face do nosso planeta, outrora dominado por animais selvagens.
Esse conjunto de acontecimentos trágicos encontra-se na base de inúmeros problemas, incluindo as mudanças climáticas. Com o extermínio dos animais selvagens (e seus habitats), os “serviços ambientais” [4] por eles prestados são simplesmente aniquilados: é fundamental o papel da fauna silvestre na manutenção da saúde das florestas e outros biomas, e é todo esse conjunto que assegura o bom funcionamento dos ciclos naturais que garantem uma relativa homeostase planetária (Brügger, 2021).
As mudanças no uso da terra são a principal causa do processo de desfaunação, devido às perdas de habitats. Nesse cenário de terror, milhares de animais selvagens morrem queimados, ou de sede, por conta de incêndios florestais. Milhares de outros, adultos e filhotes, sucumbem à fome porque foram expulsos de suas terras. Predadores de topo são frequentemente recebidos à bala por fazendeiros, por atacarem animais explorados pela pecuária.
Invadimos, degradamos, e destruímos os territórios desses predadores e os deixamos sem nenhuma opção para comer. O que deverá uma mãe-puma ou mãe-onça ensinar aos seus filhotes? Tais animais, que precisam de territórios de dezenas de quilômetros quadrados para sobreviver, acabam atacando o gado, pois já não restam pacas, capivaras, e outros animais que costumavam ser suas presas. Muitos deles são vítimas do mito de superpopulação. A triste verdade é que ao perderem seus territórios, esses “sem terras” acabam vagando famintos nas periferias de cidades, e até em quintais residenciais.
Devem esses animais desaparecer da Terra para que os humanos possam saborear um churrasquinho ao menor custo possível e exportar cada vez mais? Ao contrário de nós, eles não podem trocar seu bifinho de carne por um de proteína vegetal. Mães-onças ou pumas não podem ensinar aos seus filhotes algo diferente de caçar porque elas não têm escolha (Brügger, 2004a) [5].
É patético pensar que na educação formal, especista, aprendemos que a fauna é um recurso natural renovável (veja nota 2). E como o principal sentido da palavra “recurso” é “meio para se atingir um fim”, esses animais não são vistos, por conseguinte, como fins em si mesmos. O atual processo de desfaunação é talvez a prova mais contundente do fracasso do ambientalismo clássico, que objetifica e despersonifica os animais. Esse ambientalismo meramente conservacionista jamais resolveu os grandes problemas do nosso tempo. Não conseguiu salvaguardar os animais selvagens sequer sob a ótica antropocêntrica, instrumental. Isso não chega a ser uma surpresa, uma vez que a ciência que se tornou hegemônica separou-se da ética em seus primórdios [6].
Essa tragédia moral tem muitos outros capítulos. As granjas modernas são verdadeiros campos de tortura e extermínio de aves, suínos, bovinos, e outros animais. Submetemos esses seres sencientes a um grande sofrimento para aumentar a produtividade do que deles tomamos à força: carne, ovos, leite, peles etc. Para atender às exigências de um mercado cada vez mais faminto de proteínas e itens de origem animal, a baixo custo, os animais são submetidos a confinamentos em condições deploráveis, longas jornadas – sem água ou comida, suportando temperaturas extremas – mutilações de vários tipos, separação entre mães e filhotes, marcação com ferro em brasa e um sem-número de outros tratamentos atrozes. Esses seres indefesos, categorizados como objetos, levaram vidas cheias de martírios, totalmente desprovidas de quaisquer experiências positivas. Os abatedouros ensanguentados são o seu último destino.
É interessante ressaltar que o tratamento abjeto de animais que não estão em extinção – os domesticados – tem um impacto direto sobre a preservação dos animais que correm risco de extinção. Isso é uma das expressões da interdependência, um conceito muito difundido em discussões sobre o caráter interdisciplinar do conhecimento, mas de fato pouco compreendido e, portanto, pouco aplicado (Brügger, 2004a, p.53).
Os povos originários também são vítimas desse sistema que gera conflitos e disputas ligados à ocupação/grilagem de terras. Vale sublinhar que a dieta carnista não é apenas especista, mas também colonialista. O modelo que une domesticação de grãos destinados à ração animal, e vastas áreas ocupadas por pastagens, é diametralmente oposto às práticas tradicionais desses povos (Brügger, 2004a, p.45; 143). Trata-se de uma oposição que é ao mesmo tempo histórica, cultural, ecológica, e (gen)étnica. Ademais, como demonstra Aragão (2022), é justamente nos territórios indígenas e quilombolas – basicamente, nos “modelos de jardins” - que encontramos a diversidade necessária para a manutenção da vida no planeta.
Infelizmente a nossa cultura ocidental-industrial é também narcisista, “acha feio o que não é espelho”, como disse Caetano Veloso na canção “Sampa”, de 1978. Estamos, nos Trópicos, reféns de valores, modelos, e modos de produção que pouco ou nada têm a ver com os das culturas autóctones. Dessa forma, “civilizado” e “desenvolvido” são o resultado de um des-envolvimento, ou seja, de uma ruptura ecológica, ética, e estética com os modos de produção dos povos originários, rumo a um modelo técnico único (e colonialista), como vaticinaram Milton Santos (1994) e Herbert Marcuse (1982). Des-envolver, nesse sentido hegemônico, encontra uma convergência filosófica surpreendente com a tese marcusiana do pensamento unidimensional. De fato, essa foi a história da colonização da maior parte dos povos ditos “primitivos” (sic) do hemisfério Sul (Brügger, 2004b, p.73).
Esse mesmo olhar para o próprio espelho tem sido usado como pretexto para desqualificar e/ou emitir juízos de valor negativos não apenas sobre outros povos e culturas, mas também sobre os animais não humanos. Em ambos os casos, dizemos o que eles não têm – por exclusão à nossa imagem – e não o que são [7]. Essa transformação de diferenças em hierarquias pavimentou a base espúria sobre a qual ergueram-se as mais variadas formas de escravização. E o sistema produtivo carnista, especista, não é uma exceção. Penha e Campos (2025) reportam não só a associação desse setor ao trabalho humano análogo à escravidão, mas também à invasão de terras indígenas e ao desmatamento ilegal.
Como se tudo isso não bastasse, grupos econômicos ligados a esse segmento formam clusters com uma forte atuação na esfera política (Brügger et al., 2016). No Brasil, nos últimos doze anos, o lobby do agronegócio cresceu e se consolidou como a principal força política do Congresso: a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) quase dobrou o número de parlamentares filiados. Hoje, ela controla dois terços da Câmara e do Senado, e comanda o desmonte de leis ambientais e da proteção aos povos indígenas, quilombolas e camponeses (Bassi, 2025).
Mesmo sem uma perspectiva abolicionista animal, Kimbrell (2002, apud Brügger, 2004a, p.55-56) já nos advertia que a agricultura industrial está devastando a terra, o ar e a água, e ameaçando a sustentabilidade da biosfera. Seus massivos insumos químicos e biológicos causam problemas ambientais, doenças humanas, e morte. Seu sistema de monocultura reduz a biodiversidade e destrói habitats, pondo em risco a vida selvagem. Suas práticas pecuárias causam um sofrimento animal nunca imaginado. Sua propriedade corporativa centralizada destrói comunidades rurais no mundo todo, e leva à fome e à pobreza em massa. A fome no mundo não é devida à falta de comida, mas à pobreza e à falta de terras [8], as quais negam a uma expressiva parcela da população o acesso à comida. Na verdade, a agricultura industrial aumenta a fome, ao desenvolver colheitas de luxo - como carne, flores, algodão, café, camarão - e itens para a exportação. Isso eleva os custos da produção de alimentos, além de forçar o êxodo de milhões de pequenos produtores de suas terras, aumentando a massa de desempregados e sub-empregados das grandes cidades.
Enfim, os reais custos desse modo de produção não estão refletidos nos preços de seus produtos. Os custos éticos e morais são imensuráveis. Mas se ao menos os custos ambientais e sociais fossem internalizados - suas externalidades negativas quantificadas e precificadas - esses produtos não mais teriam valores competitivos. Por ora, resta esperar que os impactos devastadores sobre a sustentabilidade da biosfera – incluindo a estabilidade climática – não sejam irreversíveis. Muitos desses custos já estão sendo pagos por todos. Mas o cenário poderá ser bem mais crítico para as gerações futuras. E aqui incluo os animais não humanos ainda por nascer.
Os segmentos responsáveis por essa calamidade multidimensional não se cansam de enaltecer apenas os seus aspectos positivos, isto é, econômicos. Todavia, no Brasil, a maior parte das emissões de gases de efeito estufa – mais de 70% - vem de dois setores: a agropecuária, e as mudanças no uso da terra, sendo essas últimas provocadas sobretudo por esse mesmo setor (SEEG, 2024). Estamos produzindo cada vez mais carne, e o país tornou-se uma potência exportadora (Torres e Gonçalves, 2025). Mas a que custo?
O papel da educação informal, sobretudo a que vem da grande mídia, é fundamental na perpetuação desse estilo de vida cruel para os animais, e predatório em incontáveis domínios. Os comerciais de produtos de origem animal escondem as etapas sórdidas dos seus processos produtivos, e exibem imagens totalmente irrealistas sobre eles, como frangos velozes, porquinhos sorridentes, e vacas orgulhosas de venderem seus próprios cadáveres e secreções corporais, como o leite (Brügger, 2018).
Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais percebemos que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, ou seja, estão interligados e são interdependentes (Capra,1996, p.23). Isso vale para o contexto da inextricável interrelação entre a exploração da natureza e a dos animais humanos e não humanos.
Fica clara, por conseguinte, a importância das abordagens sistêmicas sobre a saúde humana, animal e planetária (Brügger, 2004a). Somos um todo. Existe uma interconexão, um continuum entre as dimensões biológicas, psíquicas, ambientais, políticas, e éticas que influenciam a nossa ecologia (interior e exterior): o que comemos esculpe a biosfera.
Pensadores de diversas tradições culturais vêm, há tempo, alertando quanto aos perigos da visão instrumental e fragmentada que domina a nossa cultura de origem europeia. Todos os indícios de que fazemos parte de um todo estão emergindo de forma clara, mas muitos insistem em ignorar esses sinais.
Quanto aos animais não humanos – e aqui me refiro a todos, não só a cães ou gatos – precisamos urgentemente aprofundar essa discussão. Ideias como “Ser gentil com o planeta”, ou “Pisar suavemente sobre a Terra” demandam muito mais do que separar o lixo, ou consumir orgânicos. É nosso dever respeitá-los na prática como seres sencientes, e incluí-los no nosso círculo de moralidade [9].
Tiramos dos animais a única coisa que eles têm: suas vidas. Isso, sem necessidade, apenas para agradar as nossas papilas gustativas, pois incontáveis estudos mostram os benefícios globais das dietas baseadas em plantas [10]. A culinária carnista e especista é intensiva em crueldade e recursos naturais, enquanto a vegana, baseada em plantas, é intensiva em conhecimento e altruísmo. Repito: o conhecimento científico que temos hoje nos permite fazer a transição para essa última com toda a segurança.
Isso é muito importante porque quanto mais urbanizado e industrializado se torna um país, ou região, maior tende a ser o consumo de carne e produtos de origem animal. De resto, tais regiões funcionam como “vampiros energéticos”, “buracos negros” que sugam matéria e energia de outros ecossistemas, o que é termodinamicamente problemático. Mas no caso da dieta carnista, há ainda um elemento macabro: sugar a energia, o sangue, e o sofrimento de seres indefesos.
Ripple et al. (2025) nos alertam que o crescimento da população humana, a pecuária, e o consumo de carne atingiram níveis recordes, com um acréscimo de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas e 0,5 milhão de ruminantes por semana. Estratégias de mitigação das mudanças climáticas estão disponíveis, são economicamente viáveis, e urgentemente necessárias. Entre as mudanças mais prementes estão a redução do consumo (principalmente entre os mais ricos), a estabilização da população humana, e a transição para sistemas alimentares baseados em vegetais. Para os autores, essas mudanças sistêmicas são necessárias para salvaguardar a biosfera e promover o bem-estar a longo prazo.
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Referências bibliográficas
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Notas:
[1] A indústria da moda é também emblemática nesse sentido. Esse setor não explora apenas o couro de bovinos e suínos. Coelhos, ovinos, caprinos, e répteis – como crocodilos, lagartos, e cobras – são esfolados vivos, ou cruelmente abatidos, para produzir fibras para tecidos de luxo como cashmere, mohair e angorá, e bolsas caríssimas (de pele de répteis). Exemplos de marcas que usam tais itens são Gucci, Louis Vitton, Dior, Prada, Ralph Lauren, Chanel, Burberry, etc.
[2] A divisão didática “recurso renovável x não renovável” tem um sério inconveniente: pode levar à ilusão de que os recursos renováveis são inesgotáveis, ou que o seu uso é sempre sustentável, o que não é verdade. Um recurso dito renovável é tão somente aquele capaz de se renovar em uma escala de tempo compatível com a da vida humana. Na verdade, todos os recursos são renováveis. Muitos, porém, o são em escala de tempo geológica. A questão centrale aqui é o equilíbrio entre taxa de uso e taxa de renovação. Assim, um recurso “renovável”, como a água, pode se esgotar, caso essa taxa não seja respeitada. Isso já acontece com aquíferos e rios mundo afora. Outro problema dessa divisão é obscurecer as trocas e interdependência entre tais recursos.
[3] A resistência a antibióticos, ou resistência antimicrobiana/bacteriana, acontece devido ao uso excessivo e inadequado (preventivo) de antibióticos que são administrados a animais explorados na pecuária. Trata-se de uma crescente ameaça em termos de saúde global, pois essas cepas resistentes podem ser transmitidas aos humanos pelo consumo de produtos de origem animal, contato direto, ou exposição ambiental.
[4] O termo “serviço ambiental” emerge no contexto do nosso universo de pensamento antropocêntrico, especista, e cristalizado na racionalidade instrumental. Essa expressão também nos remete à ideia de que a natureza trabalha gratuitamente para nós humanos.
[5] Sobre os três últimos parágrafos, veja mais em Brügger (2004, p.51-52).
[6] Sobre a separação entre ciência e ética, veja, por exemplo, Marcuse (1982, p.144)
[7] Aqui me aproprio (e expando para o contexto animalista) da crítica que o brilhante geógrafo Carlos Walter Porto Gonçalves fez acerca da nossa visão limitada sobre os povos autóctones.
[8] No que tange à fome e à falta de terras, destaco que as extensas áreas cultivadas com grãos destinados à ração animal e a pastagens, poderiam ser alocadas para a produção de alimentos para os humanos. Além disso, tais grãos poderiam nos alimentar diretamente.
[9] É por isso que nós, veganos, dizemos: “Não, nem peixe!” Além deles, os insetos, crustáceos, moluscos, e muitos outros animais são seres sencientes que também sentem medo e dor.
[10] Exemplo recente é uma pesquisa que mostra que a substituição de carne e laticínios por alimentos à base de plantas pode reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que traz inúmeros benefícios à saúde humana (Fischer et al., 2026). Quanto aos benefícios para os animais não é preciso provar nada!